Indústria bélica influencia a política externa do governo Biden, por Ruben Rosenthal

Embora Biden tivesse prometido em 2019 que se chegasse à Casa Branca daria fim às “guerras infindáveis”, as novas escolhas de integrantes para os cargos de política externa e de segurança parecem sugerir o contrário.

Biden dará fim às guerras infindáveis? Chegada de tropas ao Afeganistão, 2010 \ Foto: Damon Winter/The New York Times

do blog Chacoalhando

Indústria bélica influencia a política externa do governo Biden

por Ruben Rosenthal

Os gastos com armamentos apenas fortalecem a continuidade de guerras e novas intervenções militares. Uma aliança profana une think tanks, complexo bélico e imprensa.  

Nos Estados Unidos é recorrente o envolvimento promíscuo dos institutos de análise política, conhecidos como think tanks, com a indústria bélica, órgãos do governo, jornalistas e governos estrangeiros.

Vários indicados por Biden para posições relevantes na administração tiveram ligações estreitas com o think tank CNAS, Centro para uma Nova Segurança Americana, que tem um histórico de apoiar as políticas belicistas do Pentágono.

Embora Biden tivesse prometido em 2019 que se chegasse à Casa Branca daria fim às “guerras infindáveis”, as novas escolhas de integrantes para os cargos de política externa e de segurança parecem sugerir o contrário. A retirada das tropas do Afeganistão pode ter sido uma exceção, que talvez ele não pretenda repetir no Iraque e na Síria.

Ou então, ao invés do engajamento direto de tropas norte-americanas, talvez Biden venha a terceirizar as guerras dos Estados Unidos, empregando tropas de outros países ou de facções terroristas (proxy wars). O que não seria novidade.

A volta da bolha assassina

O filme de 1958 “The blob”, que recebeu no Brasil o título de “A bolha assassina”, foi estrelado por Steve McQueen, então com 28 anos. No filme, uma entidade alienígena amorfa e gelatinosa chegou ao planeta Terra presa em um meteorito.

The revenge of the blob
A volta da bolha assassina \ cartaz do filme The Blob, 1958, Paramount

O setor tradicionalista do establishment de relações exteriores foi apelidado de “blob” pelo assessor de Barack Obama, Ben Rhodes, em 2016. Para Rhodes, Hillary Clinton (então secretária de Estado), bem como outros belicistas de ambos os partidos que apoiavam a guerra no Iraque e no Afeganistão faziam parte da bolha.

Tanto Barack Obama como Donald Trump procuraram manter uma certa distância dos tradicionalistas, o que não impediu a forte influência de Hillary Clinton no governo Obama, e de John Bolton na administração Trump.

Quando o candidato vitorioso Joe Biden começou a formar, em dezembro de 2020, a equipe sênior que assumiria posições-chave na política externa e na segurança, ele privilegiou a elite linha-dura do establishment, os chamados falcões da política. Para o  site Vox, foi a “vingança da bolha”.

Para o cargo de conselheiro de segurança nacional, Biden chamou Jake Sullivan, que já fora seu conselheiro de segurança, quando vice-presidente na gestão de Obama. Sullivan atuou como membro (fellow) sênior junto ao Carnegie Endowment for International Peace.

Os doadores do Carnegie incluem as empresas bélicas Boeing e Northrop Grumman, a Marinha, a Força Aérea e a agência de inteligência da defesa, segundo relatório de outubro de 2020 do Centro para Política Internacional (CIP, na sigla em inglês).

Para o Departamento de Estado, o presidente convocou Antony Blinken, que o acompanha desde 2002. No segundo governo Obama, Blinken passara a ser o número 2 no Departamento de Estado.

Segundo o site Politico, em 2017 o atual secretário de estado formou com Michèle Flournoy, Avril Haines e outros membros da administração Obama, a empresa de consultoria WestExec Advisors.

Muitos dos funcionários da empresa são membros do Partido Democrata que ocuparam posições na segurança nacional e política externa.  A WestExec Advisors tem em seu portfólio de clientes corporações do setor bélico, como a Boeing e a firma israelense Windward, de tecnologia militar.

Think tanks e a indústria bélica

Com frequência, os think tanks não são transparentes sobre a origem dos fundos que recebem. Desta forma, relatórios favoráveis aos interesses dos doadores são produzidos pelos pesquisadores dos institutos, sem que seja mencionada a existência de possíveis conflitos de interesses nos pareceres.

O relatório produzido pelo CIP analisou o financiamento pelo governo norte-americano e por fornecedores da defesa aos 50 maiores think tanks dos EUA. Os principais recipientes destes financiamentos foram a Corporação RAND, CNAS, e New America. Os setores do governo que mais contribuíram foram a Secretaria de Defesa, a Força Aérea, o Exército, o Departamento de Segurança Interna, e o Departamento de Estado. As empresas fornecedoras da Defesa que fizeram as maiores doações foram a Northrop Grumman, Raytheon, Boeing, Lockheed Martin e Airbus.

Outros institutos também receberam seu quinhão. O Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês) construiu sua sede de 1.400 metros quadrados em Washington com fundos recebidos de empresas do setor bélico, como a Lockheed, Boeing, Rayheon, de gigantes do setor farmacêutico, como a Procter & Gamble, de petrolíferas como a Chevron, e do Sultão de Omã.

Lockheed Martin’s latest Indago tethered variant is ready for intelligence at the battlefield
Drone Indago 3, para vigilância e inteligência \ cortesia Lockheed Martin

Conflitos de interesses na administração Biden

O relatório do “projeto porta-giratória” (revolving door project), do Centro para Pesquisa Econômica e Política (CEPR, na sigla em inglês), revelou que pelo menos 16 dos especialistas indicados por Biden para cargos relevantes nas áreas de segurança nacional e de relações exteriores, já exerceram funções na estrutura do think tank CNAS.

Para a Diretoria Nacional de Inteligência, a qual se subordinam 17 agências de inteligência, foi indicada Avril Haines. Haines já atuara como a número 2 da CIA na administração Obama, quando o programa de assassinatos por drones causou a morte de centenas de civis. Haines também teria acobertado os envolvidos no programa de torturas que decorreu do 11 de setembro.

Outra indicação de um integrante com vínculos ao CNAS foi a de Victoria Nuland para a sub-Secretaria de Assuntos Políticos, o terceiro cargo em importância do Departamento de Estado. Com seu forte posicionamento anti-Rússia, Nuland defendera anteriormente a presença de bases permanentes da OTAN próximas à fronteira oriental do Tratado.

Os setores progressistas conseguiram  evitar a indicação de Michèle Flournoy para o Departamento de Defesa, por seu apoio anterior à guerra do Afeganistão e à intervenção na Líbia. Flournoy foi co-fundadora do CNAS em 2007. Ao final, o cargo máximo da Defesa ficou para o general Lloyd Austin, que chegou a comandar as tropas norte-americanas no Iraque.

Outros indicados para posições relevantes na administração Biden, que tinham vínculos com o CNAS, foram David Cohen, que assumiu como vice-diretor da CIA, Colin Kahl, que ficou como sub-secretário de Defesa, e Susan Rice, como diretora do Conselho de Política Doméstica.

Doadores do CNAS

No site do CNAS estão indicadas as doações recebidas no período outubro 2019-setembro 2020. As maiores contribuições são provenientes do setor de defesa, aí se incluindo a Northrop Grumman Corporation, o Departamento de Estado e o de Defesa.

Elevadas contribuições foram também recebidas do Bank of America; de empresas do setor de informática, como a Google e Microsoft; e de instituições ligadas a governos de outros países, como Japão, Coréia, Taiwan e Canadá.

O relatório do “revolving door project apresentou o estudo de cinco casos em que o CNAS promoveu os interesses de seus doadores, sem a devida transparência: apoio a fornecedores de material bélico para as Forças Armadas;  apoio a estratégias no Afeganistão defendidas por oficiais das FAs com vínculos ao CNAS; apoio à embaixada dos Emirados Árabes Unidos, aliviando regras de exportação de drones de uso militar; recomendação de políticas para as relações EUA-China que beneficiassem doadores do think tank; defesa da compra de jatos de guerra da Northrop Grumman.

New B-21 stealth bomber aircraft, Northrop Grumman
Novo bombardeiro B-21 Raider, invisível ao radar / Arte gráfica: cortesia Northrop Grumman

Em relação ao quinto item, consta no relatório que, em 2018, o CNAS enalteceu o bombardeiro invisível B-21 Raider (dados técnicos) produzido pela  Northrop Grumman, defendendo a aquisição de 50 a 75 unidades, em adição as 100 que já haviam sido adquiridas. Coincidentemente, pouco tempo depois, a empresa bélica doou ao CNAS uma quantia de valor não inferior a 500 mil dólares (site do CNAS).

O relatório do revolving door project também ressaltou que diversos doadores –  indivíduos ou corporações – se encontram representados no quadro de conselheiros do CNAS, chegando a compor 70% dos assentos. Várias destes doadores têm vínculos diretos com empresas do setor de defesa. Embora o conselho não exerça governança, os conselheiros podem encontrar formas de defender seus interesses particulares junto à diretoria do think tank.

A promiscuidade entre think tanks e governos estrangeiros

Denúncias envolvendo ligações suspeitas entre think tanks e governos estrangeiros não constituem novidade. Em 2014, artigo no The New York Times já alertara que potências estrangeiras compravam influência através de think tanks. Segundo o artigo, mais de 12 institutos de análises políticas em Washington haviam recebido doações de governos estrangeiros.

Alguns acadêmicos destes institutos chegaram a relatar que sofreram pressões internas para produzirem relatórios que favorecessem os financiadores das pesquisas, de forma a induzir autoridades norte-americanas a adotar determinadas políticas sugeridas.

Para o CEPR é preciso não esquecer que os governos estrangeiros que financiam think tanks norte-americanos são aliados dos Estados Unidos. Portanto, muitas vezes os interesses desses países não são necessariamente considerados antagônicos aos dos EUA.

Mas não é sempre assim. Donald Trump vetou o acordo de livre comércio da Parceria Trans-Pacífico (TPP, na sigla em inglês) no primeiro dia de seu governo. Conforme citado no artigo do NYT, durante a gestão de Barack Obama, o Japão concedera fundos ao CSIS para promover o TPP.

A promiscuidade entre think tanks e jornalistas

jornalista Dan Cohen alerta em artigo no The Grayzone que jornalistas dos principais veículos da mídia norte-americana, que atuam em política externa e segurança nacional, têm ligações com o CNAS. Estes jornalistas provavelmente recebem benesses através dos financiamentos que abastecem o CNAS.

Cohen lembra que o envolvimento indevido entre jornalistas e o governo dos EUA é anterior à fundação do CNAS em 2007. As reportagens do jornalista David Sanger – atual correspondente-chefe em Washington do NYT – sobre a existência de armas de destruição de massa no Iraque ocorreram ainda no governo do presidente George W Bush.

Em 2008, Sanger fez parte do programa de residência do CNAS. O jornalista prosseguiu difundindo desinformação com seus artigos, em temas como o desenvolvimento de armas atômicas pelo Irã, ataques cibernéticos pela Rússia, como também sobre o vírus Sars-CoV-2 ter se originado no laboratório chinês de Wuhan.

No site do CNAS são citados como participantes programa de residência, quatro jornalistas do NYT, quatro do Washington Post, além de um jornalista do site Foreign Policy (Política Externa). Dan Cohen dá alguns exemplos da desinformação que estes jornalistas contribuíram para propagar.

Eric Schmitt, do NYT, difundiu estórias de hacking pela Rússia; Michael Gordon (ex-NYT e agora no Wall Street Journal) insistiu durante meses em propagar notícias sobre a origem do coronavírus no laboratório de Wuhan; Greg Jaffe, do Washington Post, escreveu sobre a retirada de tropas do Afeganistão; Thomas Ricks, também do Washington Post, comparou Putin a Bin Laden. Além das histórias de Sanger, é claro.

Concluindo. Os gastos com armamentos apenas fortalecem a continuidade de guerras e novas intervenções militares. Uma aliança profana une think tanks, complexo bélico e imprensa.  Enquanto isso,  a população norte-americana anseia por um sistema universal de saúde.

O autor é professor aposentado da UENF e responsável pelo blogue Chacoalhando.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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