O cão, o lobo, e uma ode à Liberdade, por Gustavo Gollo

Andava o cão a passear pelos campos, quando encontrou um lobo muito afável. Passaram a tarde a se divertir pelos arredores, pulando, correndo e brincando alegremente, até quase o pôr do sol, quando o cão comunicou ser hora de ir. Tendo passado momentos tão memoráveis em companhia do novo amigo, o cão decidiu convidá-lo a ir consigo para a casa de seu dono. Notando a magreza do lobo, o cão floreou o convite dizendo que seu dono lhes daria comida à vontade, comentário agradabilíssimo aos ouvidos do outro que o estimulou a segui-lo sob forte excitação ante dádiva tão ditosa. Estavam a meio do caminho quando o lobo se permitiu perguntar ao amigo o que era aquela marca em seu pescoço, coisa que o cão esclareceu, sem pudor: tratava-se da marca da coleira.

A palavra nada dizia ao lobo, que prosseguiu a conversa pedindo mais esclarecimentos. Não se furtou o cão a informar que, durante a noite, o dono lhe prendia com uma coleira, para que ele permanecesse vigiando a casa.

O lobo, então ligou os fatos, percebendo que a tal dádiva não viria de graça, e que a comida só lhe seria servida em troca da liberdade.

Despediu-se, o lobo, e retornou aos campos.

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A palavra “sabedoria” anda em desuso, na mesma medida, creio, que seu referente esteja também esquecido. Embora aparentada com a inteligência e com a cultura, a sabedoria não se confunde nem com uma nem com outra, consistindo em um dom complementar a esses, um mais sutil que ambos.

Não existe uma compulsão lógica para que o lobo opte pela liberdade, seria mais fácil se entregar a um dono, se render e tornar-se escravo, em troca do alimento fácil.

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A epidemia do coronavírus nos impõe um paradoxo similar. O problema tem sido equacionado assim: paramos tudo e salvamos os idosos às custas da economia, ou continuamos a viver normalmente, ás custas das vidas dos velhinhos. O equacionamento está mal feito.

Poucos dias atrás, os meios de comunicação deram amplo relevo ao diretor geral da Organização Mundial de Saúde que alardeava a necessidade do confinamento baseado em estimativas alarmistas da letalidade do vírus, obviamente equivocadas. O surgimento do argumento do achatamento da curva de contágio, permitiu que os defensores do confinamento percebessem o óbvio, que as estimativas apresentadas por ele eram tendenciosas. Desde então, defensores do isolamento têm-se justificado através do achatamento da curva. Tendemos mais à racionalidade quando isso nos convém.

Tenho defendido, desde o início, o confinamento parcial: pessoas vulneráveis e as que com elas convivem devem ter garantida a oportunidade do isolamento, na forma de uma renda que possibilite-os permanecer confinados. Os recursos para essa renda viriam do desvio de parte ínfima do trilhão de reais destinados ao pagamento de juros da divida pública esse ano.

Defendo essa proposta, em parte, por antecipar a catástrofe social e econômica que advirá de uma paralisação geral.

Outra questão, no entanto, é talvez ainda mais significativa: o achatamento da curva proposto pelos meios de comunicação levará ao prolongamento
da tensão, da doença e da crise, será como cozinhar-nos em fogo brando. Tendo a achar que a aceleração do processo inexorável em curso, decorrente de contatos normais entre as pessoas do grupo não vulnerável, queimaria rapidamente a grande ameaça, permitindo o breve retorno dos vulneráveis e pessoas próximas à normalidade. Em consequência, proponho exatamente o oposto do que vem sendo impingido pelos meios de comunicação, o estreitamento da curva de contágio entre os não vulneráveis, permitindo o retorno à normalidade no mais curto período possível. Note que com isso haverá liberação de leitos hospitalares para outras doenças.

Sei que tal proposta ainda é minoritária e antipática, acreditando que deixará de ser, uma e outra, tão logo o tédio e a ira dos confinados compilam-nos ao convívio normal. Não posso ter dúvidas de que o convívio ininterrupto forçado deixará sequelas que não estão sendo computadas pelos amáveis defensores do confinamento geral.

Inúmeras questões adicionais estão sendo deixadas de lado em um tão breve apanhado.

A questão da liberdade é uma delas. Os que defendem o confinamento pedem que nos entreguemos, que aceitemos a coleira em face do apelo humanitário: que pessoas cruéis, essas que se recusam ao desconforto de um breve confinamento que salvará tantas vidas.

Penso que as vidas devem valer ser vividas. Não creio ser sábio tentar estender uma existência tediosa e funesta, uma morte em vida. Notem que ao confinar os idosos, podemos estar transformando os momentos de vida que ainda lhes restam em um tédio abominável, pior ainda que a morte, alijando-os de todas as alegrias.

De qualquer modo, os idosos e demais vulneráveis sabem bem o que lhes convém, sendo bastante provável que optem sábia e conscientemente pelo próprio confinamento, garantindo assim uma extensão da vida que lhes é cara, devendo ter não só o direito de assim fazê-lo, como a garantia da renda que assim os permita. Devemos pensar, no entanto, não apenas em suas mortes, mas também em suas vidas e em suas alegrias, reduzindo o quanto pudermos a necessidade de confinamento, acelerando a curva de contágio que os libertará.

Quanto aos demais, os que não são nem coabitam com pessoas vulneráveis, convém, penso, não só manter sua liberdade, como insistir com veemência em seu direito de mantê-la. Penso também não só não existir maldade na singela defesa da própria liberdade, mas haver perfídia na posição oposta, na imputação de culpas e acusações diversas aos que a defendem. Talvez, mais do que nunca, seja o momento de gritarmos em defesa da liberdade.

O comentário, aliás, me faz lembrar que não tenho lido nem ouvido essa palavra, recentemente; talvez andem-na escamoteando de nós.

Liberdade! Liberdade!

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