25 de junho de 2026

Haddad tem que mostrar a que veio, por Luis Nassif

Não se espera que Haddad peite o mercado e crie frentes inúteis de atrito. Mas tem que acenar com o novo
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad - Foto: Divulgação

No governo Itamar Franco, o então Ministro da Fazenda, Paulo Haddad, foi alvo de um tiroteio intenso. Salvou-se graças a um assessor de imprensa, jornalista econômico de peso, que desarmava as bombas com informações pontuais e bem colocadas. E, especialmente, explicando a lógica de atuação do Ministro.

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O Ministro da Educação Fernando Haddad, autor de uma obra meritória, sempre padeceu de problemas de comunicação. O mesmo aconteceu quando prefeito. Sendo um prefeito de reconhecimento internacional, saiu com a pior avaliação possível, pela absoluta incapacidade da opinião pública – através da mídia – entender o alcance de uma gestão que ia além das pontes e viadutos.

O mesmo ocorre agora, como Ministro da Fazenda.

Há um movimento público, de sua parte, de submissão às regras monetárias e fiscais. Pode ser estratégico ou não. Em entrevista ao Valor Econômico, André Lara Rezende atribuiu a essa timidez a iniciativa de Lula de se expor, em embates com o Banco Central a respeito do nível da taxa Selic.

Criou-se uma discussão inútil sobre metas de inflação, se aumenta 0,25, 0,50, mudanças que não alterariam em um milímetro a taxa Selic. Apenas reduziriam o estouro da meta pelo Banco Central.

Há um cadáver no meio da sala, que ninguém ousa ver: o sistema de metas inflacionárias e essa loucura de utilizar um preço fundamental da economia, o câmbio, como variável de ajuste. O uso indevido do câmbio foi peça fundamental para o país ter perdido o bonde da história. Em 1994, com a estabilização da economia, ao lado da China e da Índia o Brasil era a grande aposta de crescimento. Tinha dimensões continentais, uma grande população entrando no mercado de consumo, uma estrutura acadêmica respeitável e, ainda, indústrias competitivas.

Mês a mês, ano a ano, esse modelo, erroneamente chamado de “tripé virtuoso” – câmbio baixo, juros altos e cortes em despesas – foi desindustrializando o país, tirando o dinamismo da economia. E não houve um presidente capaz de cortar o nó górdio, nem FHC, que implantou a financeirização da economia, nem Lula 1 e 2. Houve uma pequena tentativa com Dilma, mas atropelada por problemas operacionais e por ataques implacáveis da mídia.

Lula 3 vai repetir a submissão a essa política irracional? Até agora, o único sinal de vida inteligente foi o anúncio do seminário preparado por Aloizio Mercadante, pelo BNDES, juntando pensadores para discutir as últimas ideias em relação ao combate à inflação.

Seria um jogo pensado, com Haddad contemporizando e Mercadante avançando? Poderia ser. Mas as críticas de André Lara à timidez de Haddad tiram essa esperança.

Tem-se, hoje em dia, um BC que não se importa com os juros da Selic e, menos ainda, com os juros do mercado; que não atua no mercado de taxas de juros, no câmbio, que não consegue imaginar outros instrumentos de contenção de preços que não seja o câmbio e os juros.

Nas próximas semanas, Haddad terá que mostrar a que veio. Uma simples mudança nas regras de ancoragem de expectativas, de novos modelos de controle fiscal não bastarão. Não se espera que peite o mercado e crie frentes inúteis de atrito. Mas tem que acenar com o novo e explicar minimamente qual a lógica que pretende imprimir à sua gestão. Ele é muito preparado, para se limitar a ser uma cópia de Antonio Palocci ou Henrique Meirelles.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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11 Comentários
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  1. Naldo

    15 de fevereiro de 2023 8:12 am

    Poisé “seo” Nassif, sinceramente? Depois se várias eleições perdidas, inclusive essa última em que se via a má vontade em concorrer, está na hora de Lula escolher outro sucessor, tem uns bons aí, Boulos, alguns bons políticos do nordeste, Haddad é fraco, muito educado, sem sangue nos olhos, facilmente engolido por larápios da política…..e a explicação para a taxa de juros do Brasil serem pornográficas é uma só: o bc brasileiro ser independente….vejam se nos outros países tem algum trouxa dando metade do orçamento para parasitas abutres? Não tem ..

  2. Vinicius

    15 de fevereiro de 2023 8:23 am

    Haddad, é muito mansinho, tem que virar um pit bull a frente do ministério e o primeiro a morder é este vagabundo do campos neto (minusculas mesmo).

  3. Edson J

    15 de fevereiro de 2023 8:51 am

    Preparado ele é, não há dúvida. Deve ser um excelente professor. Mas, para o Ministério da Fazenda, ele já mostrou a que veio: ficar bem com todo o mundo. Inclusive e sobretudo com o poder de fato, também conhecido como mercado vadio, digo, financeiro, que vive de sugar as riquezas do país, sem produzir. Logo, é o homem errado, no lugar errado, na hora errada. Claro, para os que querem economia aquecida, pleno emprego, melhora das condições de vida do povo etc. Essas “besteiras” que fariam o bem do país.

  4. Milton

    15 de fevereiro de 2023 9:43 am

    No Brasil temos 423 anos de “crescimento do bolo” e nenhum de repartição ao pobrerio, Bolsa Família e quetais são migalhas lançadas ao mais necessitados: metade do orçamento federal vai para ínfima parte de “investidores” brasileiros e estrangeiros; saqueiam o país com “privatizações” criminosas que “não serão revistas” . . . Campos petrolíferos, unidades de refino e empresas públicas que operam em áreas sem concorrência , alguns a escroques nacionais.
    Basta de timidez na condução do país por dirigentes à esquerda. Apenas republicanismo obsequioso com a alcatéia de “expertos” a saquear o país.
    O governo federal deixa ao “mercado” a dominância do discurso econômico e não tem um espaço de divulgação de suas ações. Lembro Brizola e suas palestras às sextas-feiras, os “tijolaços” a bater nos exploradores.
    Hoje o que temos são entrevistas e “debates” com economistas amigáveis e ausência de perguntas “difíceis”.
    Lula 3 e Haddad são “carne para moer” até por um hesitante presidente do Sindicato dos Bancos, vulgo BC.

  5. juarez campos

    15 de fevereiro de 2023 10:39 am

    O Lara Resende mostrou didaticamente a incoerência das taxas de juros. É hora de Hadad falar grosso e deixar de ser educado. A inflação não baixa com o aumento da taxa de juros e ela alimenta os rentistas e fode o tesouro.

  6. WWagner Indigo

    15 de fevereiro de 2023 10:47 am

    Quando convidamos para um almoço , é lógico que conheçamos os convidados. Nesta mesa , os pratos e talheres deverão ser servidos de acordo com o apetite e destreza dos convivas , senão corre-se o risco de decepcioná-los . É o que ocorre com o Haddad de maitre !!!O Plano vitorioso foi o de Lula , simples , arroz e feijão , um garfo e faca. Servir salmão grelhado e trufas na sobremesa , deixará os convidados ” enfastiados” . O Maitre serve bem em restaurantes dos jardins e nunca deixará satisfeito o cliente do Mercadão , Praças , Ruas e Sarjetas do Brasil !!!

  7. Wilson Ramos

    15 de fevereiro de 2023 11:24 am

    Está havendo muita pressa nas críticas ao Haddad. Lara Resende não criticou a timidez de Haddad, claramente ele disse que Lula escolher Haddad, e também Tebet, para a economia justamente por conta deste temperamento. Lula também falou que assumiu a função de cobrar publicamente a redução de juros, tarefa que era de Alencar de vice. E este arranjo na composição do ministério não era nem sonhado antes da posse. É evidente que o jornalismo vagabundo vai primeiro ouvir suas vacas sagradas mercadoras de dinheiro. Mas o objetivo está sendo alcançado, o debate está lançado e os dogmas serão confrontados. As entrevistas de Lara Rezende e Mantega, hoje, estão sendo publicadas e terão que ser contestadas com argumentos, mercadoria que sábios não tem à disposição nas suas quitandas.

  8. +almeida

    15 de fevereiro de 2023 12:13 pm

    Caro Nassif, eu penso que devemos ter toda atenção nos acompanhamentos com as decisões e comportamento de qualquer governo. Não tenho conhecimento técnico para discutir economia e muito menos para analisar todas as suas vertentes. Porém, após 4 anos de destruição de conquistas, de horror, de terror e de descaso com a democracia e o estado de direito, eu entendo que é cedo para tecer críticas ao que me parece ser, ainda, suspeição e não certeza. A direita fascista, golpista, corrupta e gananciosa continua ativa e tentando se reestruturar, para voltar com mais inferno: em mente, em intenção e em poder.
    Tenho lido muitas críticas da imprensa corporativas, que mais parecem uma trama orquestrada, e até (???) das mídias alternativas, que avalio como exageradas, para o pouco tempo de governo e de recuperação estrutural do país.
    Devemos discordar de todo erro que for verdadeiro, certo e comprovado, mas quando ainda se tratar de uma avaliação, eu me pergunto se poderia ser mais produtivo e menos incômodo, alertar primeiramente aqueles que tanto lutamos e nos empenhamos em trazer de volta para comandar o fortalecimento que todos queremos, tais como: da democracia, da justiça, do estado de direito, da soberania, do bem estar social, da segurança, da saúde, da educação, do trabalho, da religião, etc.
    Posso ter entendido errado, e me desculpo, mas fica o comentário.

  9. João Ferreira Bastos

    15 de fevereiro de 2023 1:00 pm

    Se o problema do haddad é comunicação, esquece Seo Nassif

    problema na comunicação está no DNA do PT, que vive ainda na idade pré mimeografo.

  10. Célio Ferreira Facó

    15 de fevereiro de 2023 2:25 pm

    Depois do Golpe de 2016 e do Açougue chamado Lava-Jato, é tempo de Haddad, Lula 3,PT repetirem-se sempre: os celerados, que estão vivos e aparecem na Globo, farão qualquer coisa para Acusar, Impedir, Destruir, Lucrar, Sobreviver! Qualquer!

  11. Francisco Santos

    15 de fevereiro de 2023 3:27 pm

    PT nunca teve problema de comunicação, sempre foi um partido político escorraçado pela midia patriarcal, então nada de novo. Com o banco central independente o haddad tem a lenha e o alcool, mas não tem o fósforo, então tem de ficar no aguardo e negociar com os financistas, ou compra-los, o que provavelmente acontecerá. De uma coisa eu tenho certeza: passa pelas mãos do BNDES salvar as empresas de varejo virtual do Brasil, afinal a conta sempre sai do nosso bolso. A não ser que haddad e lula façam algo diferente.

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