Um novo silêncio, por Fabianna Pepeu

A bem da verdade, é preciso admitir que as instituições estão mesmo funcionando, mas a grande questão é saber "para quem" e "em que direção."

Um novo silêncio

por Fabianna Pepeu

No dia 26 de julho de 1974, a ditadura militar instalada no Brasil cerca de 10 anos antes proibiu a publicação do artigo ‘A epidemia do silêncio’ do jornalista Clóvis Rossi (1943-2019) no Estadão.

O texto (disponível abaixo e eu recomendo a leitura), infelizmente muito atual em muitos aspectos, tratava do crescimento da meningite no Brasil e apenas no ano passado, 45 anos depois de escrito, foi divulgado na íntegra.

Na época, como era comum na imprensa, um poema (nesse caso o jornal utilizou um de Camões) ocupou o espaço reservado para a denúncia. E olha que o artigo nem era assim tão duro em um país que tinha acabado de registrar durante o governo Médici (1969-1974) os maiores índices de violações aos Direitos Humanos desde o início do golpe.

No sábado (6) em que o Portal Coronavírus Brasil do Ministério da Saúde passou quase o dia todo fora do ar e, ao voltar, apareceu com informações propositalmente truncadas e superficiais para evitar a visualização da real dimensão da pandemia no país, também pela semelhança do tema, esse texto dos anos 1970, censurado pelo governo Geisel, voltou à memória.

A imprensa falou muito sobre a indignação das equipes técnicas de saúde país afora — que também dependem de dados nacionais para entender melhor a própria realidade e traçar estratégias de combate ao novo coronavírus — e mostrou o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, com uma ideia esdrúxula de que, diante dessa tentativa do governo federal de sonegar informações sobre a doença, outras instituições públicas poderiam fazer a consolidação dos dados da Covid-19.

Indignação, raiva, surpresa e nota de repúdio não dão conta das garras medonhas de Bolsonaro que, dia após dia, penetram mais fundo no tecido que ainda tem uma leve aparência de democracia.

A bem da verdade, é preciso admitir que as instituições estão mesmo funcionando, mas a grande questão é saber “para quem” e “em que direção.” Não parece algo do outro mundo dizer que todos (inclusive membros da Direita) já perceberam, em alguma medida, que também estão dentro desse barco furado e que nem mesmo a presença de algumas boias na embarcação poderá garantir uma salvação líquida e certa.

Também é razoável dizer que em um aspecto os regimes autoritários são democráticos: a violência é para todos os adversários do regime ou mesmo para por um momento pareça se colocar no meio do caminho. Isso significa que é muito inocente da parte de Maia e dos ministros do STF acharem que Bolsonaro e seus aliados — igualmente genocidas — hão de mirar apenas nos antifascistas declarados e pessoas comuns que percebem o adensamento do pântano antidemocrático.

Apesar de todas as evidências cotidianas, a oposição ao avanço intrépido desse regime perverso —  que se dá de modo explícito, mas também sutil e difuso, com um investimento pesado no desfazer os ditos — ainda ocorre de maneira tímida e muito desorganizada.

No caso da militância, há uma tendência de repercutir incansavelmente os continuos episódios de Bolsonaro, fatiando a indignação diante do seu projeto de destruição (por dentro) do Estado brasileiro.

É fundamental compreender que tudo que se vê diariamente integra esse roteiro anunciado ao governo de Trump, nos Estados Unidos, ainda na primeira viagem que esse genocida fez ao exterior depois de eleito, em março do ano passado.

Talvez seja importante relembrar aos que admiravelmente continuam na resistência o que Bolsonaro falou naquele jantar com membros do governo estadunidense e sete ministros do seu governo:

“(…) O que sempre sonhei foi libertar o Brasil da ideologia nefasta de Esquerda. Um dos grandes inspiradores meus está aqui à minha direita, o professor Olavo de Carvalho, que é inspirador de muitos jovens no Brasil. Em grande parte devemos a ele a REVOLUÇÃO que estamos vivendo. O Brasil NÃO É um TERRENO aberto ONDE  nós PRETENDEMOS CONSTRUIR COISAS PARA O NOSSO POVO. NÓS temos que  DESCONSTRUIR muita coisa, DESFAZER muita coisa, para DEPOIS então COMEÇARMOS A FAZER. Que EU SIRVA PARA QUE pelo menos eu POSSA SER UM PONTO DE INFLEXÃO já estou muito feliz. O nosso Brasil caminhava para o Socialismo, para o Comunismo e quis a vontade de Deus (…) e essa MISSÃO que nos foi dada eu tenho a certeza que Ele sempre estará ao nosso lado e me dará mais do que inteligência (…) boas pessoas ao meu lado, como tenho aqui no momento sete ministros para a gente poder levar adiante o que nós queremos deixar (…) Todos aqui são importantes se vieram aqui de UMA FORMA OU DE OUTRA TEM tem algum sentimento, ALGO QUE UNE À MINHA PESSOA, humildemente. NÓS SABEMOS que quando a DIPLOMACIA não dá muito certo, a retaguarda tem as FORÇAS ARMADAS (risos de todos) o caminho é SEMPRE o mesmo. SEMPRE estamos JUNTOS, PARECE até que estamos em LADOS OPOSTOS, mas não. ESTAMOS DO MESMO LADO. Nós queremos construir o melhor para o nosso país (…) Eu quero o Brasil grande como Trump quer os Estados Unidos grandes (…) Tô quase um diplomata já (risos dos presentes)

Tudo está dito nesse breve discurso. TODO o projeto de destruição está explicitado. Trata-se de uma “revolução” cultural e isso deveria ser compreendido por todo progressista ao observar a escalada autoritária cotidiana.

Tudo vem sendo implementado passo a passo, sem um único retrocesso, desde o primeiro dia de governo.

Bolsonaro atua de dentro da administração pública como se nada tivesse a ver com tudo o que ocorre no país, se colocando numa posição falsamente passiva de negação da própria política. Com isso, quer apenas seguir o planejamento do que foi estabelecido durante a campanha.

Descredita as instituições, nega a ciência, entrega à população à própria sorte em meio a uma pandemia e, como precisa de bodes expiatórios nesse percurso destrutivo, ganha tempo e responsabiliza os governadores pelos seus maus feitos.

Bolsonaro faz uma grande bagunça na vida nacional em relação a tudo o que, historicamente, sempre nos estruturou — mal e porcamente, diga-se.

Mas, enfim, sobram evidências e diagnósticos acerca do comportamento desse fascista tupiniquim e do quanto ele se aproveita das coisas historicamente mal acabadas desse país e das mazelas presentes também nas instituições, a exemplo da Polícia Militar, que, hoje, talvez, seja um dos maiores problemas da vida nacional. Vale sublinhar que esses agentes públicos não estão neste momento subordinados  às chefias federativas e isso explica em parte a timidez dos governadores e os bastidores acerca das decisões (e revisões) sobre distanciamento social.

É preciso não apenas fazer pesada oposição nas redes sociais e estruturar meios de atuação nas ruas em meio a um gravíssimo problema de saúde pública (manifestações importantes, mas incapazes de resultado sozinhas, é bom frisar). Mas, principalmente, compreender que Bolsonaro não irá cair naturalmente, mesmo com a economia aos frangalhos, pois seus tentáculos estão por toda parte — e até mesmo, ou principalmente, na Procuradoria Geral da República.

É urgente estabelecer metas para uma luta mais sofisticada porque não adianta tentar usar instrumentos antigos em uma situação nova e muito peculiar na qual milicianos, membros das Forças Armadas, filósofo de quinta categoria — mas de extremo alcance —, negacionistas de todo tipo, assassinos, supremacistas brancos, loucos e toscos amalgamados construíram, na continuação de uma ditadura mal resolvida, uma espécie de Brasil paralelo que veio à tona com força e vigor num dos momentos mais difíceis do mundo.

Há um grande impasse em curso porque o cenário é novo, de várias e diferentes maneiras, de tudo o que já vimos antes, portanto, repito: se o problema é diferente também terá que ser nova (e ousada) a forma de luta.

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A epidemia do silêncio

Por Clóvis Rossi

O surto de meningite que matou mais de 200 pessoas em São Paulo só neste mês de julho não é lamentável apenas por suas consequências ou por revelar dramaticamente a precariedade do sistema de Saúde Pública do Estado que se orgulha de ser o mais rico da Federação. Talvez ainda pior do que tudo isso seja o fato de que, com ele, atingiu o seu ponto mais alto também a epidemia de desinformação e ocultamento de fatos que as administrações públicas, a todos os níveis, resolveram desencadear faz já algum tempo.

Desde que, há dois anos aproximadamente, começaram a aumentar em ritmo alarmante os casos de meningite em São Paulo, as autoridades cuidaram de ocultar fatos, negar informações, reduzir os números referentes à doença a proporções incompatíveis com a realidade — ou seja, levando, deliberadamente, a desinformação à população e abrindo caminho para que boatos ocupassem rapidamente o lugar que deveria ser preenchido por fatos. Fatos que as autoridades tinham a obrigação, por todos os títúlos de esclarecer ampla e totalmente.

Nos primeiros dias deste mês, quando a meningite passou à fase que alguns médicos consideram epidêmica, a Secretaria da Saúde manteve-se trancada no seu eterno mutismo, até que, atropelado pelos fatos, o próprio governador se viu obrigado a lançar nota oficial, dando a situação como “sob controle”, uma afirmação que pode ser chamada tranquilamente de cínica, no mínimo, quando os cartórios registram a média diária de nove óbitos em consequência da meningite. Antes disso, qualquer repórter que tentasse obter informações no Hospital “Emilio Ribas” era obrigado a voltar à Secretaria da Saúde, porque informações só podiam’ ser dadas após autorização expressa da secretário. Esse absurdo patente não é, entretanto um caso isolado. Ele pode ser o mais grave de todos, porque informações sobre o surto de meningite interessam a toda uma população de seis milhões de habitantes e devia ser obrigação das autoridades divulgá-las sem “autorizações” segredos, meias-verdades.

Em muitas outras situações, esse clima de ocultação de fatos é uma constante. Recentemente, a CESP permitiu que boatos alarmantes circulassem em toda a região adjacente a Ilha Solteira, depois de ter sido obrigada a esvaziar um dos lagos da usina ali localizada enquanto insistia em afirmar que nada estava acontecendo. Três dias depois, entretanto, saia a nota oficial na qual a empresa explicava que, de fato, nada de grave estava ocorrendo, mas havia motivos para o esvaziamento do lago (uma abrasão na parede ,de concreto da represa). Se a nota tivesse sido divulgada pelo menos um dia antes — e não três dias depois’— o sobressalto de toda a população teria sido evitado, porque, simplesmente. os boatos não preencheriam os vazios deixados por falta de fatos oficialmente divulgados.

O clima de segredo é generalizado: guardas armados vigiam os acampamentos dos operários que constroem trechos da Rodovia dos Imigrantes, o acesso ao canteiro de obras da Ponte Rio-Niterói, durante a época de sua construção, era terminantementes proibido, o já folclórico “elevador privativo” do Palácio do Planalto transporta autoridades que, após despachar com o presidente, parecem ter medo de que segredos de Estado sejam desvendados numa simples e rápida entrevista pelos repórteres que cobrem as atividades oficiais. No Palácio dos Bandeirantes, então, a falta de informações que não sejam as divulgadas pelo Serviço de Imprensa do Governo do Estado é tão grande que nenhum jornal mantém um repórter ali (o único que ainda permanece pertence a uma radio), ao contrário do que acontece (ou acontecia) nos demais setores vitais do Estado. Não que todos os jornais tenham antipatias invencíveis pela triste figura do governador de São Paulo; é que, simplesmente, não há o que fazer ali, não há informações a recolher, não há quem se disponha a dá-las.

Paradoxalmente, cresceram e se sofisticaram terrivelmente os serviços de imprensa, inclusive na área da empresa privada. Mas esses serviços não se prestam para o que deveria ser sua função primordial: fornecer informações. Limitam-se a divulgar realizações impressionantes (nem sempre realizadas), planos, mirabolantes (nem sempre executados) louvações deslumbradas (nem sempre deslumbradas). Claro que jornais e jornalistas não são tão angelicais a ponto de suporem que os serviços oficiais de imprensa divulgariam críticas aos órgãos ou pessoas a que servem. Mas, em circunstâncias normais, deveriam esperar que respondessem a questões específicas, o que quase nunca acontece. Quanto custou, determinada obra? Por que foi escolhido o plano X, entre três outras opções? Quantas pessoas morreram de meningite em São Paulo neste ano? — essas perguntas raramente são respondidas. E, até hoje, a opinião pública ignora quanto custou exatamente cada quilometro da Rodovia Transamazonica, quantos operários morreram na construção da Ponte Rio-Niterói, porque não se chegou ainda a uma definição sobre a Linha Leste do metrô paulistano, embora a Prefeitura dependa dela para a elaboração de seu orçamento — entre muitas outras questões mais ou menos importantes.

Talvez por isso, cresça, entre o público, a desconfiança em relação a toda e qualquer informação. Um exemplo claro é o incêndio do Andraus: não conheço uma só pessoa em São Paulo que acredite que apenas 16 pessoas morreram no prédio da avenida São João, embora, nesse caso, haja algumas razões para supor que esse número esteja no mínimo bastante próximo da verdade, se não corresponder totalmente a ela.

O repórter hoje, no Brasil, é tratado invariavelmente, por qualquer autoridade — e mesmo por qualquer pessoa que pretenda ser autoridade, mesmo quando não o é — como um inimigo a ser evitado, um perigoso subversivo (como o prefeito de São José dos Campos, por exemplo chegou a publicar, em anúncio no jornal local, no qual procurava negar a existência de casos de meningite em sua cidade, no inicio deste ano), ou talvez espertíssimo espião russo ou americano, pronto a desvendar as mais recentes conquistas da técnica rodoviária que devem estar sendo empregadas na Rodovia dos Imigrantes, para justificar as cercas, cancelas e guardas armados.

Que a imprensa comete exageros, ninguém nega. Todos os cometem. Mas, para coibi-los, está em vigor uma legislação das mais rigorosas, capaz de evitar não apenas os exageros. Fazer segredo, ocultar informações ou divulgá-las pela metade, entretanto, não faz parte dos dispositivos da Lei. Nem por isso, deixam de ser usados indiscriminadamente, como se a opinião publica não merecesse aos menos uma satisfação dos atos tomados pelos que dirigem os destinos do Estado ou do Pais.

O mais triste de tudo isso é que esse clima de desinformação intensificou-se justamente quando se prometeu jogar o “jogo da verdade”. Hoje, o que se pode ter é apenas um lado da verdade: o lado oficial, asséptico, geralmente otimista, ufanista o mais das vezes. Quem não aceita só esse lado, que leia poesias.

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