O jornalista é o inimigo, por Melillo Dinis

Não é mais prioridade a coalizão. A colisão é a forma de enfrentar “tudo que está aí”. Na lógica do atual Presidente do Brasil, se o modelo de coalizão deu errado no passado, a única solução é a colisão.

O jornalista é o inimigo

por Melillo Dinis

Em tempos de presidencialismo de colisão, tudo muda, inclusive para a velha prática do jornalismo. Nos últimos anos aumentou a crise da política brasileira que, somada à crise econômica, à disfunção do sistema, à violência, à polarização e ao ódio, criou o ambiente perfeito para um novo sistema, que traz em sua essência a ideia do permanente inimigo: o presidencialismo de colisão!

O novo modelo político brasileiro, o presidencialismo de colisão, coloca no centro das relações políticas a figura do “inimigo”. O cenário é de beligerância, conflito, guerra, tiro, porrada e bomba. Não dá para tocar o terror do conflito todos os dias e em todas as direções. Bolsonaro foi eleito numa onda de polarização, desencanto com a política e com os políticos, medo e tensão que se reproduziu no núcleo de seu governo e no modo de fazer política. Não é mais prioridade a coalizão. A colisão é a forma de enfrentar “tudo que está aí”. Na lógica do atual Presidente do Brasil, se o modelo de coalizão deu errado no passado, a única solução é a colisão. A política da colisão é a antipolítica, o poder em desarmonia com a governabilidade e a governança.

Houve um tempo do bate e assopra. Era assim a política. Agora é diferente. Apenas se bate. Sem distinção quando se trata das instituições, sejam elas estatais ou sociais. O equívoco mais frequente deste estilo é imaginar que o poder decorre exclusivamente dos resultados eleitorais. Ledo engano. Basta olhar para a disfunção democrática: este negócio de liberdades e participação já entrou no módulo extinção.

Enquanto ainda podemos resistir, há atividades cada vez mais em risco. Uma delas é o jornalismo. Depois de décadas lutando pela liberdade de expressão e de imprensa, acabamos por viver num período em que o negócio “jornalismo” e a atividade dos jornalistas são cada vez mais suspeitos e que estão no topo da lista de destruição das liberdades. Não que tenha sido diferente no passado. No período da ditadura civil-militar brasileira ser jornalista não era fácil. Mas agora ficou mais complexo. É uma democradura! Pouca transparência sob uma avalanche de informações que transformou a essência da comunicação apenas em som e fúria.

Os espaços de resistência, cada vez mais raros, tem sido poucos e sob uma desconfiança gerada por robôs e redes sociais, que acabam reduzindo o processo de investigação jornalística ás páginas policiais. O que caracteriza o poder punitivo é justamente o exercício da força sobre o “outro”, considerado como perigoso e inimigo da sociedade. Sem limites, chegamos à completa barbárie ou a estágios pouco civilizados, sem o predomínio do Estado de Direito. As recentes ações contra os jornalistas são mais um elemento desta fase que passeia chamar de presidencialismo de colisão.

Há casos nacionais de repercussão internacional. Parece-me que o caso Gleen Greenwald e de seus colegas de atividade dá esta dimensão. O “The Intercept”, com todas as suas lutas e investigações, é um exemplo do quadro da construção do inimigo. Mas outros casos acontecem pelos rincões do país. Há jornalistas assassinados. Há jornalistas calados. E, há o caso do jornalista Ricardo Antunes, em Recife-PE.

Ricardo Antunes é parte de um imbróglio sem fim ante o poder de quem manda naquela parte do mundo. Submetido à vários processos, só está ainda circulando pela cidade por conta de sua resistência. Foi preso e censurado. Corre o risco de ser marginalizado pela sua luta pela informação. Com pouco apoio, a sua luta é para que não seja condenado sem direito à defesa, para que resista ao império sem lei, para que a democracia, sem muito prestígio e numa atividade cada vez mais desacreditada, sobreviva a uma elite que impõe decisões e governantes que não toleram críticas, perguntas ou investigação, que promovem discriminação política e ideológica, que matam aos poucos pela ameaça de prisão e censura.

Melillo Dinis – Analista sênior do Portal Inteligência Política e advogado em Brasília-DF

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