Limitações – Parte 1, por Rui Daher

Percebo cansaço em tudo. Desde o início da década de 1960, fiz o que deveria ser feito. Perdi feio, olhando apenas para a esperança e esquecido da realidade de nossas “veias abertas” (Eduardo Galeano).

Limitações – Parte 1, por Rui Daher

Depois de quase cinco anos ineficazes, insípidos, anódinos e frugais, há mais de dez dias não vinha à Redação do Blog Rui Daher. Falhas técnicas e, claro, preguiça, a cada dia mais evidenciada pelo tal isolamento que não me atrai. Saudades de Nestor, Pestana e Everaldo, sim. Tempo, no entanto, suficiente para a reflexão fazer-me envergonhado de voltar a escrever.

São tantos, né, fazendo o mesmo? Diferente de quando em São Paulo, lembro os “Correio Paulistano”, “Gazeta”, “Folha da Manhã” e “Estado de São Paulo”. Na multidão, sempre me senti só, deserdado.

Sei que a gloriosa editora suspirará e pensará: “tarra” eu aqui sossegada, pensando no que é editar o melhor jornal digital do País, e lá me vem o Rui e seus mimimis”.

Errará a poços-caldense, piracicabana e londrina amiga. Os maiores gênios literários também tiveram frustrações próprias. Falsas, até, como mais tarde se mostraria. As minhas estão entranhadas no brejo do cérebro.

Acontece em momento que não me disponho a escrever porra nenhuma, muito menos viver para assistir o que se passa no Brasil. Menos ainda, se pilhérias, galhofas, piadas prontas, e vocês me acharem um cronista do ridículo brasileiro, quiçá planetário.

Do que mais gostaria e me dedicaria com todo o afinco seria “Botar meu bloco na rua” (Sérgio Sampaio) até entender nossa pacífica conformação diante do aniquilamento de terra maravilhosa, que dela sei, pronta para alvorecer.

Percebo cansaço em tudo. Desde o início da década de 1960, fiz o que deveria ser feito. Perdi feio, olhando apenas para a esperança e esquecido da realidade de nossas “veias abertas” (Eduardo Galeano). Pesquisem. Leiam antes que os bichos escrotos (ver Zeca Baleiro) taxem os livros, porra!

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Então, conto a saga de Vitório e Maria, que conheci em uma de minhas “Andanças Capitais”, pouco notadas, mas duradouras.

Apesar de milhares de feitos benéficos a Mariazinha e à família, em quase meio século constituída, Vitório gosta de beber. Fermentados, mais permitidos, e destilados, menos. Poderia ir de tudo, menos Fernet. Não vai com a cara do nome. Vitório, atualmente, pesquisa álcool gel 70 misturado a limão caipira e mastruz (sem leite).

Não se embebeda todos os dias. Trabalha para ganhar a vida. Aliás, nunca entendi bem essa expressão. Não seria ganhar a morte?

Depende de seu estado de espírito (outra que não entendo, espírito não seria somente pós-morte?). Melhor mental ou da cuca, que se monossílabo não sairia como reflexão. Fosse livre e não condicionado por fuxiqueiros vários, Vitório esperaria “Um beija-flor invadir sua casa, dar-lhe um beijo e partir” (adaptado de “Ai que saudade d’ocê” – Geraldo Azevedo).

Mas, danado este Vitório, fez com que a proibição do álcool, sempre alegada por Mariazinha como benéfica à sua saúde, transformasse a proibição em desobediência. Brincava. Esconde-esconde, horários fortuitos, os locais menos cogitados da casa sempre guardavam uma garrafa para eventuais desesperos abstinentes.

Vez ou outra a casa de Vitório caía. Depois de meia garrafa de vinho branco, quis experimentar cachaça (carvalho) que trouxera de Minas. O rufião foi ao mocó para dois dedos de teste.

Mariazinha chega para contar alguma novidade.

– O que você estava fazendo lá fora? O que é isso em seu copo?

– Vinho branco, uai!

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– Deixa eu cheirar e provar.

– Boa de olfato e paladar, esta Mariazinha. Covid-19 não tem.

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