23 de junho de 2026

O ciclo de vida das teorias, por Felipe A. P. L. Costa

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O ciclo de vida das teorias

por Felipe A. P. L. Costa

Um dos comentários equivocados mais comuns a respeito da evolução diz mais ou menos o seguinte: “O problema é que se trata apenas e tão somente de uma teoria”. É um duplo equívoco. Primeiro, porque ignora o que sejam teorias e o papel que as teorias têm na ciência; além disso, as trata como se fossem caraminholas que vagueiam soltas por aí, desvinculadas da realidade.

Antes de tudo, deveríamos observar que teorias científicas não são opiniões pessoais nem engenhocas que brotam do nada. Melhor pensar nelas como uma trama articulada de ideias. A elaboração e, sobretudo, o refinamento de uma teoria é um processo histórico que se estende por gerações. E mais: o chamado progresso científico decorre mais do refinamento de teorias, do que de novos equipamentos ou do acúmulo de dados.

O refinamento costuma envolver a substituição de partes de uma teoria que não mais funcionam (e.g., modelos ou subteorias auxiliares). Pense em alguma teoria ou em algum modelo – e.g., teoria da gravitação ou o modelo geofísico segundo o qual o núcleo da Terra seria uma esfera sólida de ferro. Como representação do mundo, essas ideias sobrevivem enquanto (i) são condizentes com outras teorias ou modelos em vigor; e (ii) explicam de modo satisfatório os resultados que obtemos no dia a dia.

Às vezes, porém, as explicações se tornam inadequadas ou inconsistentes. Quando isso ocorre, a suspeita inicial recai sobre os resultados, que passam a ser vistos como ruins ou anômalos. Se os resultados ruins continuam a aparecer, instala-se uma crise. Percebemos isso quando as teorias até então hegemônicas e incontestáveis passam a ser criticadas abertamente – o status quo delas é questionado. Chega uma hora em que os cientistas se dão conta de que os problemas não estão nos dados. Visto que as anomalias não decorrem de problemas metodológicos ou de outro tipo de distorção, a crise se aprofunda. O impasse às vezes resulta naquilo que alguns filósofos e historiados da ciência chamam de revolução – a teoria em crise é abandonada e uma nova ganha fôlego, atraindo mais e mais adeptos.

Todavia, como os cientistas não trabalham sem um pano de fundo teórico, eles não abandonarão as ideias antigas, mesmo admitindo que elas são problemáticas, sem que antes surja no horizonte ao menos um esboço de alguma ideia alternativa. A teoria substituta deverá ser capaz de lidar com as anomalias. Finalizada a ruptura e restaurada a normalidade, os resultados até então vistos como anômalos passam a ser tratados como exemplares. Assim, o que antes ficava escondido debaixo do tapete, vai agora servir para educar as novas gerações.

[Nota: o artigo integra o livro O que é darwinismo (no prelo), cujo lançamento deve ocorrer ainda no primeiro semestre de 2018. Para informações a respeito do livro anterior do autor, O evolucionista voador & outros inventores da biologia moderna (2017), inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, ver aqui; para conhecer outros artigos e livros, ver aqui.]

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4 Comentários
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  1. Edsonmarcon

    28 de fevereiro de 2018 7:19 pm

    Falando em “teorias”…

  2. Marcos Tótola

    2 de março de 2018 10:20 am

    O ciclo de vida das teorias, por Felipe A. P. L. Costa

    Espetacular análise. Estamos ansiosos pelo novo livro.

     

    Abraços e parabéns pelo texto.

     

    Marcos

  3. Pedro Navarro

    5 de março de 2018 4:27 am

    Recomendação

    Excelente texto como sempre Felipe.

     

    Encontrou um eco na leitura que estou fazendo agora do livro “A impostura científica em 10 lições” de Michel de Pracontal.

     

    No capítulo nove o autor discute de forma magistral a questão das diferentes línguas faladas pelos cientistas e pelos leigos, enquanto os leigos falam a língua natural (português, francês, etc…) que aprenderam socialmente, os cientistas falam línguas artificiais que se apropriam das palavras naturais e desviam seu sentido para o vocabulário científico.

     

    Um excelente exemplo, como se encontra no texto de Felipe, é a palavra “teoria” que em bom português tem o sentido de conhecimento provisório e eleborado a partir de especulações, sem o intento de querer descrever algo de verdade. Enquanto que na língua científica geral a “teoria” assume o sentido de uma proposição bem pensada e testada que se propõe a descrever determinado fenômeno e prever futuras causas do mesmo.

     

    Ou seja, a questão aqui é: Como ensinar o leigo a não cair nessas armadilhas semânticas?

     

    Penso que se todos tivessem essa clareza dos diferentes significados de um mesmo vocabulário nas diferentes “línguas” viveríamos um mundo bem melhor em questão de entendimento científico.

  4. João Couto Teixeira

    6 de março de 2018 12:34 pm

    O ciclo de vida das teorias

    A Teoria Celular teve seu ciclo encerrado com a descoberta dos vírus, pelo menos para os que os consideram seres vivos… outro exemplo pode ser o da Teoria da Gravidade, que passaria a ser consequência da torção do Espaço!

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