O levante da direita populista em Portugal e Espanha, por Mathias Alencastro

A crise da Catalunha teve na Espanha o mesmo impacto que o brexit teve no Reino Unido: "rachou os partidos, radicalizou os políticos e, mais grave ainda, ativou os piores reflexos da extrema direita, uma das mais reacionárias do continente"

André Ventura, o "Bolsonaro português". Foto: Reprodução/TV

Jornal GGN – Os movimentos políticos que permitiram a chegada ao poder e manutenção de partidos progressistas e social-democratas na Espanha e Portugal estão encontrando cada vez mais dificuldades nos países da península ibérica. A análise é de Mathias Alencastro, na sua coluna desta segunda-feira (18), na Folha de S.Paulo.

Ele ressalta que, até aqui, muitos tinham apostado de que os dois países escapariam “à tentação da direita populista”:

“Apesar do derretimento da classe média provocado pela crise financeira de 2008, portugueses e espanhóis eram gratos à Europa pelos avanços civilizatórios dos últimos 30 anos. A memória das duas ditaduras que dominaram o século 20 ibérico servia de poderoso antídoto contra a extrema-direita, excluída do tabuleiro”.

Alencastro pontua, ainda, que a impressão de que Portugal e Espanha iriam seguir mantendo os eixos da social-democracia “era reforçada pelo fato” de que “encontravam-se na vanguarda do experimentalismo político”. Ele se refere ao sucesso da Geringonça (união dos partidos de esquerda portugueses) e a formação de partidos espanhóis: o centrista Cidadãos e o Podemos.

A receita começou a desandar quando entrou em cena o debate sobre a independência da Catalunha, na Espanha. “Aproveitando a desastrosa moda dos referendos, uma coalizão improvável de independentistas conduzida por oportunistas sequestrou a política espanhola com uma reivindicação inviável”, avalia o pesquisador completando que a crise da Catalunha teve na Espanha o mesmo impacto que o brexit teve no Reino Unido: “rachou os partidos, radicalizou os políticos e, mais grave ainda, ativou os piores reflexos da extrema direita, uma das mais reacionárias do continente”.

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E aqui chegamos a uma península Ibérica refletindo o mesmo fenômeno levantando nos últimos tempos em várias partes do mundo. Alencastro destaca que nas eleições europeias de maio deste ano, para eleger um novo Parlamento Europeu, partidos da extrema direita de Portugal e Espanha apresentam hoje as maiores chances de ocupar as cadeiras no bloco.

Em Portugal, um personagem político que tem ganhado cada vez mais destaque é André Ventura, o “Bolsonaro português”: “Seus aliados aproveitam o bom desempenho do Vox [partido de extrema direita espanhol] para anunciar um ‘bloco antissistema’ com o intuito de salvar Portugal do ‘marxismo cultural'”, destaca.

Alencastro avalia, porém, que os grupos nos dois países não tem forças para levar a população a aderir uma saída da União Europeia.

“Conscientes de que os ibéricos nunca aderiram à bandeira da saída da União Europeia, os seus populistas defendem uma estratégia mais pragmática: tomar o poder em Bruxelas para colocar a Europa ao serviço das suas reivindicações etno-nacionalistas”. Para ler a coluna de Alencastro na íntegra, clique aqui.

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7 comentários

  1. O PNR em Portugal anda muito bem instrumentalizado: são ativos nas redes, atuantes e profissionais em suas campanhas e muuuito bem assessorados:

    Tentaram se apropriar da (por sua vez, tentativa) de manifestação a la coletes amarelos nas terras lusas, mas o movimento não vingou; Ventura tem construido seu espaço nos estilos Bolso e Trump e, ao que parece, seguindo fielmente a cartilha Bannon – que, em minha opinião, é o cérebro por trás da maioria dos movimentos recentes da direita europeia; nas redes os esquemas de ataque a membros da esquerda é idêntico ao que vimos no Brasil também, inclusive com direito às fake news mais esdrúxulas.

    Por outro lado, a entrevista, há coisa de um mês, com Mário Machado – condenado várias vezes por crimes de ódio racial e defensor radical de Salazar – no programa da TVI ‘Você Na TV’ rendeu críticas acalorados da maioria dos meios lusitanos. Parece – parece! – que o ´Efeito Bolsonaro’ despertou algum sentido de alerta na sociedade portuguesa. Aguardemos.

  2. Taxar os independentistas catalães de oportunistas é, eu diria, de um cínico oportunismo.

    O independentismo na região era muito minoritário (inferior a 25%) até que na segunda metade dos anos 2000 o Tribunal Constitucional de maioria PPista (do PP, Partido Popular, de direita) e o próprio governo central do PP começaram a bombardear as instituições e culturas regionais catalães, tecendo ameaças ao ensino em catalão, revogando o Estatuto da Catalunha (mal comparando ao Brasil, uma Constituição estadual), sempre da maneira mais demagógica possível para ganhar votos em outras regiões.

    O resultado está aí, agora o independentismo na região beira os 50% e saiu dos guetos da extrema esquerda para ser um sentimento generalizado na sociedade catalã.

    Só irá regredir, não pela repressão violenta, mas com a retomada das políticas de regionalização de poder que, ainda que vagarosamente, vinham sendo adotadas até a segunda metade dos anos 2000.

  3. Os europeus exploraram a Africa por séculos, tiraram suas populações da cultura local, agora aguentem, tá todo mundo querendo viver na Riviera francesa, quem não gostaria ou prefeririam viver em uma sociedade desestruturada pelas guerras patrocinadas a busca das riquezas. Aguentem, com direita ou com esquerda.

  4. portugal queima etapas daquilo q não fez no tempo devido com os fundos da união européia.. essa nova direita é folclórica.. mas quem brinca com fogo, como faz a imprensinha de lá q dá espaço para eles, acaba com o traseiro chamuscado

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