Lula e Sócrates, por. Sr. Semana

À primeira vista pouco parece haver em comum entre o filósofo ateniense e o político ex-metalúrgico pernambucano.

Lula e Sócrates

por. Sr. Semana 

Assim como Reinaldo para os atleticanos,[1] Sócrates é um ídolo para o corintiano Lula, não somente por ter sido um dos maiores craques que jogaram no e se identificaram com o clube, mas principalmente pela liderança democrática que exerceu fora das quatro linhas. Mas o Sócrates desta crônica é o grego do século V antes de Cristo.

À primeira vista pouco parece haver em comum entre o filósofo ateniense e o político ex-metalúrgico pernambucano. Entretanto, embora as atividades e épocas de cada um sejam muito distintas, o mesmo não se dá com os fins que um perseguiu e o outro ainda persegue e as dificuldades que um enfrentou e o outro ainda enfrenta. 

Ambos contrariaram interesses poderosos (econômicos, políticos, culturais e de costumes), foram julgados e condenados a severas penas: Sócrates à morte; Lula a mais de 12 anos de prisão. A história já mostrou a injustiça de ambas as condenações embora a de Sócrates, contrariamente à de Lula, tenha se dado de acordo com as regras do jogo.

Por terem muitos admiradores, não seriam condenados se desistissem de suas atividades precípuas. Mas Sócrates preferiu a morte a abandonar sua atividade filosófica na ágora e Lula preferiu ir para a prisão a abandonar sua atividade política. Convencidos de suas inocências, enfrentaram a justiça de peito aberto mesmo sabendo das poucas chances de ela ser feita. 

Uma vez condenados, amigos influentes propuseram a fuga para o estrangeiro, recusada por ambos. Sócrates recusou o plano de fuga que lhe foi comunicado por Críton questionando: “pensas ser possível a existência de um Estado e não ser este destruído quando falta força às decisões nele alcançadas pelos tribunais e essas são invalidadas e anuladas por indivíduos privados?”[2] Tendo nascido, vivido e se beneficiado das leis de Atenas, Sócrates sentia não somente o dever de se submeter à condenação, como não suportaria viver fora de sua cidade-estado. A reação de Lula à proposta de fuga foi dizer: “eu sou inocente. Não vou me asilar. Não vou sair do país, esta terra é mais minha que deles [os que lhe acusaram e que logo iriam lhe condenar]”.[3]

Os fins das respectivas atividades são afins. Sócrates está na raiz de valores fundamentais da civilização ocidental que a extrema direita busca hoje destruir. Foi condenado à morte por estimular nos jovens atenienses a atitude racional crítica de opiniões tradicionais,[4] sendo também associado às investigações científicas que prosperavam na Grécia antiga e que minavam a credibilidade das “explicações” religiosas tradicionais.[5] Quanto a Lula, sua viagem recente à Europa mostrou que alguns dos principais líderes mundiais contam com ele para este combate civilizatório.

Atenas se arrependeu amargamente por ter condenado quem logo se tornaria o seu mais ilustre cidadão, aquele que mais contribuiu para a grandeza da Grécia antiga. Dos três acusadores de Sócrates, dois foram banidos e o principal condenado à morte.[6] O obscurantismo que a sua condenação expressava foi contido até as invasões bárbaras de Atenas ocorridas cerca de 700 anos depois. Por aqui, muitos que apoiaram e pediram a condenação de Lula também já se arrependeram. Entretanto, nós que prezamos o estado democrático de direito, a liberdade de pensamento, a laicidade do estado, a ciência e a educação libertadora, assistimos estarrecidos a um grande esforço de forças econômicas, políticas e midiáticas em levar os algozes de Lula ao poder.


[1] https://www.blognegronicolau.com.br/2021/11/reinaldo-o-rei-contra-os-ditadores.html

[2] Platão, “Críton” in Diálogos Socráticos, tradução de Edson Bini: São Paulo, Edipro, 2ª edição 2015, p. 177 (50b).

[3] Fernando Morais, Lula, vol. 1, São Paulo: Companhia das Letras, 2021, p. 48.

[4] A acusação é que “corrompe a juventude e descrê dos deuses do Estado, crendo em outras divindades novas” (Platão, “Apologia de Sócrates”, 24b-c in op. cit., p. 155).

[5] O principal acusador, Meleto, declarou que “Sócrates é réu por empenhar-se com excesso de zelo, de maneira supérflua e indiscreta, na investigação de coisas sob a terra e nos céus” (“Apologia de Sócrates”, 19b in op. cit., p. 137).

[6] Cf. Diógenes Laércio, “Socrates” in Lives of Eminent Philosophers, traduzido para o inglês por H. D. Hicks, Cambridge: Harvard University Press, 1974, II, 43.

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