Luís Gonzaga Vieira também espera (sic) na porta do Paraíso, por Sebastião Nunes

De careca reluzente e sandálias apostólicas, nosso amigo Vieira era inconfundível. Também, para não ser confundido com um pequeno-burguês qualquer, fazia a barba apenas uma vez por semana.

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Luís Gonzaga Vieira também espera (sic) na porta do Paraíso

por Sebastião Nunes

Na eternidade, o tempo não existe.

Se duvidar, pergunta ao Stephen Hawking, inventor dos buracos negros e pai, com George Penrose, do “teorema sobre a singularidade gravitacional no âmbito da relatividade geral”. Ali, Hawking especulou sobre os universos paralelos, mas nunca decidiu se cada um de nós é um universo paralelo, o que faria com que a totalidade de universos saltasse de uma unidade para quase oito bilhões, desdobráveis de tal forma que viveríamos no caos absoluto, dada a existência, nesse caso, de um porrilhão de universos, dançando no espaço o samba do crioulo doido. O problema com o gênio é que sua resposta seria na forma de uma equação complicadíssima, ininteligível para simples mortais. Melhor deixar para lá e voltar a nosso assunto.

Pois bem. De careca reluzente e sandálias apostólicas, nosso amigo Vieira era inconfundível. Também, para não ser confundido com um pequeno-burguês qualquer, fazia a barba apenas uma vez por semana. Dessa forma se apresentou diante da porta do Paraíso, onde um turbilhão de gente esperava (sic).

Mas esperava o quê? Se o tempo não existe, a categoria esperar, que remete a uma dimensão temporal, não tem cabimento. Na eternidade as pessoas não esperam, apenas estão ali, bestando, digamos.

De forma que Vieira bestava diante da porta do Paraíso, quando Sérgio Sant’Anna o viu e o chamou, com as seguintes palavras, como já vimos algures, em algum click fora do tempo.

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– Vieira, você por aqui! – exclamou Sérgio, num rompante de entusiasmo. – Quando foi que chegou?

PARÊNTESES QUE REFRESCAM

[Parêntese 1: O advérbio “quando” e a forma verbal “chegou” indicam categorias temporais. Mas é melhor deixar para lá, mais uma vez, pois estamos lidando com humanos recém-encaminhados, incapazes de entender tais nuances.]

– Não sei cara – respondeu Vieira. – De repente apareci diante deste portão e no meio desta multidão, com uma etiqueta presa no pulso por uma fitinha azul.

– Ah, é seu número na fila. Aqui não tem tempo, mas tem fila. E não havendo tempo, a fila não anda, como Kafka já demonstrou numa parábola. Mas na parábola kafkiana havia só uma pessoa e um único guarda, enquanto aqui tem turbilhões de gentes e nadica de guardas.

[Parêntese 2: Se não tem guarda, nem polícia, nem milícia, não é o Rio de Janeiro, estado federal no qual desmandam milicianos e policiais, disputando entre si os farrapos dos pobres e os despojos dos mais-ou-menos remendados, par a par com os pentecostais de costas largas e mãos ligeiríssimas.]

– Conheço a fábula – disse Vieira, sem se espantar. O cara chegou e ficou ali esperneando. Até que um dia, mil séculos depois, quando o esperançoso era apenas um montinho de ossos que esperava, o guarda se irritou e disse: ‘cai fora, pilha de ossos, que tenho de fechar a porta’. Então, quem se irritou foi o desesperante, que gritou para o guarda: ‘Qual é, seu guarda? Fui convocado para esta porta e daqui não saio, daqui ninguém me tira, enquanto ela não se abrir.’

[Parêntese 3: Nisso, surgiram no horizonte N naus atufalhadas de nobres portucalenses que, 300 anos depois de Cabral, vinham terminar a obra.]

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FIM DOS PARÊNTESES QUE REFRESCAM

Dizem, nas entrelinhas, que os nobres portugueses da comitiva de Dão João, que eram mais de 3.000, cada qual com extenso penduricalho familiar, deixando alguns na Bahia, tomaram de assalto o Rio de Janeiro, no que os cariocas nativos, muito corteses diante de tanta nobreza, abriram-lhes quintas, portas, panelas, cofres e pernas, com o que tais nobres ficaram muito agradecidos.

Do que resultou, cerca de dois séculos depois, que a população do Rio ficou assim dividida: na Zona Sul, os descendentes dos nobres e suas propriedades, junto com burgueses cheios de poderes e grana baixados de outros países e províncias; nos morros da Zona Sul e em outros morros, pretos pobres (descendentes ou não de escravos), brancos miseráveis, pardos pés de chinelo, enfim, a escumalha, ralé, choldra etc.; nas periferias, os classes D, E, F, G, H… Enfim, o resto, buchas de canhão. E não ousem me perguntar o que resultou da mistureba: vejam o noticiário de hoje, está tudo lá.

VOLTANDO AOS KAFKIANOS PARADOXOS

Estavam assuntando Sérgio e Vieira o papo do desesperançoso com o guarda, na mais viva curiosidade, quando este último, fechando a porta com uma chave enorme e um cadeado idem, revelou ao desesperado:

– Esta porta, que acabo de fechar, da qual fui vigilante centenas de anos, foi criada para você e só estava aberta até que você entrasse. Como você não entrou, ela agora se fecha para sempre e eu, sem qualquer outra serventia, também me vou.

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– Não foi nada disso!!! – berraram em uníssono os assistentes. – A fábula não é assim, o texto não é tão pobre!!!

Diante de tamanha incompreensão de meus amigos, emiti breve sinal de desgosto e fechei a janela, voltando a acompanhar, pela televisão, os debates travados na sessão conjunta do congresso nacional, na qual senadores e deputados decidiam a venda, por dez tostões de mel coado, de nossas derradeiras esperanças e ilusões.

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