Há risco de desabastecimento na crise do Covid-19?

Tabelamentos tendem a não funcionar, exceto em situações de guerra de fato. De resto, não adianta fazer requisições se não há produtos

Há risco de desabastecimento na crise do Covid-19?

Por Cintia Tavares, Luiz Henrique Faria e Rodrigo Medeiros

Não há grandes dúvidas de que passamos por um momento dramático. A necessidade de salvar vidas humanas modificou as rotinas sociais em diversas escalas e dimensões em diversos países que enfrentam a crise do Coronavírus (Covid-19). O forte termo “economia de guerra” já circulou na imprensa brasileira e tal fato merece algumas considerações críticas. Nesse sentido, empreenderemos algumas poucas considerações no campo das cadeias de suprimentos, sobre a capacidade das mesmas em dar respostas satisfatórias para o momento de crise. Revelaremos também algumas preocupações que precisam constar na agenda diária de trabalho dos gestores públicos e autoridades responsáveis nesta crise.

Sobre a atual gravidade da crise do Covid-19, em sua coluna na Folha de S.Paulo, o jornalista Vinícius Torres Freire ponderou que “em momentos de calamidade oficial e similares, a lei prevê intervenções estatais na atividade econômica, as quais podem incluir tabelamentos ou requisições. Tabelamentos tendem a não funcionar, exceto em situações de guerra de fato. De resto, não adianta fazer requisições se não há produtos, assim como não adianta tabelar o preço do que não existe” [1]. Em síntese, ainda segundo o jornalista, que é mestre em administração pública, “são necessários o controle e o estímulo da produção de bens essenciais, a começar por aqueles de uso médico-hospitalar, caso não exista material suficiente para o serviço de cuidar dos feridos, doentes, e dar instrumentos aos profissionais da saúde. Esperar que a escassez também se espalhe de modo epidêmico é jogar com a morte”.

Expectativas de queda da economia brasileira já estão circulando na imprensa e impressionam pelas perspectivas do tamanho do tombo, que afetará o precarizado mercado de trabalho. Qualquer estimativa se mostra repleta de incompletudes e incertezas. Entretanto, acreditamos ser possível buscar raciocinar de forma crítica, responsável e preventiva a partir do último choque enfrentado pelas cadeias de suprimentos brasileiras, aquele ocorrido na crise dos caminhoneiros, em 2018. Naquela crise houve um impacto inflacionário, sendo que o grupo alimentação e bebidas foi o que mais influenciou o resultado mensal em junho daquele ano [2]. Esse grupo respondeu por 40% da composição da taxa naquele mês. De acordo com matéria no G1, assinada por Daniel Silveira e Marta Cavallini, “as principais altas ficaram com o leite longa vida (de 2,65% em maio para 15,63% em junho) e o frango inteiro (de -0,99% em maio para 8,02% em junho)”.

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A inflação de serviços, por sua vez, caiu naquela crise. Caíram também as confianças na economia de empresários e consumidores naquele período. Guardadas as devidas proporções e distâncias, há quem avalie riscos inflacionários na crise do Covid-19, ainda que se espere a redução do nível geral das atividades econômicas [3]. De acordo com o professor Roberto Dumas (Insper), “não nos resta dúvida de que se trata de um choque de demanda, externalizado pela queda do preço das commodities, mas também nos parece ser um choque de oferta, com a queda de produção de vários produtos, desde automóveis a eletroeletrônicos”. Não nos parece que um problema “inflacionário” possa vir a ocorrer em itens de consumo não básicos para a manutenção da vida humana na grave crise do Covid-19. Em uma sociedade de desigualdades sociais extremas, históricas e estruturais, como é o caso brasileiro, garantir o amplo acesso aos itens básicos para a manutenção da vida humana merece a atenção e a ação preventiva dos gestores públicos e das autoridades responsáveis. Afinal, em situações análogas à “economia de guerra” é comum o convívio social com alguma escassez relativa de bens e com alguma dose de controle governamental sobre a compra e produção de itens básicos.

Segundo o levantamento que fizemos, não constam riscos imediatos de desabastecimento nos supermercados [4]. A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, afirmou recentemente que os supermercados têm estoques de 60 dias e que não há perigo de desabastecimento [5]. Ela ainda ressaltou que prepara um plano para assegurar o abastecimento de alimentos, desde a fazenda ao supermercado. No entanto, chama a nossa atenção a descoordenação de opiniões e ações entre a instância federal e os governos estaduais. Estes foram obrigados pela realidade a ocupar o vácuo de liderança deixado pelo governo federal no primeiro momento da atual crise. O Governo do Estado do Espírito Santo vem se destacando e conduzindo bem a crise entre os capixabas. Até o momento, o governo federal se mostrou muito tímido em anunciar medidas efetivas para o real enfrentamento da crise no que diz respeito às necessárias defesas da economia nacional e da renda dos trabalhadores. Considerando o arsenal de medidas mobilizado em outros países até o presente, as medidas brasileiras são vistas como insuficientes para o enfrentamento da crise.

De acordo com matéria do portal Terra, “alguns analistas no ramo dos negócios estão sugerindo que os efeitos na cadeia de suprimentos do Coronavírus são inéditos na história recente” [6]. A globalização das cadeias de valor certamente possui a sua cota de responsabilidade pela perda de autonomia relativa dos países nesta crise [7]. O Institute for Supply Management, que realiza pesquisas econômicas mensais, descobriu que quase 75% das empresas que contatou no final de fevereiro e no início de março relataram algum tipo de interrupção na cadeia de suprimentos devido ao Covid-19 e 44% das empresas não tinham um plano para lidar com esse tipo de interrupção. A Organização Mundial da Saúde (OMS), por sua vez, vem pedindo aos fabricantes que aumentem a produção de equipamentos de proteção individual para os profissionais de saúde. Tal contexto de “guerra” demanda a coordenação de planos e ações governamentais para que o risco de escassez de itens básicos à manutenção da vida humana não venha a provocar graves e desnecessários distúrbios sociais nesta crise. O momento é de união em favor da defesa da vida humana.

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Profa. Dra. Cíntia Tavares

Prof. Dr. Luiz Henrique Faria

Prof. Dr. Rodrigo Medeiros

Professores do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes)

Notas:

[1] TORRES, V. Economia de guerra contra o corona. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/viniciustorres/2020/03/economia-de-guerra-contra-o-corona.shtml> Acessado em: 23/03/2020.

[2] SILVEIRA, D.; CAVALLINI, M. Inflação oficial acelera e fica em 1,26% em junho, puxada pela greve dos caminhoneiros. Disponível em: < https://g1.globo.com/economia/educacao-financeira/noticia/inflacao-oficial-fica-em-126-em-junho.ghtml > Acessado em: 23/03/2020.

[3] DUMAS, R. Coronavírus ameaça cadeia global de suprimentos. Disponível em: < https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/02/coronavirus-ameaca-cadeia-global-de-suprimentos.shtml?utm_source=whatsapp&utm_medium=social&utm_campaign=compwa > Acessado em: 23/03/2020.

[4] ROCHA, C. Coronavírus: quais os riscos de desabastecimento no país? Disponível em: < https://www.nexojornal.com.br/expresso/2020/03/20/Coronav%C3%ADrus-quais-os-riscos-de-desabastecimento-no-pa%C3%ADs > Acessado em: 23/03/2020.

[5] O Tempo. Coronavírus: ‘não há risco de desabastecimento’, afirma ministra da Agricultura. Disponível em: < https://www.otempo.com.br/coronavirus/coronavirus-nao-ha-risco-de-desabastecimento-afirma-ministra-da-agricultura-1.2314558 > Acessado em: 23/03/2020.

[6] TERRA. Os impactos do Coronavírus na cadeia de fornecimento. Disponível em: < https://www.terra.com.br/noticias/dino/os-impactos-do-coronavirus-na-cadeia-de-fornecimento,c14ac0e5d3211bf5583d544024e7b9c5iwiwp0ij.html > Acessado em: 23/03/2020.

[7] O´LEARY, L. The Modern Supply Chain Is Snapping. Disponível em: < https://www.theatlantic.com/ideas/archive/2020/03/supply-chains-and-coronavirus/608329/ > Acessado em: 23/03/2020.

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4 comentários

  1. O maior parte dos investimentos, financeiro e de energia, deverão ser direcionados para a descoberta de uma vacina.
    Que as nações juntem seus melhores cientistas sob um mesmo laboratório e invistam forte e globalmente em recursos para P&D, bem como na estratégia logistica para distribuição da vacina pelo mundo.
    Neste momento cada país oculta seu progresso visando ser o “herói” do mundo. Porém, se agirem de forma cooperativa trocando experiencias e eliminando testes já executados, estaremos diante de uma verdadeira cadeia global de valor e a descoberta da cura se dará mais rapidamente.
    Caso contrario estaremos sujeitos a palpites infelizes de governantes aloprados.

  2. Falta de alimentos no Brasil só pode existir por três motivos:
    1) Falta de dinheiro do comprador.
    2) Desordem temporária na distribuição.
    3) Sacanagem para subir o preço.
    O resto é bobagem, o que se produz de alimentos no nosso país, dá para deixar todos obesos.

  3. Boa Tarde Nassif.
    Aqui é Fernando quem escreve, empresário em Poços de Caldas com cerca de 100 funcionários, para emitir mais uma opinião na imensidão de opiniões que recebemos pelas mídias sociais. Penso que cada seguimento desta sociedade brasileira, tão dividida, puxa a corda para seu lado e não conseguimos achar uma solução razoável para o que está acontecendo. O desastre é eminente e todos estão cegos sem um guia para nos conduzir. É inegável que o capitão na presidência é um erro gigantesco do sociedade brasileira e insistir para que ele conduza o rebanho não é possível, no entanto se não pensarmos nos custos deste isolamento e a falta de consciência de que todos vão paga-lo não sei se o custo será maior. No ramo de comercio como meu, para falar de um pequeno segmento, começamos a juntar dinheiro nos últimos 10 dias do mês para pagar a folha de salários, agora esta torneira fechou e a obrigação continua, Como farei com quase 100 famílias que dependem deste salário? Penso que se desenvolvêssemos protocolos de convívio seria uma solução meio termo que poderia dar uma solução mais satisfatória. Todos falam de vida e clamam por uma solução única, cegando para qualquer comentário contrário. Muitos empresários perguntam com razão, “quem vai pagar a conta?” Esta pergunta não pode ter resposta ideológica, porque na minha experiência sei que nesta hora, a faca risca, para usar um termo chulo mas que expressa bem. Entender com toda amplitude isso é crucial

  4. Deem soja para esta gente. O Brasil é o maior produtor de soja do planeta e inclusive, para tanto, destrói seguidamente grandes nacos da floresta Amazônica. Dizem que pelo menos 90% da soja produzida segue para outros países que utilizam a maior parcela para alimentar seus gados e porcos, tornando assim a soja, indiretamente um alimento para parcela da humanidade. Acredita-se que cerca de 1/3 da população mundial consuma carnes com certa regularidade. No que isto pese, muitos falam de desgostar do uso da soja, por mera ignorância, pois a soja, até de um modo absurdamente irresponsável, anda meio onipresente tanto na alimentação corriqueira humana quanto, pasmem, na de seus lindos pets. Basta reparar que nas embalagens da maior parte das rações encontradas nas prateleiras, você observa o ‘T’ de transgênico estampado e se já se ateve a procurar o que há ali, do que em testes já identificaram cânceres em ratos vai ver que é a soja, o que naturalmente não é do consumo animal se lhe fosse dadas opções e escolhas. E o ser humano “moderno” que se alimenta de industrializados no Brasil, come diariamente soja, talvez até sem saber. E porque isto? Usura e desrespeito social, meu caro. Com a produção massiva da soja, muita oferta faz baixar o preço e o que acha em sendo um fabricante de massas, bolachas, pães etc, em baixar seus custos misturando aos ingredientes algumas toneladas de farinha de soja? É só olhar em embalagens e vai ver a soja listada junto aos ingredientes. E qual o problema de saúde se a soja é recomendada até por médicos como repositora hormonal e outras histórias? Ocorre que a soja é dos grãos conhecidos, o que tem maiores concentrações de fitato, um ácido que impede a absorção de nutrientes no organismo além de em altas doses ou no uso constante contribuir para a formação gases em excesso por dificultar o processo gastrointestinal (e contribuir para a corriqueira falta de bom funcionamento intestinal dos brasileiros). A soja pode e deve ser consumida, mas com parcimônia, seja como remédio, seja como alimento e uma análise pode ser feita ao verificar-se que os asiáticos, maiores consumidores de soja no mundo, são os que têm níveis mais altos de câncer na tiroide e no aparelho digestivo, incluindo câncer de estômago, pâncreas, fígado e esôfago. Resultado do uso excessivo. Isto no ser humano que possui o intestino longo para lidar com processos mais longos de fermentação e para os cães que por natureza tem o intestino curto? Ora, quanto mais barata a ração, provável que usem mais farinha de soja na composição e vai provocando-se o desgaste mais rápido do intestino do pobrezinho. E tem solução, mais para o humano que para o cão, pois imagina o coitado se alimentando em 2/3 refeições diárias e todo dia soja no meio de sua ração, mas se você quiser comer soja, que é o grão mais rico em proteína, aplica o choque térmico antes de cozinhar. Ferva a água o suficiente para cobrir os grãos e despeja sobre estes, deixe passar uns 15 minutos e despeje a água. Dê uma lavada rápida nos grãos e pode colocar para cozinhar. Isto serve também para o feijão preto, grão de bico ou feijões que formam muita espuma. Aliás o excesso de espuma é reação química ao ácido fítico, pois quanto mais fitato presente mais espuma e em breve, mais puns e queimações. Outro problema que muitos se queixam é do sabor que não é da soja e sim dos temperos. É pouco sensato usar temperos para carnes, cozimentos de grãos e legumes. Temperos mais leves para alimentos leves, Temperos pesados, com suas consequências, para alimentos pesados, que ficam por até um dia e meio parado no seu intestino. Tempero faz diferença e pode ver que muitos saboreiam carnes é por causa do tempero e/ou sal em excesso. Quer ver? Ou quer parar de comer carnes em apenas uma semana através de método garantido? Prepare-as sem tempero e sal, como os verdadeiros carnívoros comem na natureza e garanto-lhes que é o mais eficiente modo para quem quer parar rápido de comer alimentos oriundos do sofrimento animal e ajudar a permitir que tenham mais grãos para mais pessoas. Já dizia Ghandi que há o suficiente no planeta para a necessidade humana, más será sempre insuficiente para a voracidade humana.

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