Celso Marconi, uma vida de cinema, por Urariano Mota

Nas linhas que escrevo neste agosto de 2019, observo primeiro que Celso Marconi tem sido o crítico brasileiro de cinema com maior longevidade. 

Reprodução Youtube

Celso Marconi, uma vida de cinema

por Urariano Mota

Nas linhas que escrevo neste agosto de 2019, observo primeiro que Celso Marconi tem sido o crítico brasileiro de cinema com maior longevidade.  Desconfio que não só no Brasil. Hoje e antes, não se tem notícia de críticos de cinema com a sua idade. Quero dizer, críticos de cinema em ação, a escrever e publicar todas as semanas, com uma curiosidade intelectual sem fim, não conheço.  Próximo a ele só Bárbara Heliodora, mas essa era crítica de teatro.

A segunda observação é que aos 89 anos, completados neste 23 de agosto de 2019, Celso Marconi ainda é o mais jovem crítico de cinema do Brasil. Parece até um paradoxo, mas explico. Quem acompanha as mais recentes críticas, que ele tem publicado na seção Prosa, Poesia e Arte, do Portal Vermelho, sabe do que estou falando. Lembro o texto-aula “O pioneiro filme crônica de um verão”, e este “Face a Face de Bergman”, em que ele volta ao clássico e relata a mais atual e revoltada impressão em julho deste ano:

Face a Face é melhor ser visto num aparelho individual, numa TV grande, mas de maneira que você possa parar quando estiver cansado, prostrado, e sair para comer um chocolate ou tomar um café antes de continuar. Penso que, se estivesse vendo esse filme de Ernst Ingmar Bergman hoje numa sala de cinema, eu gritaria para que parassem pra gente descansar um pouco….

A grande sequência do filme ocorre enquanto a doutora está internada no hospital e vive inúmeros momentos de alucinação. O diretor faz as cenas acontecerem em termos realistas, embora sejam todas verdadeiros sonhos. Dessa maneira, o espectador vivencia como se estivesse ele mesmo dentro da mente da personagem – e ele próprio vivendo todo o drama. 

A atriz Liv Ullmann, com a direção de Ingmar Bergman, consegue isso. Certamente hoje são poucas as pessoas que conhecem o cinema de Ingmar Bergman e isso se justifica pelo fato de que o atual presidente do País não tem a menor noção do que é Cultura, e sem dúvida nunca viu nem um filme de Ingrid Bergman – quanto mais de Ingmar! É uma pena. Com tantos elementos novos e fundamentais para mudarmos a nossa vida e podermos conhecer melhor o que é uma vida amadurecida, é lamentável que estejamos vivendo esse dilema de moralismos inúteis”.

Daí que pergunto: precisa ainda mostrar a mocidade do crítico pelas revelações sinceras e rebeldes no que ele escreve? Aliás, se não houvesse a informação ao pé de suas críticas, “Celso Marconi, 89 anos, é crítico de cinema, referência para os estudantes do Recife na ditadura e para o cinema Super-8”, não notaríamos uma idade além dos 30 anos do autor.

Todas as vezes em que escrevemos sobre um grandes artista, crítico ou escritor, sempre se pede a opinião de uma autoridade, que não somos nós mesmos apenas com o currículo da nossa sensibilidade. Então copio o trecho de um  depoimento exterior ao Recife, de autoridade irrefutável no cinema brasileiro. Olhem o que fala Nelson Pereira dos Santos, o diretor magnífico, sobre o nosso crítico:

“O que seria dos filmes, aqueles que ainda vivem dentro de nós, referências insubstituíveis de momentos gloriosos de nossas vidas, sem o registro crítico da época, representada por cineastas/escritores do porte de Celso Marconi?”. 

Sim, o que seria dos filmes? As pessoas não se dão conta, mas o conceito das obras maiores do cinema seria menor sem a iluminação nos jornais da crítica cinematográfica. Não pensem por favor que cometo uma heresia contra a corrente de que a obra é tudo, total. Mas penso que Cidadão Kane, O Encouraçado Potemkin, Roma, Cidade Aberta, Ladrão de Bicicletas, Deus e o Diabo na Terra do Sol, entre outros, são fenômenos da criação que atravessa séculos por sua força artística primeiro, e pelo que deles falou a crítica, que abriu os olhos dos insensíveis também. A crítica de cinema  estimulou as portas da percepção para os criadores da tela.  

Assim escrevo por lembrar o que representava para nós a crítica de Celso Marconi nos jornais. Seu Amaro Lindoso, pai do atual cientista político José Antonio Spinelli, era operário gráfico no Jornal do Commercio. Graças a ele  podíamos ler os textos impressos de Celso Marconi na casinha do Arruda. Nós corríamos para aquelas críticas que nos revelavam o valor da programação do Cine de Arte Coliseu e outros cinemas. Que oásis! Bebíamos o que ele nos revelava naquele deserto da ditadura. Entendam agora o alumbramento. Reproduzo um fragmento de crítica no Jornal do Commercio, recuperada no livro “Obra jornalística de Celso Marconi – Cinema Brasileiro (Volume 1)”. São linhas que fizeram a cabeça de estudantes contra a ditadura e novas gerações no Recife: 

“É realmente extraordinária a reconstituição do ambiente, da paisagem, da vida dos anos 30 no interior nordestino, conseguida por ‘São Bernardo’, filme de Leon Hirszman. E isso se deve em parte ao trabalho do cenógrafo Luiz Carlos Ripper. No cinema brasileiro, Ripper é o único cenógrafo que tem conseguido marcar sua presença com um trabalho de caráter pessoal. Não se pode negar que tanto para a cenografia quanto para a fotografia os resultados excelentes se devem, também, ao diretor Leon Hirszman, porque foi ele quem pediu tal resultado aos técnicos. 

Na parte de interpretação, temos alguns momentos excepcionais. Um deles me parece ser a sequência em que Paulo Honório (Othon Bastos) se encontra na sala da casa de Madalena (Isabel Ribeiro) e lhe diz que o seu interesse não era por uma professora, mas por uma companheira. A maneira de sentar, a timidez misturada com a falta de trato social, certos detalhes das mãos, demonstram o quanto Othon Bastos trabalhou o personagem de Paulo Honório.

É um filme que desperta o maior entusiasmo enquanto, propriamente, forma cinematográfica, com algumas sequências que me parecem ser tão criativas quanto algumas das melhores sequências dos filmes de Godard. E não há dúvida de que Leon Hirszman, um conhecido eisensteiniano, se deixou influenciar pelo cinema renovador do cineasta francês”.   

Copio as linhas dessa crítica e sinto o cheiro do jornal na casa de Seu Lindoso.  No papel havia um perfume de sobrevivência do espírito. E acompanhem o porquê nas palavras de Nelson Pereira dos Santos, ao apresentar o livro da obra jornalística de Celso Marconi:

“Os textos aqui presentes documentam o requintado sabor que Celso Marconi sempre emprestava na apreciação de cada filme, em especial quando se tratava de filme brasileiro. A leitura deste livro equivale a uma viagem na memória, em busca dos filmes, brasileiros e do mundo inteiro, que fizeram a cabeça de muito jovem nos anos 60”.  

E dos anos 70 também, acrescento. Quando eu pesquisei sobre a ditadura no Recife dos anos de Médici, e desejei retomar a atmosfera do tempo nos jornais para meus romances, eu parei mais de uma vez nas páginas de cinema. Ao sair do arquivo de microfilmes da Fundação Joaquim Nabuco, recebia uma pancada de sol, que me reintroduzia à força no século XXI. Pancada, porque eu havia estado na sala escura do cinema daqueles tempos. E via então a crítica de Celso Marconi como a do camarada possível na redação dos jornais no Recife.  

Mas na sua crítica há lugar para alguns momentos cômicos. No livro “Super 8 & Outros – Cinema Brasileiro (Volume 2)”, leiam este flagrante do tempo sobre o  curta Vivencial, sobre um grupo de teatro onde se representavam esquetes ligadas à homossexualidade, violência e sátira cultural: 

“Entre as reações ao filme Vivencial, de Jomard Muniz de Brito, há um fato a registar. É que um senhor, que se declarou Jornalista, Espírita e Teólogo, enviou uma carta ao cineasta Jomard declarando que pelas blasfêmias que o cineasta tinha praticado contra a Igreja Católica diante de uma igreja, ele poderá (ou deverá) ser punido em outras reencarnações”. 

Era demais. Como se fosse pouca a perseguição na terra pela censura e polícia, o diretor do filme Vivencial deveria padecer no inferno assim que morresse. Olhem parte  do filme de 1974 que atravessaria os infernos:       

Ao pesquisar sobre críticos longevos, apareceu uma grande jornalista de cinema nos Estados Unidos, Judith Crist. Ela ficou famosa pelos comentários rudes e espirituosos que fazia sobre filmes como “A noviça rebelde”, “Cleópatra” e outros. A tal ponto, que levou o cineasta Billy Wilder a comentar o que ela fazia aos diretores de cinema com esta frase genial: “Convidar Judith Crist para resenhar um filme seu é como convidar o estrangulador de Boston para massagear o seu pescoço”.

Para todos seus admiradores, esse não foi nem é o gênero da crítica de Celso Marconi. Ele é sincero, verdadeiro, arguto, com absoluta independência intelectual, mas sem ácido. Aqui, a sua presença em vídeo num depoimento pedagógico, brilhante, há 4 anos.

Está visto, temos visto enfim: Celso Marconi é uma vida de cinema, para o cinema, pelo cinema. Um dia talvez se escreva que ele fez do cinema a sua vida real.

*Vermelho http://www.vermelho.org.br/noticia/322941-1 

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome