O teste de responsabilidade de igrejas e lideranças que se politizaram, por Bruno Reikdal Lima

Na tradição bíblica haviam séries de leis rudimentares para solução de problemas de saúde que afetassem a comunidade. A preocupação era com a vida do grupo, para que se mantivesse e perdurasse.

O teste de responsabilidade de igrejas e lideranças que se politizaram

por Bruno Reikdal Lima

Desde de que a OMS declarou estarmos em estado de pandemia, as atenções públicas sobre a preocupação com as transmissões do coronavírus tiveram seu tom de gravidade aumentado no Brasil. Pelo menos para quem não é irresponsável e compreende a seriedade que se deve ter frente ao potencial alarmante da doença. E dentre as muitas figuras públicas e lideranças que devemos cobrar, estão as religiosas. Nos últimos anos, em especial, os movimentos evangélicos tem sido decisivos em campanhas eleitorais e nas disputas por pautas nas casas legislativas, assim como em manifestações populares. Frente a isso, temos um teste de fogo posto para os fiéis avaliarem a responsabilidade e comprometimento de seus líderes com o bem comum.

O enfrentamento de uma pandemia, as políticas públicas a serem tomadas, defendidas e o engajamento e responsabilização individual não é (ou não deveria ser) uma questão partidária. O vírus aparentemente não escolhe o infectado por suas bandeiras ideológicas ou por filiações a movimentos e instituições. Catástrofes pegam a todos, de imediato, sem ver suas diferenças. O que distingue, posteriormente, é a capacidade de resiliência e absorção do impacto de um mal como esse – e nesse momento os grupos de riscos e a divisão de classes, sim, separa quem terá maiores ou menores recursos para enfrentar a doença, no caso. Todavia, hoje, a contenção da transmissão depende de uma rápida tomada de decisão de grupos humanos, conscientização individual e comprometimento de todos, pois estamos potencialmente vulneráveis. E o papel desempenhado por quem exerce cargos de liderança e influência ganha um peso enorme nesse momento: optar por manter suas atividades ou suspender e transformar o cotidiano emergencialmente para proteger a vida das comunidades.

Desse modo, os grandes cultos, mega eventos religiosos e outros tipos de aglomerações precisam ser evitados. Contudo, são esses os momentos dos ritos religiosos e da experiência de fé de famílias e grupos inteiros, e mesmo o ganha pão (ou a multiplicação de ganha pão) de outros. Como proceder, portanto? Cada fiel que se expuser corre risco e ainda compromete a vida de outros, caso se torne ele um vetor para a transmissão do vírus. E a cobrança das lideranças por pela manutenção e ainda a participação nos eventos religiosos se torna um indicator para averiguar se de fato esse padre, esse pastor, essa pastora ou qualquer outra nomenclatura que esteja disponível no mercado, está preocupado e comprometido com a vida dos membros que estão sob sua responsabilidade ou não. Mais ainda, se os líderes religiosos que se envolveram na politização das igrejas nos últimos tempos realmente têm apreço pelo espaço público ou não. A vida da sociedade realmente é um elemento importante ou apenas um veículo para acumulação de dinheiro e abuso de influência e poder?

Na tradição bíblica haviam séries de leis rudimentares para solução de problemas de saúde que afetassem a comunidade. A preocupação era com a vida do grupo, para que se mantivesse e perdurasse. O papel dos sacerdotes, que por vezes unificavam a execução do poder político e religioso, era fundamental em servir a todos a partir de rituais bastante precários e orientações para cuidados com epidemias, inclusive de isolamento. O sacerdote por vezes tinha que arriscar a própria saúde, e não a de outros, para garantir que surtos tinham passado ou evitar que ocorresse algum. Por vezes, festas e celebrações comunitárias foram adiadas ou mesmo suspensas, para proteger a vida de todos. Teremos a mesma preocupação e engajamento dessas lideranças hoje, ou utilizarão de sua autoridade eclesiástica para forçar religiosas e religiosos a se colocarem em risco e potencializarem os perigos de uma pandemia em curso?

Nesse momento fiéis devem avaliar e julgar o posicionamento de suas lideranças. Colocar em questão sua verdadeira preocupação política, com o espaço público e bem comum. De nada adianta o uso do púlpito e do trabalho voluntário cotidiano da vida de pessoas que tem sua prática religiosa como algo fundamental para envolvimento com campanhas e pautas de costumes, e em um momento crucial para exemplarmente demonstrar e participar do cuidado com o ambiente político cotidiano dar para trás e optar pelo funcionamento das instituições presencialmente. Temporariamente, como já orientado, aglomerações de pessoas não devem ocorrer.

Isso não impede, contudo, o exercício religioso intra-familiar e em círculos pequenos. Não impede que se planeje e pense uma campanha religiosa temporária nesse período de risco no qual se tem requerido mudanças de hábitos e práticas comuns. Não impede que se potencialize a produção de conteúdo a ser compartilhado, que sejam incentivadas práticas de fé de cada pessoa em suas relações próximas, como já se faz. De todo modo, depende de se exigir das lideranças religiosas (em especial as que se voltaram tanto nos últimos anos para a preocupação com a política nacional) que tomem uma postura coerente e responsável. Depende de utilizar momentos críticos como teste de responsabilidade de autoridades e mesmo de suas intenções.

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