Na Redação, por fim, por Rui Daher

Por outro lado, não me agradava admitir o fim do blog depois de tantos anos de brava militância ao lado da defesa de uma democracia com mais distribuição de renda e direitos cidadãos.

Na Redação, por fim

por Rui Daher

Chovem telefonemas, zaps, mensagens digitais, até cartinhas seladas e telexes. Mesmo um telégrafo em código Morse, que não entendi. Tomei-o como do bem. Depois da quase total invalidez, não acredito quem pudesse me odiar, mesmo sabendo nós, os brasileiros, elogiarmos apenas mortos ou em estado terminal, ainda mais se comunistas ou petistas, que bolsominions, profundos conhecedores de História, acham iguais.

Durante esses cinco meses de semiparalisia (partes, algumas ainda não testei), a falta de patrocínio, a pressão das despesas, vergonha em não poder remunerar a equipe, me fizeram fechar a Redação. Não sabia, também, quanto tempo nossa bondosa editora permitiria o BRD ocupar o velho espaço “no Vasco”, sem cobrar aluguel.

Por outro lado, não me agradava admitir o fim do blog depois de tantos anos de brava militância ao lado da defesa de uma democracia com mais distribuição de renda e direitos cidadãos.

Não fora fácil reunir uma equipe coesa e corajosa disposta a enfrentar as aleivosias da manada que sustenta o Acordo Secular de Elites, que a cada ano mais prolifera.

Nem tudo, porém, são espinhos nos jardins onde sentei-me para ler Rosa.

Alma boa, que bem se recorda das vidas e dificuldades com que se remava o Brasil em 2013, fugindo da pobreza, mas esperançado e altivo, não se conformou com o meu fim e o desta Redação em ano tão maligno, em meio a vírus e vermes, um que se espalhava pelo ar e outro que contagiava a partir de “cercadinhos”.

Para o meu caso, providenciou um hospital de ponta, ótimo cirurgião, equipe médica excelente, ternos e estimulantes profissionais de saúde, e em dezoito dias lá estava eu de volta à casa onde navego há quarenta anos, pronto para restabelecer uma bondosa medula que me acompanha há 76 anos. A fisioterapia é lenta, gradual, árdua, mas passei por uma abertura que também foi e aqui estou lutando para abrir uma ditadura ainda pior, pois indecentemente estúpida.

E assim vou indo, não sem algumas recriminações. Da família, que após assistir a mais de 40  anos de dedicação, probidade e amor, me acusa de extrapolar o dia 30 de maio de 2021, dia em que saltei fora de panela de pressão entulhada de vírus e vermes para juntar-me a bandeiras verdes e amarelas, também vermelhas, para implodir-me no jardim de minha casa, talvez, ato final para a corbeille “Da família e amigos que tanto o amaram”.

Depois de cinco meses, percebo e comunico estar vivo. Nunca saberei se para gáudio ou surpresa de quem ainda não entendeu que a vida não suporta qualquer tormenta.

Continuarei com a minha. Não serão muitos anos. Passo da finitude ao final.

Inté!

Rui Daher – administrador, consultor em desenvolvimento agrícola e escritor

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3 comentários

  1. Rui Dhaer,
    Muito bom!
    E talvez caiba lembrar que em tempos do politicamente correto não seja recomendável mencionar o Eric Clapton. Dessa vez passa, pois você o mostra tocando guitarra.
    Clever Mendes de Oliveira
    BH, 12/11/2021

  2. Queridíssimo menino traquinas, que bem o sei, força e cabeça erguida, ainda que doa um pouco. Aceite minha companhia mineira com meus doces, minhas flores, meus versos e minhas/suas leituras. Saúde, amantíssimo Rui!

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