Completamos dez anos das jornadas de junho de 2013. O que aprendemos?, por Fernando Castilho

O ódio, alimentado por anos a fio, desde 2013, foi num crescendo até o processo vergonhoso de impeachment de Dilma

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Completamos dez anos das jornadas de junho de 2013. O que aprendemos?

por Fernando Castilho

Um movimento contrário ao aumento de 20 centavos nas passagens de ônibus na cidade de São Paulo deu início às chamadas jornadas de junho de 2013. Começou aos poucos e foi crescendo até se espalhar por todo o Brasil. Qual camaleão, ia assumindo nova identidade e novos propósitos.

Enquanto o Movimento Passe Livre, essencialmente de origem proletária, reivindicava aquilo que lhe parecia justo na época, meu coração e minha mente naturalmente a ele se juntaram, sabedores das agruras com que as pessoas pobres deste país tão desigual, que necessitam de transporte público para trabalhar ou estudar, enfrentam todos os dias. Mas, também aos poucos, fui percebendo com estranheza que, no espaço de alguns poucos dias, a grande mídia, compreendendo os grandes jornais e revistas impressos e as redes de televisão e rádio, que no início apressaram-se em criticar e condenar o movimento, através de colunistas e editoriais, começaram a mudar de opinião acrescentando-lhe uma conotação mais política e ampliando o foco que antes era localizado, para todo o país. Surgiu a figura do gigante adormecido que acordou indignado, ao mesmo tempo simbologia e senha que tomou as redes sociais de maneira avassaladora, como a querer nos mostrar que estávamos errados em conferir aprovação de quase 60% ao governo Dilma Rousseff somente um mês antes, segundo pesquisa Datafolha.

A conclamação, muitas vezes vinda da Rede Globo que divulgava dias e horários das manifestações, a protestar contra o governo era difusa e artificial, pois nos ordenava a, como zumbis, sair às ruas com pautas confusas e genéricas como maior liberdade, fim da corrupção, reforma política, etc.

No governo Dilma a liberdade nunca deixou de existir porque é o cerne da democracia e, como sabemos, a ex-presidente é democrata. Nenhuma manifestação foi reprimida por ela. É justo exigir o fim da corrupção, mas Dilma nunca foi corrupta, como as intensas investigações, a imprensa e o tempo comprovaram.

A Polícia Federal e o Ministério Público sempre tiveram por parte de Dilma a autonomia necessária para investigar quem quer que fosse, inclusive o então ex-presidente Lula.

A reforma política estava no Congresso, o responsável por aprovar as leis.

Mas então, o que queriam?

Dilma chegou a se pronunciar em rede nacional de televisão se mostrando favorável às reivindicações e se colocando ao lado dos que protestavam, mas, mesmo assim, as panelas bateram ruidosas.

Nas ruas, enquanto pessoas vestidas com camisas da seleção brasileira desfilavam seu ódio contra tudo que estava aí, os black blocs vandalizam vitrines e equipamentos públicos. Hoje temos fortes indícios de que eles, na verdade, eram agentes do exército chamados de kids pretos. A reportagem da revista Piauí mostra claramente os métodos dessa força especial.

O ódio, alimentado por anos a fio, desde 2013, foi num crescendo até o processo vergonhoso de impeachment da presidenta em 2016, culminando com a prisão de Lula em abril de 2018 e a eleição de Bolsonaro no mesmo ano em meio ao ressurgimento do fascismo no Brasil.

É muito fácil, a quem se dispõe a estudar e a refletir sobre todo esse período histórico, que tudo não passou de um projeto idealizado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos para afastar a esquerda do poder, abrindo caminho para a tomada do pré-sal, através do fim dos êxitos dos governos 378 progressistas desde 2003 e o restabelecimento do neoliberalismo que propicia mais lucros às empresas norte-americanas e protege o império.

Com Dilma morta e enterrada na visão de nossa elite, a Justiça teria, enfim, a oportunidade de aparecer perante a opinião pública como a impoluta e incorruptível guardiã dos direitos fundamentais dos cidadãos, “corrigindo” (antes diria, remendando) a decisão do Congresso, porém, sem reconduzi-la ao cargo, como de direito. Essa mesma justiça que se tornou justiceira com a criação da Operação Lava-Jato cujos “heróis” eram o então juiz Sergio Moro e seu cúmplice, Deltan Dallagnol.

O ministro do STF, Luís Roberto Barroso, há cerca de um ano atrás, já tinha reconhecido que a queda da presidenta não se deu por crime de responsabilidade, mas sim por incapacidade política de aglutinar forças em torno dela. Ele sabia disso desde 2016, o ano do golpe, mas só em fevereiro de 2022, resolveu sair de sua toca para manifestar sua opinião.

Felizmente, o Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2) extinguiu o processo contra ela. “A 7ª Turma Especializada decidiu, por unanimidade, dar provimento ao recurso de apelação de Dilma Vana Rousseff, reformando integralmente a sentença atacada para extinguir o feito sem resolução do mérito”, diz o texto da decisão que demonstra de maneira inequívoca que a ex-presidente foi vítima de um golpe legislativo com total apoio da grande mídia.

A presidenta Nacional do Partido dos Trabalhadores, deputada federal Gleisi Hoffmann, manifestou-se pelo twitter desta forma: “O TRF-2 extinguiu ação contra Dilma sobre 379 pedaladas fiscais. Não foi provado que houve danos ao erário. A farsa desmontada mostra que a presidenta honesta foi golpeada de forma misógina e midiática, transformando o país no caos que está aí, de autoritarismo, mentiras e destruição”.

Infelizmente a mídia não deu tanto destaque a isso e nem poderia, artífice que foi desse processo.

Uma grande injustiça foi cometida abrindo caminho para a destruição parcial do estado brasileiro e de seu processo civilizatório. Em parte, ela foi consertada, mas só vamos saber a real extensão disso, nos livros de História dos próximos anos ou das próximas décadas. De qualquer forma, uma reputação foi comprometida, mas grande parte da população brasileira já tem noção do que foi cometido contra Dilma.

Dilma tem, enfim, ao presidir o banco dos Brics, a grande oportunidade de demonstrar àqueles que a atacaram sua grande competência.

Fernando Castilho é arquiteto, professor e escritor

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Fernando Castilho

Fernando Castilho é arquiteto, professor e escritor

2 Comentários

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  1. A imprensa aprendeu que é fácil derrubar um governo de esquerda e difícil resistir aos arroubos autoritários de um governo de extrema direita. Todavia, com a eleição de Lula a imprensa esqueceu tudo e voltou a conspirar para derrubar um governo moderadamente de esquerda.

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