Procuro falar, por Maíra Vasconcelos

Procuro falar todas as coisas que habitam e desabitam flagrantemente nossos olhos e peles. Se estamos em movimento constante e invariavelmente nos despedimos de grandes e pequenas coisas, e assim nos reencontramos para continuar a viver. Se não há como sorrir sempre escancarado a céu aberto, como o sorriso debaixo das árvores e a admiração dos namorados pelas folhas verdes.

Procuro falar o absurdo contido nas coisas flutuantes e fixas, porque o corpo se altera e deambula e em nada estaciona, senão apenas na morte. O correr de tudo é vida, mesmo que casas se estabilizem e queiram nunca sair do lugar – o dono daquela casa morreu em solo trezentas vezes e nem ao menos percebeu como se aferrou ao não-estar. Mas sempre temos a lírica que trabalha para que toda casa pareça menos aferrada à morte. Por isso, escrevo.

E sei que ninguém deseja falar tais meandros e poéticas, mas pela coerência com o pensar, recito antes de sorrir – sem nunca deixar de buscar risos largos entre folhas verdes. Procuro falar a loucura e a morte. Dizer o que aconteceu e não voltará: como rabiscar com giz o chão do bairro porque chegou a Copa do Mundo e a vez da memória. Tento nas palavras amansar esses estados, o da morte e o da loucura, colori-los, digerir a necessidade da vida em constante movimento.

Procuro falar as coisas antigas e mortas que nunca terminam de se comunicar. Que às vezes não entendemos suas indiretas comunicações, se julgamos tal aproximação como sendo desprazeres. Mas o que não sabemos é suportar a beleza triste e combativa da memória.

Procuro falar que é necessário amar aos mortos e reverenciá-los, talvez como faziam as tribos ancestrais, talvez se tivéssemos verdadeiro carinho pela vida e espírito forte. Falo que é digno amar aos mortos para caminhar como se os abandonássemos, para nos despedirmos de seus lugares preferenciais, gostos de café e quadros dependurados na sala de estar, como se pudéssemos viver sem suas ausências tão presentes, como se pudéssemos esquecer os gestos copiados que ficam marcados em nossos rostos e expressões caseiras. Mas nos aliviamos de todo passado sempre que nos acolhemos em enamoradas folhas verdes. 

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