Apenas sordidamente humanos com um espelho nas mãos, por Maíra Vasconcelos

A contemporaneidade não permite apenas um rosto, de tudo o que se vê refletido, quebrado, anulado e apagado para voltar a se refazer.

Rene Magritte

Apenas sordidamente humanos com um espelho nas mãos

por Maíra Vasconcelos

A questão é a voz. Ou as vozes e suas diferentes possibilidades dançando todas comigo. Neste lugar absolutamente feito para escrever. Ou um lugar apenas nublado como dias de inverno. Aqui, cheia de vozes, toco cada uma delas e seus lugares. A voz para escrever neste jornal permanece desencontrada deixando insistentemente a busca como protagonista.

Sempre soube das vozes, bastava ficar em silêncio. Mais um inverno e o único que me apetece é falar das vozes, há quantas semanas. Aqui no jornal, por alguma razão ainda pouco conhecida, tantas vezes falo como a destrinchar a escrita. Assim, sem pretensões demasiadamente afirmativas. Essa escrita que traduz toda interioridade e exterioridade existentes, e expressivamente fantasiosa busca como se diante do espelho quebrado pedisse satisfação sobre todos e quaisquer movimentos. Sempre os movimentos, essa busca.

Esse questionamento incessante, cansado, sem-forma-definida. A contemporaneidade não permite apenas um rosto, de tudo o que se vê refletido, quebrado, anulado e apagado para voltar a se refazer. E quando o espelho cai na rua, o espelho sempre cai na rua, essa dificuldade de ordenar os reflexos. Sem pretender dizer que somos um rio sem freio, por favor. Somos apenas sordidamente humanos com um espelho nas mãos. Com um espelho nas mãos enquanto caminhamos, vamos ao cinema, ao café. E o espelho permanece quebrado medindo espaços entre os dedos e a palma aberta.

Agora no jornal, essa voz que se busca quase implorante. Mas suplicante de quê? Ou apenas uma voz para outra vez escrever no jornal, escrever o que não é cotidiano, o que não é a realidade de um quarto fastidioso e comum, como todo quarto que recebe nascimentos e mortes.

Apenas uma voz para desviar, sem nunca poder, o lado de fora da porta, a rua, o outro país, este país, alguma cidade que nunca determina o espelho. E o espelho caindo de um lado a outro da geografia. Sendo apenas uma voz quase íntima e nunca-natural, sempre pensada demais, fichada deveria ser em uma biblioteca pública para quem deseja escutar alguma coisa humanamente insistente, humanamente cansada apenas por manter um espelho quebrado nas mãos e ao mesmo tempo ausente como as palavras que ainda não escrevi. Apenas essa voz e de novo a sua limitação absurda em apenas querer essas mãos livres.

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