Xadrez dos aloprados no comando do Titanic Brasil, por Luis Nassif

Depois  de um primeiro mês atabalhoado, começam a sair as primeiras medidas, uma sucessão infindável de propostas fundamentalistas

A economia mundial está sob influência dos seguintes fatores negativos, um desmanche em toda organização que vigorou no pós-guerra.

Peça 1 – desaceleração das economias

União Europeia

Nos últimos meses houve uma redução abrupta da oferta de crédito, com reflexos nas diversas economias. E uma obsessão por ajustes fiscais que derrubou as condições sociais estimulando partidos radicais em praticamente todos os países.

Alemanha – no final do ano passado mostrou os primeiros sinais de recessão, com queda brusca na produção industrial. A dívida alemã está sendo negociada com rendimentos negativos, sinal de que se aproxima uma deflação da economia. No segundo semestre de 2018 houve uma queda de 3,2% na produção industrial da Alemanha. Em dezembro, as encomendas caíram 7% em relação ao mesmo mês do ano anterior. A recessão começou com a indústria automobilística e já se espalhou para construção, produtos químicos e farmacêuticos.

Itália – A Comissão Europeia reviu o crescimento em 2019 para 0,2%. Além disso, o país corre o risco de uma nova crise da dívida, tendo que refinanciar 400 bilhões de euros em dívidas em 2019.

Inglaterra – presa às indefinições do Brexit, sem liderança e sem estratégia clara sobre as regras de saída. Em 2016 montou-se uma campanha a favor do Brexit sem nenhuma informação mais concreta sobre as implicações da decisão na vida das pessoas. Seque analisaram-se as implicações na política interna, como a manutenção do Acordo de Sexta Feita Santa de 1998, que celebrou a paz na Irlanda do Norte, após três décadas de guerras sangrentas. Além disso, os números da economia mostram o menor crescimento desde 2012.

EUA – o FED (Banco Central dos EUA) interrompeu momentaneamente a alta nas taxas básicas de juros. Mas ficou a dúvida no ar sobre os próximos passos.

Peça 2 – alto endividamento

Anos de juros perto de zero provocaram um megaprocesso de endividamento corporativo e de países. A tomada de empréstimos se baseia na relação entre a taxa de crescimento da economia e o volume de crédito tomado. Quando cai o crescimento, aumenta o peso dos juros. O mercado de taxas traz indicações preocupantes de deflação na zona do euro. O que significa redução do numerador.

Mais que isso. O excesso de crédito inflou os ativos internacionais. A manutenção das cotações depende, sempre, da expectativa de crescimento dos investimentos e da manutenção da liquidez internacional.

Com menos crédito, haverá menos expectativa de rentabilidade dos ativos – que já estão caros. Essa parada poderá deflagrar o chamado “overshooting” para baixo. Isto é, deflagração de ordens maciças de venda.

  • Além da queda da atividade econômica global, há um conjunto de crises latentes:
  • Guerra comercial entre EUA e China.
  • Confisco do ouro da Venezuela em bancos europeus, trazendo um fator adicional de insegurança jurídica.
  • Crise política se alastrando na França, inclusive com embates verbais com a Itália
  • A indefinição em relação aos juros norte-americanos.
  • A indefinição em relação ao Brexit.

Peça 3 – o fator Bolsonaro

É nesse universo turbulento que o governo Bolsonaro começa a apresentar suas fichas. Tem-se um maremoto pela frente e no leme do país um governo mais preocupado em desmontar o barco movido por dois fundamentalismos: o religiosos e o econômico.

Depois  de um primeiro mês atabalhoado, começam a sair as primeiras medidas, uma sucessão infindável de propostas fundamentalistas, descoladas da realidade, e, especialmente a equipe da cota dos Bolsonaro, com um despreparo abismante.

Se a educação e as relações exteriores estão sob controle de fundamentalistas religiosos, a política econômica foi entregue a fundamentalistas econômicos. O Ministro da Economia Paulo Guedes não é uma pessoa racional, que se debruça sobre a realidade para encontrar soluções. É um ideólogo sem noção, que julga que destruindo a ordem econômica em vigor, irá brotar do caos uma nova ordem conduzida pela mão invisível do mercado.

Desde o governo Temer, vem sendo desmontadas peças centrais da economia, com reflexos terríveis nas próximas décadas.

O desmonte do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) começou com a mudança da taxa referencial de juros, procurando aproximar suas taxas de longo prazo das taxas de mercado através do expediente mais nocivo possível: elevando as taxas mais baixas do banco, em vez de trabalhar para reduzir as taxas do mercado.

O desmonte da legislação trabalhista criou duas bombas relógio.

A primeira, os impactos gradativos sobre a receita fiscal. O que a tolice guedesiana chama de “herança getulista”, nada mais é do que um engenhosos mecanismo implementado por Roberto Campos, que transformou o desconto em folha em peça central da arrecadação fiscal,  do financiamento da Previdência e do financiamento da infraestrutura, através do FGTS.

Com o desestímulo progressivo à formalização, haverá impactos de monta na receita fiscal e praticamente a inviabilização da previdência pública.

Sua proposta de reforma da Previdência – de impor a capitalização individual para os novos contribuintes – não tem pé nem cabeça. Existe um sistema em vigor, a chamada repartição simples, no qual a contribuição dos ativos banca a aposentadoria dos inativos. Se já há dificuldade em manter o sistema atual, como pretende incluir um novo sistema? Se os novos contribuintes deixarem de contribuir para a repartição simples, haverá um crescimento exponencial do déficit atuarial. Se acumular duas contribuições, o custo se tornará inviável para o empregado.

Portanto, há dois mega-rombos a caminho, caso passe a reforma: a redução da formalização do emprego; a interrupção do fluxo de contribuições ao sistema de repartição.

Tome-se a ausência completa de políticas contra cíclicas, para melhorar o nível de atividade, mais o desmonte das políticas sociais, o aumento da informalidade, um plano de segurança pública meramente bacharelesco, e a guerra religiosa que se prenuncia, para se ter um quadro complicado pela frente.

A guerra hoje não é entre centro-esquerda e centro-direita. É entre a irracionalidade mais delirante a os setores racionais do país, é entre a liberdade religiosa e o fundamentalismo mais canhestro, entre os direitos sociais e individuais e as milícias. Ou os setores formais e racionais se unem contra essa avalanche fundamentalista ou a reconstrução se tornará impossível.

28 comentários

  1. Livre pensar é só pensar,deblaterava o saudoso Millôr Fernandes.Mudar é sempre bom,as vezes inevitável,vamos combinar.Sinto dizer,mas o Blog(para mim sempre será BLOG,melhor agora porque sem estrelas),sente dolorosamente a falta do contato diário de Luis Nassif,o mais brilhante jornalista de sua geração.Ademais agora,que o circo de horrores começa a pegar fogo,de combustão tão elevada que não sobrarão nem cinzas.Governo de milicias,de máfia,de omertà,não sugere outro fim.Don Altobello(Temer para os íntimos),deve estar sorvendo um bom vinho do Porto,e comendo bacalhau do mesmo lugar.É que,diante desse Governo,Don Altobello faz parte do Conselho de Notáveis do Santo Sepulcro.

  2. Essa nova plataforma não está funcionando direito. Não consigo fazer login. Aqui diz que tem 22 comentários, mas eu clico na tarja “mais comentários” e nada acontece. Eu gostava de acompanhar todos os comentários.

  3. O Titanic está afundando e as “elites” deste país não se importam, dão de ombros e se refugiam na Europa, nos EUA, etc. Nunca imaginei que a alta burguesia fosse tão covarde e descompromissada com os destinos do país.
    Triste Brasil…

  4. Esse artigo do senhor editor deveria ser reeditado diariamente,o que implicaria em perda de tempo,economia de neuronios,e a certeza absoluta de não ter que repetir o mais do mesmo.A situação tomou ares de anarquismo,cinismo e de esculhambação em seu estado degenerativo.Não existe palavras para justificar o que levou os terraqueos brasileiros a levar para a Presidencia da Republica,algo inominavel.Macondo de Garcia Marquez fica logo aqui do lado,e ninguem notou.Benza-te Deus.

  5. Ex metalurgico Presidente Luis Inacio da Silva em oito anos de governar bem o Brasil nos deixou 350 BILHOES em reservas internacionais, empregos e prestigio mundial.O salafra moro e sua corja golpista desmontaram o triunfo.Para terminar a canalhada condena o ex Presidente a + de 24 anos de cadeia pais ingrato e um povo que nao vale o que o gato enterra.

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