Salvem o porteiro! Já! Por Marcelo Auler

Mais do que o possível desemprego, o porteiro do Vivendas da Barra passa a ter a sua vida e a de seus familiares em risco

Registro do ingresso de Elcio Vieira no Condominio Vivendas da Barra, no dia do assassinato de Marielle e Anderson | Reprodução da TV Globo

Salvem o porteiro! Já!

Por Marcelo Auler, de São Paulo

em seu site 

Ninguém duvida que no Condomínio Vivendas da Barra há moradores milicianos. A quantidade deles ainda está por ser apurada, mas que existem, não resta dúvida.

Milicianos, no Rio de Janeiro, a história tem demonstrado, são capazes de tudo. Normalmente, esse tudo sempre se dá ao arrepio da lei. Ou seja, dentro da criminalidade.

No dia 14 de março de 2018, portanto muito antes de se iniciar a disputa eleitoral do ano passado, o porteiro do Condomínio Vivendas da Barra, na Av. Lúcio Costa, Barra da Tijuca (RJ), no estrito cumprimento de suas funções, registrou no livros e/ou fichas de controle dos acessos ao condomínio, o ingresso do Logan placa AGH 8202, tendo como destino a casa de número 58. O registro mostra que o ingresso do carro, dirigido por Élcio Vieira, ocorreu às 17h10.

Certamente, ao cumprir estritamente seu dever profissional, ele jamais imaginaria que o ocupante daquele carro, horas depois, às 21h30, do outro lado do Maciço da Tijuca, a quilômetros de distância dali, participaria do assassinato da vereadora Marielle Franco, do PSO e de seu motorista, Anderson Gomes. Talvez o porteiro nem soubesse quem era Marielle.

Sem poderes premonitórios, o funcionário do condomínio também jamais preveria que, sete meses e meio à frente, em 28 de outubro do mesmo ano, o morador da casa 58, Jair Messias Bolsonaro, se elegeria o 38º presidente da República, com 55 milhões de votos. Portanto, ele não tinha motivo algum para registrar erroneamente a entrada daquele carro.

Muito provavelmente, entre os milhões de eleitores do “mito” pode estar o porteiro que, na tarde daquela quarta-feira (14 de março), cumprindo seu dever, registrou o ingresso do Logan, transportando um futuro assassino, que anunciou como destino a casa onde morava o futuro presidente da República.

A hipótese de erro no registro acabou afastada quando o referido porteiro, em 7 e 9 de outubro passado, ao prestar depoimentos na Delegacia de Homicídios do Rio, confirmou os dados. Tal como notiuciou o Jornal Nacional, da TV Globo, em 29 de outubro, nos depoimentos esclareceu ter ligado duas vezes para a casa 58 – de Bolsonaro – falando com o “Seu. Jair”,

Na primeira ligação recebeu autorização para deixar o carro entrar. Na segunda, questionou o fato de o visitante – Élcio Vieira, como consta do registro – ter ido para a casa 66 e não para a 58. Então, segundo o depoimento, “Seu Jair” disse que “sabia para onde Élcio estava indo”.

As promotoras Simone Sibilio, Letícia Alqueres Petriz e Carmem Elza Bastos de Carvalho, açodadamente concluíram que “o porteiro mentiu” | Foto: Agência Brasil

Com base no registro de entrada do carro com destino à casa 58 e nos depoimentos do porteiro na Delegacia de Polícia, a TV Globo, no seu papel de informar, deu divulgação ao furo obtido por seus repórteres. Fez o seu papel.

Sem dúvida, como pontuou Luís Nassif – Se fizer jornalismo, a Globo conseguirá ressuscitar a denúncia – poderia ter trabalhado melhor a notícia, evitando dar margens a desmentidos. Mas, acostumada aos vazamentos da Lava Jato – que “transformou a imprensa em mera publicadora de releases”, como salientou Nassif -, levou ao ar o que recebeu. Não buscou detalhes que comprovassem ou desmentissem os fatos. Como, por exemplo, a inexistência de interfones naquele condomínio, informação importante dada por uma fonte ao mesmo Nassif.

A divulgação pela TV Globo levou o Ministério Público do Rio, através de três promotoras – Simone Sibilio do Nascimento, Letícia Emile Alqueres Petriz Carmem Elza Bastos de Carvalho, do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) – açodadamente concluir que “o porteiro mentiu!”, tal como vários sites e jornais divulgaram.

Estranha a pressa com que as três promotoras – entre as quais Carmem de Carvalho, que como Leandro Demori divulgou no The Intercept (Urgente: a promotora do caso Marielle precisa ser afastada) é uma declarada eleitora de Bolsonaro – correram a querer desmentir o porteiro, antes mesmo de ouvi-lo novamente (lembremos, os depoimentos foram prestados à polícia).

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