O que conta o diário fictício que Eduardo Cunha tenta censurar na Justiça

Foto: PMDB Nacional/Flickr
 
 
Jornal GGN – “Diário da cadeia”, a ficção que deveria ser lançada no final de março, mas que foi suspendida em caráter liminar a pedido de Eduardo Cunha, é uma “coleção de sugestionamentos” sobre o que o deputado cassado “saberia e teria a revelar, mas não revela”. Para Rodrigo Zuqui, a sátira foi forçada e acabou criando um personagem “pouco crível”.
 
Por Rodrigo Zuquim
 
No Poder 360
 
 
Há uma anedota que conta a seguinte história. É o ano de 1938. Os físicos Heisenberg e Bohr caminham pelas campanhas dinamarquesas quando passam pelo famoso castelo de Elsinore. O alemão comenta: “Mas não há nada de extraordinário no castelo”. Ao que o dinamarquês responde: “Sim, mas… se você disser que é o castelo de Hamlet, então se torna extraordinário”.
 
“Diário da cadeia” é uma obra de ficção. A “sátira política de uma das figuras mais polêmicas da história recente do país”, como descreve a apresentação da editora. O nome do autor é secreto, guardado por uma cláusula contratual de confidencialidade. O pseudônimo que assina a obra leva o nome de seu protagonista: Eduardo Cunha.
 
O livro seria lançado no dia 27 de março. Sua publicação foi proibida por uma liminar (decisão provisória) da juíza Ledir Dias de Araújo, da 13ª Vara Cível do Rio de Janeiro. A ação contra a editora Record foi movida por Cunha.
 
Em setembro de 2016, o ex-presidente da Câmara dos Deputados, cassado por seus pares e hoje preso no Complexo Médico-Penal de Pinhais, na região metropolitana de Curitiba (PR), anunciou que escreveria um livro sobre os bastidores do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.
 
Esse é o gancho de“Diário da cadeia”, a partir do qual se estrutura a narrativa, dividida em 2 eixos. Lê-se as páginas de um diário, escrito pelo detento, intercaladas pelo que seriam capítulos do livro sobre o impeachment.
 
Nas páginas do diário, um “Cunha” paranoico, certo de que há câmeras escondidas na cela e de que seu lixo é vasculhado, faz planos para, por meio da suposta vigilância, plantar notas na imprensa. Em investidas contra a Lava Jato, defende que os políticos recebam o que chama de “horas extras”, já que trabalhariam demais pelo bem do país. Entre ameaças ao presidente Michel Temer, análises sobre o jogo político e especulações sobre o impeachment, anotações sobre um convite feito ao procurador da República Deltan Dallagnol e à advogada Janaína Paschoal, coautora da denúncia do impeachment: “Cunha” gostaria de fundar, com eles, uma igreja no prédio da carceragem da PF.
 
Menções a nomes vão de Aécio Neves a Lula, geralmente acompanhadas de insinuações obscuras. Nas tramas de uma conspiração em curso, as Organizações Globo fariam parte um grande conluio com Michel Temer.
 
Já no que seriam capítulos do livro sobre o impeachment, um enredo policialesco que remonta ao início da década de 1990. O personagem Eduardo Cunha revelaria segredos sobre o misterioso assassinato de Paulo César Farias, tesoureiro do ex-presidente Fernando Collor. Uma morte ainda hoje sem solução. Lucy Ferrier, uma personagem de Arthur Conan Doyle, retirada de uma história de Sherlock Holmes, aparece como amante de PC Farias e, aparentemente, integrante de uma organização secreta chamada African Libraries, responsável pela morte do tesoureiro. O que isso tem a ver com o impeachment? Haveria um elo, mas o livro não esclarece. Fica apenas a sugestão.
 
Aliás, numa síntese, “Diário da cadeia” é uma coleção de sugestionamentos. Sobre o que “Eduardo Cunha” saberia e teria a revelar, mas não revela. A sátira não funciona muito bem. O personagem é pouco crível. Exímio conhecedor do regimento interno da Câmara dos Deputados na vida real, não sabe sequer diferenciar, na ficção, o regulamento da Casa e o Código de Processo Penal. A exploração da faceta religiosa do peemedebista descamba para a caricatura fácil.
 
Mais do que em seu conteúdo, o apelo de “Diário da cadeia” está em sua aura evocativa, naquilo que desperta no imaginário do leitor. O que há de extraordinário no livro, afinal, é a questão do autor secreto, com o uso do pseudônimo Eduardo Cunha, e o jogo criado a partir disso, entre o que é verdadeiro e o que é falso.
 
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