Desigualdade: do crescimento inclusivo à recessão excludente, por Marcelo Neri

A desigualdade de renda domiciliar per capita do trabalho aumenta há 17 trimestres consecutivos: a maior da série histórica brasileira

Foto: José Cruz/Agência Brasil

Por Marcelo Neri

A pesquisa “A Escalada da Desigualdade”, lançada em agosto de 2019, revelou que o Brasil vivia a alta mais demorada da desigualdade de renda do trabalho nas séries históricas. Foram trimestres consecutivos de alta quando comparados ao mesmo período do ano anterior. A pesquisa já apontava que o aumento observado no último trimestre era o menor da série de aumento consecutivos demonstrando tendência a estabilização.

Complementando agora essas informações com últimos dados disponíveis (Julho a Setembro de 2019) observamos aumento ainda menor da desigualdade sugerindo que a mesma parece estar chegando ao topo. Apresentamos abaixo uma breve atualização dos dados da pesquisa:

A Escalada da Desigualdade – Qual foi o Impacto da Crise sobre Distribuição de Renda e Pobreza?

O FGV Social lançou no dia 15 de agosto a pesquisa A Escalada da Desigualdade a partir dos microdados da PNAD Contínua (disponibilizados três horas antes). Como a série histórica anterior de microdados foi ajustada pelo IBGE, o estudo investigou mudanças para frente e para trás. A pesquisa mostrou que a desigualdade de renda domiciliar per capita do trabalho está aumentando há 17 trimestres consecutivos quando comparado ao mesmo mês do ano anterior. Esse é o maior período de concentração da série histórica brasileira. Nem mesmo em 1989, o nosso pico histórico de desigualdade de renda brasileira, foi precedido por movimento de concentração por tantos períodos consecutivos.

Desde o final de 2014 até o 2º trimestre de 2019, a renda dos 50% mais pobres da população caiu 17%, a dos 10% mais ricos 3% e a dos 1% mais ricos cresceu 10%. Se estamos falando de uma grande recessão na média e ganho no topo, isto significa que a base da distribuição teve quedas muito mais acentuadas que as da média.

Leia também:  O massacre de Paraisópolis e o apartheid social, por Aldo Fornazieri

Até 2014, o bem-estar social crescia a 6,5% ao ano (porque a renda crescia a e a desigualdade caia). Contudo, em apenas 2 anos, passou a cair quase os mesmos 6,5%. Mais do que uma longa recessão seguida de lenta retomada, passamos do crescimento inclusivo à recessão excludente. A desigualdade alavanca a dramaticidade e a duração do quadro.

O maior perdedor da crise foi o jovem, aquele entre 20 e 24 anos que teve uma queda de renda do trabalho de 17% (a queda média para toda a população foi de 3%). Outros grupos sociais tradicionalmente excluídos também foram bastante afetados pela crise: a população negra teve uma queda de renda de 8%; analfabetos 15%; moradores do norte e nordeste do Brasil, 13% e 7%, respectivamente. Somente as mulheres tiveram um aumento de renda de 2%. Os últimos anos foram de melhora para quem estudou mais, e como as mulheres são mais escolarizadas, elas conseguiram ganhos.

No período crítico 6 milhões de brasileiros passaram a morar em domicílios com renda nula. O efeito-desemprego foi um grande propulsor da queda de renda e do aumento da desigualdade, entretanto o impacto do valor da educação foi ainda maior e a jornada de trabalho foi o terceiro fator de impacto. Obviamente o desaquecimento geral da economia e em especial nos segmentos da base da distribuição gera efeitos em todas estas dimensões. A participação no mercado de trabalho atuou no sentido de expandir a renda mas mais no crescimento da renda média do que na desigualdade. O grande fator de crescimento inclusivo é a expansão da educação que segue expandindo mais na base, cuidados devem ser tomados para potencializar este impacto dada sua natureza estrutural.

Leia também:  Sem-teto são excluídos de políticas habitacionais pelo governo Doria

O último período da série traz alguma perspectiva de melhora: temos o menor aumento de desigualdade do período de escalada, sinal que podemos estar atingindo o topo. Já há troca vantajosa de mais ocupação por menores rendimentos dos ocupados, a renda média geral está crescendo a 1,75% ao ano, taxa superior às projeções do PIB per capita que será divulgado em breve.

Leia o Posfácio com os últimos dados atualizados:

Posfacio-Pobreza-Desigualdade-a-Crise-Recente-FGV-Social-SumarioNov

 

Leia a pesquisa lançada em agosto:

A-Escalada-da-Desigualdade-Marcelo-Neri-FGV-Social

 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome