Talibãsonaro, o gosto amargo na boca dos vitoriosos de 2016

Bolsonaro continua recuando em grande velocidade enquanto espalha cortinas de fumaça para dar a impressão de que pretende avançar

Foto: Carolina Antunes/PR

Por Fabio de Oliveira Ribeiro

Em seu magnífico Ab Urbe Condita Libri, Tito Lívio narra a história da construção e expansão de Roma referindo-se predominantemente aos aspectos militares e políticos dessa façanha. Em certo momento, ele diz que os generais romanos tinham por hábito colocar os soldados entre dois medos. O medo do inimigo deveria, porém, ser sempre menor do que o medo que os próprios generais romanos infundiam nos seus subordinados. Todavia, os soldados também deveriam ser premiados pelo seu esforço e destemor.

Os comandantes militares romanos não desumanizavam apenas seus inimigos chamando-os de bárbaros. Eles desumanizavam seus próprios soldados, reduzindo-os a animais violentos tangidos por dois sentimentos primitivos: temor e ganância. Esses são os dois sentimentos que o presidente brasileiro conhece bem e tem tentado explorar. Assim como premiou os oficiais militares que aderiram ao seu projeto de poder absoluto com aumentos salariais e fatias do Estado que podem ser economicamente explorados mediante corrupção, o Führer bananeiro tenta infundir terror nos seus inimigos.

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A falha na estratégia do Talibãsonaro é evidente. Os militares não tem medo dele. Além disso, ninguém ficou realmente assustado com o desfile de relíquias militares ou com o pedido de Impeachment que ele protocolou no Senado contra um Ministro do STF. Por fim, o que ele oferece ao povo é arroz quebrado e osso para a sopa que será cosida num fogão a lenha, pois o dinheiro do gás foi usado para pagar a “nova” conta de luz.

Bolsonaro continua recuando em grande velocidade enquanto espalha cortinas de fumaça para dar a impressão de que pretende avançar. A irracionalidade da conduta dele é evidente. Num dia ele diz “Eu sou a constituição”, no outro maneja princípios da Constituição Cidadã que revogou ao anunciar ao mundo que a vontade soberana dele é o fundamento único do Estado.

Do ponto de vista estritamente jurídico, o pedido de Impeachment contra o Ministro Alexandre de Morais é risível. O Führrer bananeiro quer punir um magistrado que se recusou a deixar de ser um guardião do sistema constitucional. Um Ministro cujas decisões contra o Talibãsonaro têm sido respaldadas pela maioria da Suprema Corte. Na prática, o requerimento protocolado no Senado só tem valor como prova de mais um crime de responsabilidade presidencial, pois o que ele pretende é impedir o STF de exercer com liberdade a fatia de poder que lhe compete.

O Fake Impeachment é uma encenação dentro de uma encenação dentro de uma encenação. Ele será rapidamente descartado pelo presidente do Senado, que aliás já decidiu frear o Talibãsonaro interrompendo o processo de nomeação do novo Ministro do STF indicado pelo presidente brasileiro. 

Esse é apenas mais um capítulo da Ópera Bufa de Erros em curso: Bolsonaro exige uma submissão total que não pode obter; o STF se recusa a interromper a marcha da insanidade dando andamento nas denúncias de genocídio feitas contra o presidente brasileiro; o Senado certamente não tratará esse novo ataque contra o STF como um crime de responsabilidade e; o Exército esqueceu que foi obrigado a expulsar um capitão nos anos 1980.

“Tocata e Fuga da Realidade”, essa foi a abertura magistral da Ópera Bufa de Erros: liderando um grupo de empresas de comunicação, a Rede Globo derrubou Dilma Rousseff criando o vácuo político que sugou Bolsonaro para a presidência; durante a campanha, o Estadão disse que um fascista ladrão era igual a Fernando Haddad; o TSE não cassou rapidamente a chapa presidencial que se elegeu propagando Fake News; Itaú, Bradesco e Santander resolveram incrementar seus lucros mediante a destruição do país.

O ato final da Ópera Bufa de Erros será “O Triunfo da Tragédia”: Bolsonaro deseja um fim cataclísmico com prisões e torturas em massa, tempestades de mísseis e de tiros de canhão nos seus inimigos, mas terminará sendo internado num Hospício; o Mercado queria lucros fabulosos e afundou o Brasil numa depressão econômica inflacionária; os evangélicos sonhavam com o poder e ficarão impotentes. Não há vencedores numa situação de perda/perda. Todos seremos perdedores.

Perderam os brasileiros que ficaram mais pobres. Perderam os militares que se tornaram mais odiáveis e menos confiáveis. Perderam as empresas de comunicação que lutam para não falir durante uma crise que elas mesmas plantaram ao forçar o país a derrubar uma presidente honesta para colocá-lo nas mãos de um insano semi-analfabeto. Perderam os evangélicos, cujos templos arrecadam menos dinheiro em decorrência do fracasso neoliberal. Perderam os industriais cujas indústrias foram fechadas. Perderam os comerciantes cujos lucros declinaram. Perderam, enfim, os membros do sistema de justiça que serão eternamente vistos como coautores de uma Ópera Bufa de Erros ou como incapazes de agir para impedir o colapso da sanidade mental de uma nação.

Só não perderam os humoristas. Eles terão material de sobra para crias piadas, escrever peças, produzir esquetes engraçados para nos fazer rir. Porque rir é sempre melhor do que chorar. E algumas vezes, as lágrimas são provas inúteis de emoções que podem ser fingidas (como aquelas da atriz que se dizia aterrorizada com o comunismo do PT e que perdeu 500 mil reais tentando ganhar mais dinheiro de maneira rápida sem qualquer risco).

No Brasil, o neoliberalismo pós-Lula/Dilma é uma grande pirâmide que somente causou prejuízo. Não por acaso seu principal beneficiário (o Ministro Paulo Guedes certamente ficou mais rico nos últimos anos) tem dito que o fracasso dele é culpa de Lula. Suponho que após o gran finale da nossa Ópera Bufa de Erros os principais atores políticos/militares/financeiros/corporativos implorarão por uma nova Anistia, ampla geral e não restrita ao centro duro do Talibãsonaro. Como se nós pudéssemos esquecer 600 mil mortos ou perdoar os prejuízos democráticos que tivemos que experimentar desde 2016. Se estivesse vivo Tito Lívio ficaria aliviado ao ser contratado para escrever a História do Fracasso da última flor do Lácio.

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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