Caderno Opinião do Estadão: um espaço aberto para penas de aluguel, por Frederico Firmo

De forma conveniente o jornal vende suas pretensões de se isentar de qualquer culpa, mas sem se comprometer pois fala a partir da opinião de outros.

Caderno Opinião do Estadão: um espaço aberto para penas de aluguel

por Frederico Firmo

Com um misto de  desespero e impotência, está cada vez mais difícil acompanhar, o crescimento desta nuvem tenebrosa que trará uma chuva de sofrimento, morte e destruição. Há anos estamos presenciando a destruição e o suicídio de instituições. O judiciário inerte e conivente participou ativamente de tudo que agora explode não apenas nas gravações mas num país em ruínas. A destruição total da economia do país comandada por uma das bestas do apocalipse, Guedes,   vai concretizando o sonho de FHC e Serra e continuam dando lucros  desavergonhadamente para alguns,  com negociatas que fazem empalidecer a privataria tucana, enquanto a COVID e a falta de amparo mata.  Todos estes que fizeram parte ativa da destruição  agora se dizem arrependidos, mas nem tanto. Figuras como FHC se posiciona contra o impeachment daquele que ele apoiou. O apoio dado  representa bem uma elite que sempre fez questão de dizer que Bolsonaro não lhe pertence, mas é apropriado para fazer o serviço sujo.  Fizeram o mesmo com Cunha e no momento  estão em dúvida com relação a  Moro e seus outros cavaleiros do apocalipse. Com certeza serão  usados e jogados fora, substituídos por “pessoas de bem”. No momento se esmeram para transformar um apresentador de televisão  em presidente, da que já foi a oitava economia do mundo. Esta elite que se diz meritocrática e contra o populismo  considera que  sucesso televisivo é mérito suficiente.

Tentando desmontar do cavalo em que está, o jornal Estadão escolhe convidados especiais para o seu Caderno de Opiniões, ou Espaço Aberto de 6 e março de 2021.   De forma conveniente o jornal vende suas pretensões  de se isentar de qualquer culpa, mas sem se comprometer pois fala a partir da opinião de outros. Segundo o jornal são opiniões cujos responsáveis são apenas os autores.

Esta  imprensa continua, de forma  cinica,  criando  narrativas e mesmo diante da realidade  quer igualar Bolsonaro a Lula. Não escondem que temem mais Lula do que a destruição do país. Provavelmente porque já construiram suas rotas de fuga. Agora tentam se desvencilhar de qualquer culpa. O caderno de opiniões do Estadão  trouxe nada menos do que Reale Jr, Lamounier e Gabeira que poderia ser substituido pela Janaína. 

Reale Jr,  autor do pedido de impeachment e um dos ativos participantes do golpe, agora chama o país à responsabilidade.  Irresponsável, não assume a consequência de seus atos. Apesar de ter  ficado sempre ao lado dos que defendem a austeridade fiscal, traz em seu artigo críticas à falta de gastos na saúde e no auxĺio emergencial. E depois,  passa a incitar o judiciário e MP a cumprir o seu papel. Como se não fosse um dos principais defensores dos abusos e do direcionamento político do Ministério Público. Jurista jamais se colocou contrário a violações da constituição. Mas emprestou sua caneta  várias vêzes para justificar o injustificável. Agora que os vazamentos fizeram as máscaras caírem, Reale e outros afirmam que nada sabiam. Estranha desculpa, afinal condenaram Lula afirmando que ele tudo sabia. Cheio de conselhos legais, continua buscando nos artigos da lei argumentos em defesa de seus objetivos.

Logo depois vem Lamounier e suas lamúrias. Quem não lembra da dupla Lamounier e Willian Waack. Figura carimbada do programa, se especializou em platitudes e ataques arrogantes ao governo Dilma e ao PT, sempre falando a partir da altura de seus títulos acadêmicos. Dava a si mesmo permissão para falar qualquer bobagem impensada. Não ligava para contradições, incoerências ou total falta de análise, mas adorava o holofote. Muitas vêzes me pareceu prescrutar as palavras de Waack para emitir uma opinião que lhe garantiria mais um convite. Agora Lamounier vem chamar a atenção de todos e principalmente da oposição de que não devem chamar Bolsonaro de genocida. Com uma esperteza rala, tenta dizer que Bolsonaro sequer tem estofo para ser chamado de genocida. Sua comparação com o holocausto se for levada a sério levaria a absolvição de Eichman  e outros comandantes de campos de extermínio, afinal mataram apenas milhares. Por uma variante da teoria do Domínio do Fato, ( e aqui ela seria aplicável) apenas Hitler e mais alguns seriam considerados genocidas. Obviamente ele tem que citar Stalin. Mas em resumo Lamounier é neste caso mais coerente do que Reale, afinal está fazendo  uma defesa de Bolsonaro.

E finalmente Gabeira, escondendo o papel desinformador da imprensa que o abriga, vai tergiversar, invertendo  a frase: Deus fez o homem à sua imagem, Gabeira vai dizer que o  povo fez Bolsonaro à sua imagem. Como se Bolsonaro não fosse uma criação desta elite bem representada pela mídia. O tom blasé e contido das criticas à saída de Mandetta, escondem todo o trabalho feito para aceitação de Teich que defenestrado teve seu substituto saudado como um especialista em logística. Sempre cuidadosos com a posse de mais um soldado de Bolsonaro, a mídia que abriga Gabeira, agora parece finalmente se sentir a vontade  ou talvez se sentir obrigada  a subir o tom das críticas, inclusive para  esconder todo o trabalho feito que tornou possível a posse deste que está aí.  A crítica aos políticos atuais é uma pérola na boca de quem tanto defendeu a nova política, e que há bem pouco tempo falava em um legislativo renovado, e  que continuou elogiando Maia,o engavetador do pedido de impeachment, sempre preocupada com o ritmo das reformas e com os humores do mercado.

Gabeira culpa o negacionismo, mas jamais se alinhou à luta das Universidades e Centros de Pesquisa, que há mais de ano vem sendo destruidas e derretem com a falta de investimentos. Impossível  esquecer as perguntas capciosas que fez a Luiz Davidovich presidente da Academia Brasileira de Ciências. Agora questiona o negacionismo chulo do Presidente e seguidores. Em sua boca, o negacionismo  é a explicação para tudo. Até ontem apoiaram, sempre de forma sutil , Dória que tungou, em nome da austeridade fiscal, verbas constitucionais da FAPESP e das Universidades. Isto tudo sob silêncio dos que agora se alinham com a ciência contra o negacionismo.  Estes  são os mesmos que de forma subliminar distribuem, em seus noticiários,  os problemas da economia e do mercado, enchendo de dificuldades  a possibilidade de investimentos na ciência, de  pagamento emergencial, e de políticas sociais consistentes para o enfrentamento da pandemia.  De forma ostensiva desinformam a população sobre os reais gastos do governo, ou sobre as negociatas e roubos que vem acontecendo no processo clandestino de privatizações. Festejam figuras suspeitas como Castelo Branco, Parente e outros e continuam escondendo o que Moro e companhia fizeram no verão passado.

Esta imprensa que paga as penas destes articulistas e os chama para escrever no caderno de opiniões,   nas páginas principais apresenta  um mosaico de notícias que confundem qualquer leitor. O grau de prioridades desta imprensa é jamais focar o problema central. Isto é, evitam analisar e criticar de forma mais profunda  uma política explicita de total desrespeito a vida, genocida. Preferem colocar em relevo o diversionismo das ações da família presidencial. E no momento a defesa do mercado e dos acionistas  começa mudar de rumo com economistas tucanos defendendo o auxilio emergencial para aumentar o consumo, nenhuma palavra sobre sofrimento e fome. Depois de tantas críticas aos programas sociais dos governos petistas agora apostam neles para movimentar a economia.

E assim a Nave Loca da imprensa va, sempre buscando um porto seguro num mar turbulento que ela ajuda a criar.

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