Boletim do Jornal Nacional de 28 de maio, por Eliara Santana

O bloco geral “Desconstrução” foi um primor. Vinte e seis minutos, em matérias distintas, mas sequenciadas, para dimensionar não apenas quem é o presidente mas quem é o grupo no poder.

Boletim do Jornal Nacional de 28 de maio

por Eliara Santana

A edição manteve um tom geral bastante sóbrio, sem espetacularizar as denúncias e investigações, mas bateu pesadamente não só em Jair, mas no núcleo de apoio. E isso já se coloca na escalada, que enumera os desmandos e as afirmativas de não cumprimento das determinações judiciais.

A Covid com os números alarmantes continua a abrir as edições do JN, e o foco já se direciona para o alastramento no interior do país – que não tem estrutura de atendimento.

Algumas observações gerais e depois mostro a grade.

1. A investigação em relação à operação da PF no governo do Rio continua tendo um bom destaque na edição, com foco na determinação da justiça de não pagamento à associação Iabas e muito destaque para a situação do Hospital de Campanha de São Gonçalo, que seria inaugurado agora – dos sete previstos – mas cuja inauguração foi adiada pela quarta vez. A matéria deu detalhes sobre valores pagos e reforçou muito que pacientes estão morrendo aguardando atendimento. Enfim, dimensionou bem o caos no Rio.

2. A pesquisa Pnad – que trouxe dados alarmantes e muito preocupantes sobre desemprego – teve míseros 29 segundos, naquele enquadramento de mostrar os números. Bonner abre falando que “Com o impacto da pandemia do novo coronavírus, o desemprego no Brasil chegou a 12,8 milhões”. Não se faz nenhuma ligação com a história recente – de um economia que já vinha num ritmo péssimo. O problema é todo colocado na conta do vírus. Nenhuma fonte aparece para comentar.

3. O bloco geral “Desconstrução” foi um primor. Vinte e seis minutos, em matérias distintas, mas sequenciadas, para dimensionar não apenas quem é o presidente mas quem é o grupo no poder.

Começa no 3º bloco, com um Bonner entre indignado (embora contido) falando aberta e enfaticamente em blindagem: “A tentativa de blindar o ministro da Educação, Abraham Weintraub no STF provocou críticas. O ministro da Justiça, André Mendonça entrou com pedido de habeas corpus para impedir depoimento de Weintraub no inquérito das fake news”. E então a matéria, que afirma que a operação da PF incomodou o governo, mostra o caso e a repercussão, com advogados explicando por que a medida é absurda e não aceitável.

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Desconstrução foi tão forte que até o ex-ministro de Dilma Rousseff, José Eduardo Cardoso, apareceu com bastante tempo pra explicar que não é usual um ministro da Justiça pedir HC para outro colega, também ministro. Matéria teve quase 7 minutos.

Na sequência, a reação indignada de várias entidades judaicas com a declaração de Weintraub, numa rede social, que comparou a ação da PF com a Noite dos Cristais Ele disse que a ação de quarta da PF “foi o dia da infâmia, vergonha nacional, e será lembrado como a Noite dos Cristais brasileira”, uma referência a um dos episódios mais brutais da perseguição aos judeus, diz a matéria, que mostrou em destaque as notas indignadas.
Ou seja, essa matéria, logo na sequência da anterior, que fala do absurdo da blindagem a ele, reforça que o ministro é um inconsequente que não merece socorro.

Depois, a reação de Bolsonaro à ação da PF, defendendo “descumprir ordens”. Segundo Bonner (com uma indignação sóbria):

“O presidente Jair Bolsonaro e o filho dele, Eduardo Bolsonaro, reagiram à operação contra fake news em tom de ameaça. O presidente chegou a dizer que iria ‘impor limites’”.
E entra então a matéria, abrindo com a fala de Dudu num programa com um dos investigados, Allan Santos. Segundo a matéria, “o deputado afirmou que uma ruptura é questão de tempo”, e entra a fala de Eduardo: “Eu até entendo quem tem uma postura mais moderada, pra não tentar chegar ao momento de ruptura, ao momento de cisão ainda maior, de conflito ainda maior. Eu entendo essas pessoas. Mas, falando bem abertamente, não é mais uma opinião de SE, mas de QUANDO isso vai ocorrer. Quando chegar o ponto em que o presidente não tiver mais saída e for necessário (sic) uma medida enérgica, ele é que será tachado como ditador”. Várias repercussões vieram em seguida, de líderes de partidos e entidades, até chegar a fala de Bolsonaro no Alvorada. A matéria (Délis Ortiz) diz que ele ‘reagiu’ e que ‘vai impor limites às operações, sem explicar de que forma, uma vez que todos os cidadãos estão submetidos a decisões judiciais’:

Visivelmente transtornado (como na noite da live em resposta ao JN), o presidente diz:
“Ordens absurdas não se cumprem, e nós temos de botar um limite. Ninguém mais do que eu, cada vez mais, tem demonstrado que tem o compromisso com a democracia e com a liberdade. Agora, as coisas têm um limite. Ontem foi o último dia. Acabou, poha! Me desculpem o desabafo. Acabou! Não dá pra admitir mais atitudes de certas pessoas individuais. Tomando de forma quase que pessoal certas ações”. Foram vários momentos da fala de Bolsonaro entrecortadas pelas falas explicativas de Délis, antecipando ou resumindo o teor: “E voltou a ameaçar mais uma vez, sem explicar como, que não haverá outra operação”. Entra Bolsonaro: “Repito: não teremos outro dia igual ontem. Chega! Chegamos no limite (sic). Estou com as armas da democracia na mão. Eu honro os meus compromissos, o juramento que fiz quando assumi a presidência da República”.

E a matéria prossegue mostrando a repercussão e as falas indignadas de diversos setores e entidades, com bom espaço para a fala indignada do presidente da Associação Brasileira de Imprensa e fechando com a fala do presidente da Câmara (entendedores entenderão…). Foram 10 minutos de pura exposição do viés autoritário de Jair e dos filhos – que não admitem qualquer interferência da Lei – simbolicamente, um negócio de família.

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Logo depois, matéria de 6 minutos mostra que a operação deflagrada pela PF é apenas mais uma das investigações realizadas em 14 meses no inquérito do STF, sendo que o Supremo Tribunal Federal já enviou à primeira instância 72 inquéritos policiais que investigam, entre outros crimes, a ameaça de incendiar o plenário do STF e o assassinato de ministros com tiros à queima-roupa.

Matéria aparentemente informativa, ela constrói uma ligação simbólica dos processos com o tempo do governo ao enumerar tudo de grave que foi e está sendo investigado em 14 meses, ou seja, praticamente durante o tempo do governo Bolsonaro. Ou seja, em pouco tempo de governo, uma chuva de denúncias graves, mostradas em detalhes… E o teor da matéria é reforçado pelas falas pouco democráticas de Bolsonaro e do filho na matéria imediatamente anterior.

4. O encerramento se dá com a pesquisa Datafolha, depois de mostrar matéria sobre as ameaças ao Supremo e todas as mazelas do governo. A pesquisa mostra que Jair tem o pior índice de aprovação desde que assumiu o governo.
Agora, a grade:

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2 comentários

  1. Sem desculpas, a globo é a velha (de profissão) prostituta plantonista dos quartéis, deve ser interpretada somente no exercício da sua pro-fissão(stituição).

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