A autocrítica pela metade de Gabeira sobre Bolsonaro, por Rogério Marques

Há quem defenda, simploriamente, que Bolsonaro foi eleito por causa de erros praticados pelo PT. Nesse raciocínio, a rejeição ao PT elegeu Bolsonaro. Jamais acreditei nisso.

Arquivo Pessoal

A autocrítica pela metade de Gabeira sobre Bolsonaro

por Rogério Marques

Começo a semana com uma surpresa: a autocrítica de Fernando Gabeira por ter “subestimado o perigo que Bolsonaro representava em 2018.” Autocritica pela metade, importante dizer.

Em artigo com o título “Uma vacina contra a estupidez”, no Globo Online desta segunda-feira, Gabeira critica as atitudes de Jair Bolsonaro que levam nosso país a ficar atrás de muitos outros na vacinação em massa contra a Covid-19. O que leva a aumentar diariamente o assustador número de mortos na atual pandemia, que ultrapassa os 180 mil.

Diz Fernando Gabeira:

“Percebo agora como subestimei o perigo que Bolsonaro representava em 2018. Calculava apenas a ameaça à democracia e contava com os clássicos contrapesos institucionais: STF e Congresso, imprensa. Não imaginei que um presidente poderia enfrentar uma tragédia como o coronavírus ou precipitar dramaticamente a tragédia anunciada pelo aquecimento global.”

Ora, calculava “apenas” a ameaça à democracia, como se fosse pouco. Quando se sabia há muitos anos qual era o sentimento de Jair Bolsonaro sobre este tema, defensor declarado da tortura e da ditadura militar.

Gabeira contrapõe que contava com o STF, o Congresso e a imprensa para conter a ameaça à democracia. Mas como contar justamente com aqueles que se uniram para o golpe contra a democracia em 2016, depois de já terem se comportado de maneira idêntica em outros golpes?

Gabeira prossegue, referindo-se ao fato de Bolsonaro ter chegado ao poder:

“Não tenho dúvidas de que também vamos acordar do pesadelo. Mas uma importante tarefa, assim como aconteceu com uma geração de intelectuais alemães no pós-guerra, será estudar as causas disso tudo: as raízes no imaginário nacional que nos tornam tão vulneráveis à barbárie, tão seduzidos pelo discurso da estupidez.”

Não creio que será preciso esperar tanto tempo para se entender as causas disso tudo.

Há quem defenda, simploriamente, que Bolsonaro foi eleito por causa de erros praticados pelo PT. Nesse raciocínio, a rejeição ao PT elegeu Bolsonaro. Jamais acreditei nisso. Se assim fosse, nas eleições de 2018 o ex-presidente Lula, mesmo preso e linchado diariamente, por três anos, pelos grandes grupos de mídia não teria a preferência do eleitorado como mostram as pesquisas de opinião da época.

Pesquisa Datafolha de 22 de agosto de 2018 — a apenas um mês e meio do primeiro turno das eleições — aponta o seguinte quadro: Lula, 39%; Bolsonaro, 19%; Marina, 8%; Alckmin, 6%; Ciro, 5%.

Mesmo tendo sido escolhido para substituir Lula em meio a divisões no campo da esquerda, sem o discurso populista de Bolsonaro e sob massacre diário da mídia contra o PT, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad foi ao segundo turno e obteve 47 milhões de votos, o que não é nada desprezível.

Hoje fica mais claro a cada dia que Lula foi mantido preso para que não ser eleito.

O plano de boa parte do empresariado — o da mídia incluído — era eleger o tucano Geraldo Alckmin, ex-governador de São Paulo, para implementar a política neoliberal e demolir conquistas histórias dos trabalhadores.

O plano deu errado, ou deu certo pela metade. Prevaleceram o populismo de Bolsonaro, sua fórmula de misturar política, religião, ideologia, falso moralismo e falso nacionalismo.

As conquistas dos trabalhadores foram realmente demolidas. Mas o monstro logo se voltou contra aqueles que ajudaram a criá-lo, principalmente o Grupo Globo. Voltou-se também contra a população, com a política genocida de Bolsonaro de desestimular os cuidados com o novo coronavírus, desde o início da pandemia, e a própria vacinação em massa.

De maneira criminosa, Bolsonaro estimula também a destruição de uma das nossas principais riquezas, o meio ambiente, tendo para isso escolhido, não à toa, Ricardo Salles como ministro dessa pasta.

Tenho a convicção de que em breve os que ainda apoiam Jair Bolsonaro cairão na real, como aconteceu em 1992 com Fernando Collor de Mello, outro representante da classe dominante com discurso populista. Da mesma forma que Bolsonaro, Collor chegou ao poder com apoio dos empresários da mídia, que depois se voltaram contra ele.

Fernando Gabeira não precisa aguardar, como diz em seu artigo, o estudo por futuras gerações de intelectuais da opção pela barbárie que o Brasil vive hoje. Basta que ele e tantos outros jornalistas que hoje se voltam contra a criatura releiam as matérias que escreviam diariamente em 2016, quando faziam coro com o golpe covarde contra Dilma Roussef, primeira mulher eleita para presidir nosso país, que não cometeu qualquer crime.

Caso um dia Gabeira admita que o golpe de 2016 não foi apenas contra Dilma, mas contra a democracia brasileira, sua autocrítica será completa.

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