Tiraram Bozo da garrafa e agora não sabem o que fazer com ele, por Armando Coelho Neto

Bozo já cometeu crimes de responsabilidade ao atentar contra os demais poderes e a ordem constitucional. Agora, pratica crime comum, na medida em que convoca passeatas, carreatas, incita atos coletivos país afora

Tiraram Bozo da garrafa e agora não sabem o que fazer com ele

por Armando Rodrigues Coelho Neto

Cena 1 – 13 de abril. Uma mulher de 44 anos é arrastada por policiais da Guarda Municipal da cidade de Araraquara, interior de São Paulo. Ela se recusa a cumprir decreto municipal sobre isolamento social. Diz ser coisa de comunismo e morde um dos policiais. É uma cena tão violenta quanto triste. Violenta, sim! Mas, só mesmo dardos para contenção química de animais selvagens a evitaria. Triste, por quê? Em mais de três décadas na Polícia Federal, a imagem de um ser humano no camburão ou atrás das grades nunca me foi símbolo de avanço civilizatório, ainda que necessária. A instância penal prova da falência de todas as outras.

Cena 2 – 12 de abril. A advogada Beate Bahner, conhecida como “heroína” dos negacionistas da covid-19, na Alemanha, é presa, não sem antes agredir, também, um policial. A covid-19 é “apenas uma gripezinha, um resfriadinho”; o isolamento social é inconstitucional, viola direitos fundamentais, entre eles o de manifestação  e o de ir e vir, diz ela. Criou o evento “Coronia 2020” – uma convocação para um protesto nacional contra o isolamento social. Para a justiça, disse não haver nenhuma “situação epidêmica de importância nacional” e que “houve falha na prevenção”.

Cena 3 – Não tem data. Aliás, tem muitas datas. Não é uma cena. São muitas, protagonizadas por aquele que se diz presidente da República. Na contramão do combate à covid-19, entre crises de tosses, assoando o nariz, ele passa a mão em qualquer parte do corpo, inclusive as mais vulneráveis e cumprimenta fiéis. Em gestos tresloucados, ora lembra Janaina Pascoal do pré-golpe 2016, ora se parece com a felina selvagem de Araraquara, ora com toques de paranoia da advogada alemã (negacionista). A rigor, ele incorpora o espírito dos violentos e loucos que pedem a volta do AI-5 e o fim do isolamento social de olho nos seus bolsos.

Volto à Beate Bahner, que se julgava capaz de salvar a Alemanha e por isso ingressou, sem sucesso, com medidas judiciais. Já a presa de Sorocaba, alegou respaldo do marido advogado. Mentiu na delegacia. O vídeo mostra que ela negou o vírus, mas disse estava se exercitando para “fortalecer a imunidade”. Sua fala não sobrevive às imagens. Se a brasileira diz que o vírus é coisa de comunista, a alemã vai além: “É coisa de nazistas e comunistas”. A brasileira foi presa, a alemã foi internada em uma clínica psiquiátrica, por surto psicótico, segundo a imprensa local. O curioso no Brasil, é que o Bozo, nem foi preso, nem internado e muito menos “impichado”.

Bozo comete CRIME. O Código Penal tem pelo menos quatro artigos que punem o desrespeito à determinação de isolamento, com vistas a impedir o contágio. No caso, há forte potencial de contaminação pela covid-19. Como o direito penal não permite interpretações elásticas, este espaço não é um bom lugar para aprofundar o tema. De qualquer forma, são quatro artigos a mostrar o grau de preocupação do legislador em proteger a sociedade contra infecção por contágio.

Entretanto, o Art. 268 é enfático: Infringir determinação do poder público, destinado a impedir introdução ou propagação de doença contagiosa. De há muito o “presidente” da República viola tal artigo de forma reiterada e contumaz. Note-se que nesse crime há relação direta com o exercício do mandato, pois é prevalecendo-se dessa condição que ele dolosamente agride a ordem social (decoro) e jurídica impunemente. Esse fato o levaria a dar satisfações à Justiça, juntamente com a dita cuja de Araraquara, salvo superior entendimento.

Bozo já cometeu crimes de responsabilidade ao atentar contra os demais poderes e a ordem constitucional. Agora, pratica crime comum, na medida em que convoca passeatas, carreatas, incita atos coletivos país afora e, não tem tomado cautelas para evitar aglomerações. Pelo contrário, tem criado condições para isso, tratando cinicamente como espontâneas soam como convocações subterrâneas. É previsível que a presença de autoridades em locais públicos vai atrair curiosos. Como tais curiosos são sempre apoiadores, fácil concluir que se trata de convocação subterrânea. Esse fato o levaria, em tese, a fazer companhia à cidadã raivosa de Araraquara.

O “presidente” está em campanha e faz da convid-19 seu cabo eleitoral. Não há acaso no que diz ou faz, pois até a data de demissão do ministro Luiz Henrique Mandetta coincidiu com a data de aceitação do pedido de impeachment de Dilma Rousseff. Não foi antes, nem depois, mas sim exatamente no dia.

Em pleno exercício de sua sociopatia, ele age dirigido ou não, mergulhando na psique coletiva. As vítimas do isolamento estão pensando como irão sobreviver, pagar as contas e estão a se perguntar – o que será de mim? Ciente disso, ao invés de apresentar resposta ou proposta, Bozo reproduz em seus discursos exatamente essa angústia popular, criando dessa forma, uma empatia entre ele e quem está angustiado. Ele se diz preocupado com os empregos que ajudou a destruir. Desse modo, revela uma loucura que o levaria à clínica psiquiátrica para onde foi encaminhada a cidadã alemã.

Há visível processo doentio de apropriação de componente emotivo. São nítidos sinais de engenharia social, maliciosamente utilizados num momento de agonia da Nação. É de pão que o pobre precisa, é de pão que ele fala, ainda que não esteja necessariamente preocupado em dar. Basta observar que, só forçado ofereceu míseros R$ 200,00 que só foi alterado para R$ 600,00 por intervenção da Câmara Federal (a quem faz ataques). Enquanto dificulta a liberação do auxílio às vítimas, assume em propaganda oficial (cartazes), que a verba é federal (não é dos Municípios nem dos Estados), bem ao gosto de Trump, que quer o nome dele nos cheques enviados às vítimas do vírus nos EUA.

Bozo encarna no Brasil um sentimento negativo que assola o Mundo. Ele conseguiu verbalizar todo o politicamente incorreto, no melhor estilo: bandido bom é bandido morto. É com essa mesma esperteza que verbaliza a angústia coletiva. Sempre, porém, voltado aos seus propósitos. Sórdido, tira proveito da desgraça.

Não era difícil ver o que acontecia no mundo, nem quem tentava encarnar, no Brasil, o renascimento da brutalidade civilizatória. Mesmo assim, unidos para a destruição da sociedade humanizada que os governos Lula/Dilma imprimiram, as elites apostaram no pior. Indiferentes à miséria do mundo, movidos a ódio e ganância, tiraram o demônio da garrafa e agora não sabem o que fazer com ele. Um demônio que reunia em torno de si toda carga negativa secular, e que parecia coisa do passado. Foi o que sugeriu o fim de duas grandes guerras mundiais.

O Mundo e o Brasil abriram a guarda e a garrafa. “Atiramos o passado no abismo, mas não nos inclinamos para ver se está bem morto” –  Willian Shakespeare.

Armando Rodrigues Coelho Neto – jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-integrante da Interpol em São Paulo.

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