Festa de São Benedito (no tempo do correio elegante), por Antonio Luiz Fontela

Festa de São Benedito (no tempo do correio elegante)

por Antonio Luiz Fontela

“Lá vai a garça voando
por esse mundo sem fim,
vai perguntar ao meu amor
se ela gosta de mim”

Versinhos ridículos, não? mas fizeram sucesso nas noites frias do passado, na festa de São Benedito. Era o melhor jeito de arrumar namorada. A timidez da adolescência não permitia a abordagem direta. As paixões começavam antes. Em geral no fim do ano anterior, por ocasião dos bailes de formatura. Os mais audaciosos tiravam a dama para dançar, mas onde encontrar coragem para uma declaração? Tinham que esperar o mês de maio. O correio-elegante seria o remédio apropriado. E o tempo custava a passar.

Finalmente chegava o primeiro dia de maio, junto com o frio que avermelhava os rostos pueris. O vestuário era elegante. Os lábios e olhos femininos adquiriam mais brilho. E lá vai o moço tentar a sua primeira conquista. Antes aquecia-se com um quentão na barraquinha do Avestruz. Aquecia e ganhava coragem. Chegava ao barracão de madeira, coberto de sapé, chão de terra batida, onde a juventude se aglomerava. Ao lado, os mais velhos participando do leilão. Zelando pela castidade das filhas. Com uma capa negra, com gola de veludo, sobre a batina, o padre Trajano comandava. 

O moço nervoso. O que escrever para a sua eleita? Alguns recorriam ao Zé Asdrubal Amaral, que já era poeta e metido a intelectual. Mais um quentão. Falta novamente a coragem. Por fim ele consegue. A letra sai trêmula. Não escreve o nome. Escolhe um pseudônimo. Pede para um moleque entregar. Recomenda: – não fala quem mandou. De repente a resposta. Versos declarando amor. Alguns prometendo beijos. Relíquia.

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Fica guardado como bem mais precioso. 

E os dias vão passando. Agora rápidos. A correspondência poética avolumando. E nada de coragem para uma aproximação.

Chega o dia treze. O moço diz para si mesmo: – é hoje ou nunca. Abusa do quentão. O líquido precioso é necessário. In vino, veritas… e audácia. Supremo ato de coragem. Sai de seu canto e chega frente à sua princesa. Diante da razão única de seu viver. Gaguejando consegue se declarar. Ela, calma, sorridente, toda dona de si, aceita. Saem juntos da festa. Uma amiga servindo de vela. Ele volta feliz. Tem que contar para os amigos. Não é qualquer um que tem namorada. Ele sim. Ele é homem. Agora só pensa em pegar na mão. Talvez consiga até o natal.

Antonio Luiz Fontela

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