Escrever uma não-notícia pode ser útil até mesmo aos jornais, por Maíra Vasconcelos

Quando as autoridades públicas podem ser quase sempre as mesmas, em todas as notícias de jornal, mas nunca na ficção.

Escrever uma não-notícia pode ser útil até mesmo aos jornais

por Maíra Vasconcelos

Ouça o texto aqui: 110713_002

Hoje, ao ler jornais, percebi o quão longe e perto a imaginação pode estar diante dos fatos. Afinal, a imaginação é sempre intrometida demais, até mesmo diante dos fatos, que não são mais do que isso que se apresenta como supostamente comprovável nas páginas de um jornal. Todos os dias, e acabou. Nos jornais, a palavra é essa obrigação de servir informação. As fortes chuvas de ontem ocasionaram desastres nunca vistos na cidade. 

E hoje, ao ler os jornais, percebi que escrever uma não-notícia pode ser útil até mesmo aos jornais. Vamos supor. As fortes chuvas arrasaram Belo Horizonte inteirinha, todos os seus 331,401 km² foram afetados. Em seus 122 anos, a cidade nunca viu coisa pior. Um senhor saiu de sua casa e disse, nunca mais irei voltar.

As autoridades afirmam que o senhor saiu de casa por pura e simples vocação de ser da rua. A outra razão são as chuvas, que o teriam ajudado na decisão. Os jornais continuarão a dar voz às autoridades. O prefeito disse que cada vez mais há pessoas que simplesmente querem morar nas ruas, principalmente em épocas de chuva. Mas por livre e espontânea vontade, prefeito? Sim, essa livre e espontânea vontade pela rua, por estar ali transitando sem teto, porque a céu aberto é muito bonito e dá essa sensação gostosa de amplitude na vida, disse o prefeito. 

Meu Deus. Como isso pode ser real e fantástico ao mesmo tempo. Pois, hoje, ao ler os jornais, as autoridades se justificavam dizendo que os problemas foram ocasionados pelas precipitações de índice histórico na capital. Sempre as mesmas falas. Ah. Quão difícil está desautorizar a fantasia. Quando as autoridades públicas podem ser quase sempre as mesmas, em todas as notícias de jornal, mas nunca na ficção.

 

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