A indignação foram pelos 80 tiros e nem tanto por causa da morte de Evaldo, por Janio de Freitas

Como povos de guerra, que se acostumam à barbárie: é preciso um componente ainda não frequentador das notícias, para dar a um episódio criminal o poder de nos escandalizar e quase dispor-nos a cobranças

Evaldo dos Santos Rosa. Foto: Reprodução/Facebook

Jornal GGN – Foi mais por causa dos 80 tiros do que pela morte do pai de família e músico Evaldo dos Santos Rosa. Fossem três ou quatro tiros o crime estaria na sequência catalogada como normais. E por que isso acontece?

“É preciso um componente ainda não frequentador das notícias, para dar a um episódio criminal o poder de nos escandalizar e indignar. E quase dispor-nos a cobranças”, responde Janio de Freitas na coluna desta quinta-feira (11) na Folha de S.Paulo.

O articulista chama atenção para os fatores que motivaram escândalo no assassinato praticado por agentes do exército. A indignação não partiu pela morte de um inocente, por forças do Estado, mas pelo número de tiros. Tanto é que todas as reações, em todos os noticiários, se concentram nos 80 tiros do ataque.

“Claro, 80 tiros foram uma loucura bárbara. Fossem três, quatro, entrariam na sequência catalogada dos crimes atuais. Surpreso com o ataque a tiros contra pessoas pacíficas em um carro ninguém poderia ficar, no Rio e em vários estados”, pontua Janio.

“A motivação diferente não distingue a facilidade e a frequência com que bandidos e policiais cometem esses ataques. Mas 80 tiros criam uma diferenciação. Fazem escândalo, revoltam, deprimem”, completa.

Essa peculiaridade diz muito a respeito de nós, que reagimos e protestamos contra o crime que tirou a vida de Evaldo e destruiu sua família. “A criminalidade urbana se incorpora ao nosso cotidiano, à nossa normalidade. Em uma convivência natural com o nosso viver”, sustenta Janio.

O mesmo aconteceu em relação à morte de Marielle. A vereadora foi assassinada ao lado do motorista Anderson Gomes, que não recebeu o mesmo espaço nos jornais e nas manifestações que a ativista política.

“A incontrolável reação ao assassinato de Marielle se explica porque, além do reconhecimento à sua atividade de valente solidária, os tiros feriram o ativismo LGBT, o feminismo em geral e muito do progressismo político. Uma combinação que não permitiu o acolhimento do crime na normalidade que se forma fora e dentro de nós”, destaca o colunista.

Janio completa que, com Evaldo, “morreram naqueles jovens sem culpa”. No sábado (06), uma grávida deu entrada no Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, Zona Norte do Rio de Janeiro. Uma “bala perdida” atingiu sua barriga e ficou alojada na cabeça do bebê de 8 meses que agora luta para sobreviver.

“Crimes, muitos crimes. Tiveram, no entanto, pouco ou nenhum componente que impedisse sua incorporação pelas pessoas em que vamos nos transformando. Como os povos que vivem 10, 20 e mais anos sob guerra”, conclui Janio.

Enquanto isso, os “indutores da eliminação humana”, o presidente Jair Bolsonaro e o governador do Rio Wilson Witzel não se posicionaram diante do crime dos 80 tiros. Quer dizer, se posicionaram, de certa forma, ao negarem opinião sobre o fuzilamento de Evaldo.

Bolsonaro jogou o tema nas costas dos militares, “esquecendo-se” da responsabilidade que tem sobre Exército, como presidência da República. Já Witzel respondeu que “não cabe fazer juízo de valor”.

“Não só cabe: é obrigação dos dois, submetidos a exigências funcionais que se sobrepõem à covardia moral e à fuga política”, pontua Janio. Para ler a coluna na íntegra, clique aqui.

2 comentários

  1. Nassif: tão taxando esses recrutas e seu oficial imediato de criminosos. Pelo contrário. Soldados que apenas cumpriram a missão que lhes foi designada pelos cabeças VerdeSauvas. Estes sim, que além de golpistas e conspiradores contra governos domocraticamente eleitos, têm contribuido, nestas últimas décadas, para a completa desgraça da Nação.

    Lembra quando aqueles da Querência de CruzAlta “anunciaram” que ficariam “tristinhos” se o Çu-premu permitisse (dentro da Lei) que o SapoBarbudo, desafeto confesso da FardaVerde, ficasse solto? E quando forçaram o então Savonarola dos Pinhas, depois regiamente compensado, a decretar a prisão do MelianteOperárioNordestino, só pra melar a campanha eleitoral de 2018?

    Corre à boca miuda que aquela facadinha foi coisa ensaiada da caserna, com ajuda da serviços de inteligência estrangeiros. O doidivana executor era um mero cobaia de um preparado alucinógeno fornecido pelo Mossad. Parece que o teste deu certo. Tanto, que o novo Escritório em Jerusalém foi encarregado de comprar uma tonelada do produto, encomendado pelo ministro corretor da NASA.

    Este, ao que tudo indica, foi apenas o início da campanha para conter aqueles que neles não votaram.

    Agora só restam 90.999.999. E mostrou que o treinamento no Haiti valeu a pena.

    Alias, o vice parece que declarou a impressa que os responsáveis serão punidos na forma da Lei. Por quê? Pelo fato de terem cumpridos ordens vindas das estrelas (nos ombros)? Ou porque deixou sobreviventes? Pode, também, ser uma Lei divina, editada no Templo do Bras.

    Juridicamente, não podem ser enquadrados. Primeiro, porque pela Lei do Mordomo de Filme de Terror, o bandido só agora sob investigação, esta não permite, em situações desse. Segundo, porque cumpriram seu dever constitucional. Como no RicoCentro. Deu no quê?

    Dever consittucional? Lógico, a Constituição da Caserna…

  2. “Já Witzel respondeu que “não cabe fazer juízo de valor”.
    Witzel foi didático:
    Como ele vai fazer juízo de valor sobre quem, pra ele, não tem valor nenhum?

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