O xadrez do presidente interino

Os primeiros movimentos do futuro presidente interino Michel Temer, na montagem do Ministério, mostraram uma semelhança interessante com Dilma Rousseff.

No governo Lula, Dilma fez fama de boa gerente. Sua competência estava restrita à execução da tarefa encomendada, não à visão do todo, de quem distribui as tarefas.

Vê-se o mesmo no estado maior de Temer. Todos eles – Eliseu Padilha, Moreira Franco, Romero Jucá, mesmo Michel Temer – são habilíssimos articuladores políticos. Entregue-lhes uma lista de cargos a serem loteados e eles saberão como distribuí-los equitativamente pela base aliada.

Ocorre que todo governo precisa, ao lado da fisiologia, de uma parte legitimadora perante a opinião pública e os agentes econômicos. O estado maior de Temer só domina a técnica da fisiologia. Na hora de pensar a estrutura total de governo, tem demonstrado um amadorismo gritante nos seus primeiros movimentos.

Peça 1 – Os impasses do Ministério

O presidente do Banco Central tem status de Ministro de Estado, para prevenir ações judiciais contra o próprio Henrique Meirelles, quando presidiu o governo. O cargo acabou ganhando status indevido, como se fosse uma antessala da independência do BC.

Provavelmente aconselhados por José Serra, o estado maior de Temer decidiu retirar o status de Ministro. Fez sem preparar o mercado. Para o mercado soou como tentativa de minar a independência do banco. Isso, mais o escasso nível técnico do futuro Ministério certamente não ajudarão a inflar positivamente as expectativas do mercado.

O segundo erro – esse tremendo – foi anunciar o Ministério da Defesa para Newton Cardoso Filho quem, além de filho, tem apenas 36 anos.

Foi considerado um desrespeito pelos militares.

Antes disso, um enorme lobby jornalístico brasiliense, a serviço de Raul  Jungmann, espalhou que os militares não aceitariam Antônio Mariz de Oliveira – um dos maiores criminalistas brasileiros, inclusive tendo como um de seus clientes o próprio Exército – porque seria de segunda mão, já que recusado para a Justiça devido ao veto do poder maior, a turma da Lava Jato. Esses colegas brasilienses às vezes exageram no primarismo.

Tirar do páreo alguém com a estatura de Mariz para entregar ao filho de Newton Cardoso é de uma insensibilidade e falta de informação gritantes. Ainda mais sabendo-se do olho gordo de alguns militares em cima da Defesa e do GSI (Gabinete de Segurança Institucional).

Para Relações Exteriores trouxe José Serra, e conseguiu desagradar o PSDB antes mesmo de começar o interinato. Hoje em dia Serra representa apenas ele próprio e o deputado Jutahy Magalhães. Acabou descontentando tanto o presidente do partido Aécio Neves que, na sessão do impeachment, deixava transparecer seu desânimo com a operação, por se considerar prejudicado pelo futuro governo Temer.

Nem se fale do criacionista indicado para o Ministério de Ciência e Tecnologia, o Ministério da Educação para Mendonça Filho  e outros menos votados.

No plano social, a possível indicação de Alexandre de Moraes para Ministro da Justiça provocará um terremoto nas relações com os movimentos sociais. Como fez com a PM em São Paulo, Moraes tratará de politizar ainda mais a Polícia Federal, transformando-a em polícia política. A panela de pressão irá estourar no colo de Temer.

Peça 2 – As vulnerabilidades de Temer

Nos 180 dias de interinato, Temer terá que administrar conflitos de toda ordem.

No plano político, no final do interinato, para se tornar titular terá que obter 2/3 dos votos do Senado favoráveis ao impeachment. Daqui até lá, ficará refém das demandas do Senado.

No plano jurídico, estará nas mãos do Procurador Geral da República (PGR) Rodrigo Janot, que na hora em que quiser aciona o gatilho e propõe a abertura de processos contra Temer; e na do presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) Gilmar Mendes. Do lado de Janot há indícios de alinhamento com o PSDB de Aécio; no caso de Gilmar Mendes, certeza. Não há sinais de que o Ministério Público Federal (MPF) irá arrefecer sua ofensiva contra Temer.

Aliás, o fato de ter sido sorteado para Gilmar o processo sobre as supostas propinas a Aécio em Furnas amplia a desconfiança sobre ajustes pouco republicanos. Há muito Gilmar deveria declarar-se suspeito de julgar questões políticos do PT (por ser visceralmente contrário) e do PSDB (por sua militância ostensiva).

Até agora, todas essas trombadas ocorrem em um caderno em branco, onde Temer tem plena liberdade para montar seus desenhos políticos.

Imagine-se quando Temer tiver que arbitrar demandas empresariais reais, enfrentar restrições orçamentárias, administrar demandas políticas e, especialmente, as demandas corporativas. Todos os grupos que ajudaram no golpe tratarão de buscar o retorno do investimento político, incluindo aí as corporações públicas. Ontem mesmo, aliás, Temer recebeu no Palácio Jaburu o presidente da ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República) José Robalinho. Certamente não foi até lá para discutir a futura política de direitos humanos do governo.

Por outro lado, Temer gera expectativas contraditórias nos partidos com potencial para disputar 2018, o PT e o PSDB: querem que arrume a casa, a ponto de permitir uma recuperação futura da economia; mas que não seja bem-sucedido a ponto de se tornar candidato em 2018. E aí se entra em uma interrogação.

Peça 3 – os caminhos jurídicos

Ontem, o Ministro Teori Zavascki negou provimento ao mandado de segurança da AGU (Advocacia Geral da União) propondo a suspensão do processo de impeachment por vício de origem: o fato de ter sido motivado por um ato de vingança do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha.

Teori negou, sob o argumento óbvio que um procedimento aprovado por quase 400 parlamentares não poderia ser tratado como um ato de vontade do presidente da Câmara, sem a apresentação de provas mínimas.

Houve quem lesse no voto a negação da análise de mérito do impeachment – o fato de ser proposto sem a caracterização de crime de responsabilidade. Mas Teori limitou-se a mencionar os argumentos do mandado. Ou seja, o questionamento do mérito do impeachment ainda está em aberto.

Até agora, nem AGU nem o PT provocaram o Supremo sobre a questão de mérito, os argumentos estapafúrdios invocados para a destituição de uma presidente da República e que estão claramente analisados nos escritos do pai da teoria do impeachment, ex-Ministro Paulo Brossard.

As inconstitucionalidades desse processo estão escandalizando juristas de todos os quadrantes do planeta, chamaram a atenção da imprensa internacional, provavelmente gerarão uma moção de censura da Corte Interamericana de Direitos Humanos.

Por que, então, a AGU, o governo Dilma, o próprio PT se eximiram de levar essa questão ao Supremo, preferindo estratégias ridículas com o deputado Waldir Maranhão, presidente interino da casa, e com um mandado de segurança que, segundo muitos juristas, teria escassa possibilidade de passar?

Uma das hipóteses é pretender não dar tanta força ao Supremo, chamando-o para apreciar o mérito.

O motivo mais lógico é que um presidente interino interessaria ao PT em 2018. Consolidar-se-ia a noção da ilegalidade, recuperaria a imagem de Dilma, como vítima de um golpe, e deixaria o partido livre para reagrupar forças e preparar-se para 2018 confiando no fracasso de Temer.

137 comentários

  1. Um golpe com tanta

    Um golpe com tanta elaboração, a mais complexa e espetacular operação de mudnça de regime que o mundo ocidental já viu, não vai se conformar em acabar assim, nas mãos do PMDB. Agora o “grande líder”  Aécio, depois de ter um salvo conduto de honestidade do STF, vai se lançar à elaboração do segundo golpe, o golpe dentro do golpe. Isso acontecerá depois da queda definitiva da Dilma. FHC já está abrindo caminho para o repúdio ao governo Temer, que segundo ele só sobreviverá se “der certo”, coisa que não vai dar. A Lava Jato vai ter muito o que fazer depois da considalidação da queda de Dilma, e o Teori vai ficar assoberbado, para o desmonte do governo suspeitocrático do PMDB e o alisamento do campo para os tucanos jogarem. O PMDB, até por intuição política, é quase certo que tem um pressentimento sobre isso. E isso pode indicar que uma das primeiras providências do governo temerário será a aprovação do projeto entreguista do Serra, que abre uma brecha maior que um boqueirão, por onde vão passar todas as petroleiras americanas que quiserem tomar posse do présal. Com a aprovação desse projeto, os temerários vão tentar aplacar a fome dos tucanos e deixá-los quietos, enquanto Temer toca seu barco por estes 180 dias. Mas talvez isso só vá servir como aperitivo para despertar mais ainda uma fome insaciável. Claro que o PSDB não vai ter paciência de esperar pelo fim do governo Temer para tentar chegar ao poder pelo voto em 2018, ainda mais com o medo pavoroso que tem de urna. O PSDB vai querer o poder total logo depois dos fatídicos 180 dias. Resta saber se o Temer vai poder continuar depois do segundo golpe, o golpe dentro do golpe a ser dado pelo PSDB. Se for, será como uma mera rainha da inglaterra.  E resta também saber se vai dar tempo para a mídia tentar beatificar o Aécio, para que este assuma o governo talvez como uma espécie de primeiro ministro, porque se a ira dos coxinhas voltar, contra o escandaloso governo Temer, haverá muita chance de sobrar também para o próprio Aécio.

  2. e alguem ainda duvida da

    e alguem ainda duvida da participação do estados unidos na confusão que ocorre no brasil? ontem a casa branca saudou o novo governo do brasil… nesses treze anos de governo do PT o brasil avançou bastante. e em pontos estrategicos. o pre sal é um deles. o dominio da produção do uranio enriquecido é outro. os segredos da nossa centrifuga é outro. nossas terras e oferta de água. no plano externo ajudamos a construir os BRICS e o Mercosul. os BRICS vão a pleno vapor com a ideia da criação de um banco proprio. não me espanta a ida de josé cerra para o ministerio das relaçoes exteriores. o governo americano deve saber bem quem é esse senhor…  a historia do brasil é de golpes e conchavos. se temos uma elite desprezivel governos fortes, como o americano, sabem como dar uma mãozinha…

  3. Tenho minhas dúvidas

    “O motivo mais lógico é que um presidente interino interessaria ao PT em 2018. Consolidar-se-ia a noção da ilegalidade, recuperaria a imagem de Dilma, como vítima de um golpe, e deixaria o partido livre para reagrupar forças e preparar-se para 2018 confiando no fracasso de Temer.”

    Tenho minhas dúvidas com relação a esta afirmação, que fecha o texto. Acho que falta o fator externo: o preço internacional das commodities.

    Acho que há possibilidade de a economia interna se readaptar relativamente aos novos preços, ou até de haver alguma melhora nos preços das principais commodities. Se isso acontecer, o governo Temer, apesar de seu caráter golpista ficar evidente a qualquer pessoa politizada e de bom senso, poderá ser beneficiado com a recuperação econômica. Com a ajuda mais que evidente da velha mídia, criando um clima de euforia, esse “crédito” seria conferido ao Temer.

    Seria a pessoa errada na hora certa. Tendo em vista essa possibilidade, é muito arriscado que um presidente interino “interesse” ao PT, na minha opinião. 

  4. Bom coneço

    Nassif,novo governo, ministério bem melhor que o anterior, jamos aguardar, é claro que pega um estado falido e, com sérios problemas nas estatais, como; Petrobrás, Caixa e Banco do Brasil…. muito trabalho pra frente. Vmos torcer pra dar certo.

    • ramao………….

      ministerio bem melhor que o anterior????????……………………..hahahahahahahahahaha
      conta outra…………..

      um bando de investigados

      isso não é ministério, é divisão de saques………….butim

  5. De volta

    Não há mais dúvidas que o governo golpista já acabou. Depois de o temer ser desmascarado como traidor e golpista; depois que se revelou ser ele um informante da inteligência de outro país; de ter nomeado o newton cardoso jr para o ministério da defesa; depois de satirizado pelos jornais do mundo inteiro;  ter escolhido o ministério que escolheu; e estar sob o comando do eduardo cunha;  devia ser convidado a renunciar em minutos.

    Chamar-se-á a Dilma para ficar até 2018, conforme definido por 54 milhões de votos.

    Há que se impor, aproveitemos a ocasião, algumas condições de governabilidade para e à Dilma:

    1. O afastamento do cunha, do gilmar e do janot; 

    2. O stf cassa o impedimento da câmara;

    3. O Lula no ministério;

    4.. Que ela seja obrigada a mostrar tudo o que fez (e que a globo seja obrigada a noticiar);

    5. Que se imponha a continuação da lava jato e do moro (agora sem a meta do golpe, vai ser interessante).

    Tudo o mais pode continuar como está. 

     

  6. pote de ouro

    O Brasil é grande (e bobo) e muito rico. E está sentado em cima de um pote de ouro (negro). O petróleo sorvido em grandes goles pelos paises ricos já destruiu muitas nações. As nações sedentas de petróleo ciosas da sua liderança mundial cooptaram e treinaram os seus servidores nativos premiando e adulando para manter o deles “caminho de vida”.  Nós somos a bola da vez.

    O ÇERRA45 está doidão para entregar o petróleo para a chevron. E a raça de bandidos que nos governam quer a sua parte. Igual um bando de urubus em cima da carniça. Eles não tem amor ao solo pátrio, desde que se locupletem, dane-se. Dilma caiu na cilada de que correções seriam necessárias. Foi o início do golpe. Mordeu a isca, foi atrás do Trabuco e se contentou com o Levy. Burra, o manteve por um ano. O estrago estava feito.  Ela ainda não sabe qual trem a atropelou. Fosse ela venal, essa mesma gang arranjaria um terceiro mandato para ela. Os Antonios Conselheiros de Curitiba  e seus milhões de beatos batedores de penico foram levados pelo megafone a serviço dos alienígenas a acreditar que tirando Dilma e o PT acabariam com o incêndio da corrupção. Tentaram apagar o fogo com baldes de gasolina. O interino é apenas um pavão, a sua vida de subserviência e fé no grande arquiteto lhe rendeu alguns bônus terrenos, triste ilusão.  

    Assistiremos pasmos o retorno ao Brasil província e os mais pobres que mal aprenderam a comer, terão que voltar a se acostumar com o relho do feitor.

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