A cloroquina pode tratar o coronavírus? 5 questões sobre o uso promissor e problemático

A cloroquina e a hidroxicloroquina não foram adequadamente avaliadas em estudos controlados, sem mencionar que apresentam efeitos colaterais mortais

Jornal GGN – Katherine Seley-Radtke, médica e professora de química da Faculdade de Maryland, nos Estados Unidos, está preocupada com as declarações do presidente Donald Trump a respeito do uso “promissor”, porém “problemático” e ainda “não comprovado” da cloroquina no combate ao coronavírus.

A cloroquina é um remédio antimalárico que tem sido “vendido” por algumas autoridades ansiosas e inconsequentes, como Jair Bolsonaro, como solução para a pandemia de COVID-19.

No site The Conversation, a especialista decidiu fazer um artigo com 5 perguntas e respostas sobre a cloroquina. O GGN reproduz a opinião da especialista abaixo:

***

1- O que são cloroquina e hidroxicloroquina?

Estes são os dois medicamentos antimaláricos aprovados pela FDA que estão em uso há muitos anos. A cloroquina foi originalmente desenvolvida em 1934 na empresa farmacêutica Bayer e usada na Segunda Guerra Mundial para prevenir a malária.

Embora o FDA não tenha aprovado seu uso para essas condições, a cloroquina e a hidroxicloroquina também são usadas no tratamento da artrite reumatóide e lúpus.

2 – O que provocou a conversa de que este medicamento pode funcionar contra o coronavírus?

Após o surto inicial de MERS em 2012, os cientistas realizaram exames aleatórios de milhares de medicamentos aprovados para identificar um que pudesse bloquear a infecção por MERS. Vários medicamentos, incluindo a cloroquina, mostraram a capacidade de bloquear os coronavírus de infectar células in vitro. Mas esses medicamentos não foram amplamente utilizados porque, em última análise, não mostraram atividade suficiente para serem considerados mais adiante.

Quando o novo coronavírus apareceu, muitos medicamentos que haviam demonstrado alguma promessa inicial contra os coronavírus relacionados MERS e SARS estavam no topo da lista como mais digno de avaliação adicional quanto a possíveis tratamentos.

Leia também:  Coronavírus: Documentos da Abin contrariam Bolsonaro

Portanto, a ciência é real e vários laboratórios em todo o mundo estão agora investigando esses medicamentos e testando-os em ensaios clínicos nos EUA, França e China. Até agora, porém, não há consenso sobre se os medicamentos são seguros e eficazes para o tratamento do COVID-19, pois ainda é muito cedo no processo de teste.

3 – Por que os medicamentos antimaláricos funcionariam em um vírus?

Ainda não está claro como as cloroquinas (ou qualquer medicamento antimalárico) funcionariam contra o COVID-19, que é um vírus. A malária é causada por parasitas do Plasmodium, que são transmitidos por mosquitos, enquanto o COVID-19 é causado pelo vírus SARS-CoV-2.

As infecções virais e parasitárias são muito diferentes e, portanto, os cientistas não esperariam o que funciona para um trabalhar para o outro. Foi sugerido que as cloroquinas podem alterar a acidez na superfície da célula, impedindo o vírus de infectá-la.

Também é possível que as cloroquinas ajudem a ativar a resposta imune. Um estudo recém-publicado testou a hidroxicloroquina em combinação com um medicamento antibacteriano (azitromicina), que funcionou melhor para impedir a disseminação da infecção do que a hidroxicloroquina sozinha. No entanto, é apenas um estudo preliminar que foi realizado em um grupo de teste limitado.

4 – Outros medicamentos são promissores?

Que eu saiba, nenhum outro medicamento antimalárico demonstrou atividade significativa contra o tratamento de coronavírus. No entanto, outro medicamento em potencial chegou à vanguarda. O remdesivir, desenvolvido pela Gilead Pharmaceuticals, parece ser altamente eficaz na prevenção de vírus – incluindo coronavírus como SARS e MERS e filovírus como o Ebola – de se replicarem.

Leia também:  Coronavírus: Brasil é o 4º país com mais mortes, ultrapassando a França

No final de fevereiro, o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas lançou um ensaio clínico para o Remdesivir. E neste mês a Gilead lançou dois ensaios de fase III do medicamento em centros médicos na Ásia.

5- Devo começar a tomá-los para afastar o coronavírus?

Absolutamente não. A cloroquina e a hidroxicloroquina não foram adequadamente avaliadas em estudos controlados, sem mencionar que apresentam numerosos e, em alguns casos, efeitos colaterais muito mortais.

Ninguém deve tomar um medicamento que não tenha sido comprovadamente seguro e eficaz para uma doença ou condição para a qual não foi aprovado. Existem muitos problemas que podem surgir, desde efeitos colaterais a toxicidade grave e morte devido a possíveis interações com outros medicamentos e outras condições de saúde subjacentes.

Portanto, até que estes ou quaisquer medicamentos se mostrem eficazes contra o SARS-CoV-2 em ensaios clínicos e tenham sido aprovados pelo FDA, ninguém deve se automedicar.

 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

4 comentários

  1. Até a torcida do Mengão já sabe:
    “A partir de 2017, o desafio da Gilead é desenvolver ou adquirir novos medicamentos blockbuster antes que seus atuais produtores de receita diminuam ou sua proteção de patentes expire.”

    Nossa , que coincidência, a pandemia pode ser uma mão na roda para alguns!

    A gabapentina é um exemplo clássico do uso off label. Ou o famoso se der certo tudo bem! A indústria farmacêutica tem a força!

  2. Antes de cravar que o infectologista francês é um embusteiro, esperemos os resultados da hidroxicloroquina+azitromicina…
    É uma estupidez fazer disso um cabo de guerra ideológico.

    Hydroxychloroquine and azithromycin as a treatment of COVID-19: results of an open-label non-randomized clinical trial
    https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0924857920300996

    Russos também estão utilizando a combinação antimalárico+antibiótico macrolídeo

    Agência Biomédica Federal da Rússia apresenta medicamento para tratar COVID-19
    https://br.sputniknews.com/russia/2020032815387993-agencia-biomedica-federal-da-russia-apresenta-medicamento-para-tratar-covid-19/

  3. Lá pelos anos cinquenta haviam comprimidos para maleita, como era chamada a malária, chamados “maleitoso” e que continha como princípio ativo o quinino que chegou a substituir a cloroquina Tomava-se também muita água tônica que como a schweppes é feita com quinino. Taí uma sugestão, para quem gosta de tomar umas, de afogar o tédio do confinamento: Gin schweppes ou gin tônica – álcool + quinino.

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome