Daniel Costa
Daniel Costa é graduado em História pela Unifesp, instituição onde atualmente desenvolve pesquisa de mestrado. Ainda integra o G.R.R.C Kolombolo Diá Piratininga onde além de compositor, desenvolve pesquisas relacionadas a História do samba de São Paulo e temas ligados a cultura popular participando das atividades e organização do centro de documentação da entidade (CedocK - Centro de Documentação e Memória - José e Deolinda Madre). Possui especializações na área de museologia (IBRAM), arquivologia (Arquivo Nacional), Educação Patrimonial (IPHAN) e História Oral (FGV/CPDOC).
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Jornalismo ou assessoria de imprensa?, por Daniel Costa

Por aqui temos jornalistas, comentaristas e articulistas reproduzindo o manjado discurso de uma suposta luta do “bem contra o mal”

Jornalismo ou assessoria de imprensa?

por Daniel Costa

Ao acompanhar a cobertura feita pela ainda considerada imprensa hegemônica brasileira, do massacre perpetrado por Israel contra a população palestina surge em muitas pessoas a impressão de acompanhar a mera reprodução de algum press release, e pior, reproduzindo informações de apenas um dos lados. Seja nos jornalões, nos canais dedicados exclusivamente a notícias e até mesmo nos programas policialescos do final da tarde, onde os apresentadores substituíram a narração de enchentes pela análise rasa e narração do conflito, como se fosse apenas mais um espetáculo grotesco.

A imprensa hegemônica brasileira que nos últimos anos parece ter deixado cair de vez a máscara de imparcial consegue a proeza de fazer uma cobertura tão parcial que nem mesmo a imprensa israelense teria coragem de fazer, caso alguém tenha dúvida, basta acompanhar as manchetes e análises do Haaretz, um dos mais tradicionais periódicos de Israel.

Enquanto parte considerável da mídia hegemônica de Israel busca de forma constante questionar as decisões do governo e denunciar os crimes cometidos por Netanyahu, por aqui temos jornalistas, comentaristas e articulistas reproduzindo o manjado discurso de uma suposta luta do “bem contra o mal”, quase que reproduzindo de forma literal a fala de membros do governo israelense que chegaram a afirmar que o atual massacre seria na realidade um embate entre a “luz e a escuridão”.

Buscando apresentar uma face laica diante do conflito que cada vez mais ganha proporções mundiais, seja pela possibilidade direta da entrada das forças de outros países no conflito ou pela crescente onda contrária ao genocídio em curso, nossos coleguinhas acabam vez ou outra tirando da manga o surrado discurso de disputa entre a civilização e a barbárie para tentar substituir o discurso messiânico de Netanyahu. Porém, na visão distorcida desses profissionais que parecem brifados por algum grupo, embaixada ou think thank. “Civilizado” seria justamente o lado que atira bombas de forma indiscriminada, atingindo civis, especialmente mulheres e crianças e do lado da “barbárie” estariam aqueles que rejeitam a democracia e os valores do ocidente, supostos radicais e etc. Mas que ao fim e ao cabo são as grandes vítimas da barbárie.  Nada de novo no front, afinal desde priscas eras que o Ocidente enxerga sua imagem diante do espelho como o símbolo da civilização, enquanto aqueles que estão no Oriente simbolizariam a barbárie, a intolerância e etc.

O jornalista Perseu Abramo em ensaio clássico, publicado ainda na década de 1980 demonstrava que, “uma das principais características do jornalismo no Brasil hoje, praticado pela maioria da grande imprensa, é a manipulação da informação. O principal efeito dessa manipulação é que os órgãos de imprensa não refletem a realidade. A maior parte do material que a imprensa oferece ao público tem algum tipo de relação com a realidade. Mas essa relação é indireta. É uma referência indireta à realidade, mas que distorce a realidade (…) A relação que existe entre a imprensa e a realidade é parecida com a que existe entre um espelho deformado e um objeto que ela aparentemente reflete”.

No referido texto Abramo aponta ao menos quatro padrões de manipulação  geral utilizado pela imprensa e um específico para o telejornalismo. Segundo  o sociólogo e jornalista, os padrões seriam os seguintes: padrão de ocultação, fragmentação, inversão e indução.

Como ocultação podemos entender a decisão editorial referente a ausência ou a presença de determinados fatos na cobertura jornalística. Porém, como o próprio autor alerta, essa ocultação “não se trata, evidentemente, de fruto do desconhecimento, e nem mesmo de mera omissão diante do real. É ao contrário, um deliberado silêncio militante sobre determinados fatos da realidade”. No caso da atual cobertura podemos destacar tanto a ausência do povo palestino enquanto cidadãos e sujeitos políticos e a ocultação do terrorismo de estado feito por Israel.

O segundo passo no processo de ocultação do fato ocorre após a seleção e ocultamento daquilo que é considerado como não fato, aqui inicia-se o processo de fragmentação da notícia. Momento em que “o todo real é estilhaçado, despedaçados, fragmentado em milhões de minúsculos fatos particularizados, na maior parte dos casos desconectados entre si, despojados de seus vínculos com o geral”. Ou seja, literalmente temos a defesa da máxima: os fins justificam os meios. Situação que pode ser observada, por exemplo, nos comentários de figuras como Jorge Pontual que em nome do famigerado combate ao terror endossa os ataques israelenses.

O chamado padrão de inversão é o terceiro ato dessa grande operação destinada a subverter o fato. De acordo com Abramo, o padrão da inversão “opera o reordenamento das partes, a troca de lugares e de importância dessas partes, a substituição de umas por outras e prossegue, assim, com a destruição da realidade original e a criação artificial da outra realidade”. Quanto as formas de inversão que podem inclusive ser usadas na mesma matéria, podem ser classificadas como: inversão da relevância dos aspectos, inversão da forma pelo conteúdo, Inversão da versão pelo fato e por fim a inversão da opinião pela informação.

Por fim podemos encontrar o padrão de indução que se manifesta pelo reordenamento ou “recontextualização” dos fragmentos da realidade, pelo subtexto. Para que aquele que chegou até aqui, concordando ou não com o que foi escrito, e para que não reste dúvida que estamos discutindo fatos e não teoria da conspiração, resgato o próprio Perseu que faz o seguinte alerta: “É necessário repetir que os padrões de manipulação até aqui descritos não ocorrem necessariamente em todas as matérias de todos os órgãos impressos, auditivos ou televisivos, diariamente ou periodicamente nos órgãos e programas periódicos”.

Reginaldo Moraes no breve prefácio ao texto de Perseu Abramo, escrito em 2016, no momento em que a mídia, atuando como braço direto da operação Lava Jato operava como maestro de uma grande orquestra, que em nome do combate à corrupção orquestrava um golpe de Estado, que derrubaria uma presidenta eleita de forma legítima e jogaria o país no colo do fascismo. Segundo Reginaldo Moraes, ao assumir o papel de protagonista e portador do discurso anticorrupção, dada sua relevância nos mecanismos de socialização, de formação das sensibilidades e dos padrões de apreensão da realidade, a mídia tornou- se um instrumento crítico para coordenar ações políticas. Ela descreve, contextualiza, dá sentido, mas também julga, orienta o julgamento e a execução dos atos. Mais do que os partidos, substituindo-os, ela se torna o ‘comando supremo do golpe’, o quartel-general de ocupação do país”.

Infelizmente esse tem sido o comportamento da imprensa hegemônica brasileira que ao relativizar ataques a civis, hospitais e ambulâncias, e mesmo a morte de colegas de profissão, até o momento segundo informações cerca de trinta jornalistas do lado palestino foram assassinados desde o começo dos ataques, negando que aquilo que ocorre em Gaza seja um processo de limpeza étnica, e que sim temos um Estado genocida em uma luta desenfreada pela conquista de territórios.

Nossos colegas da imprensa hegemônica deveriam aprender que condenar o ato terrorista do Hamas não coloca o governo de Israel automaticamente como mocinhos dentro dessa narrativa, porém fica cada vez mais difícil cobrar isenção desses veículos. Pois se falta trabalho sério de apuração e reflexão,  sobra o papel  de meros assessores de imprensa do lado que detêm a força econômica e militar.

Daniel Costa é historiador, desenvolve pesquisas sobre o samba paulistano e a cultura popular e a prática da corrupção na América portuguesa ao longo do século XVIII.

Para saber mais: O ensaio do jornalista e sociólogo Perseu Abramo pode ser encontrado no livro “Padrões de manipulação da grande imprensa” . Disponível para download gratuito no seguinte endereço: https://fpabramo.org.br/publicacoes/estante/padroes-de-manipulacao-da-grande-imprensa/

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