Esquerda tem um problema de “tomada de posição que antecede uma campanha de agitação”

"Sugiro que se dê menos relevo à consequência de uma ausência e que nos detenhamos por hora na causa da abstenção, pois aí reside o verdadeiro nó górdio que devemos desatar"

Foto: Heuler Andrey/AFP Via Getty Images

Comentário de André Lameira referente ao post “Esquerda tem capilaridade, mas falta narrativa própria e estratégia nas redes sociais, diz Letícia Sallorenzo”

Tem gente que acha que o problema de nosso tempo é um problema de tipo “técnico”. Que o problema são as redes sociais, ou uma obtusidade “técnica” da esquerda. Ou os algoritmos, novos “senhores da humanidade”. Que se a esquerda aprender a usar o Google ou o Facebook, virará o jogo. Pura ilusão.

Não percebem que o problema fundamental é político.

Tudo o que está acontecendo tem profundas raízes sociais. E o principal fato da situação é a putrefação do capitalismo, um modo de produção em aguda senilidade. Hoje, como ontem, a crise demole o “centro democrático” e joga a ação política para os extremos radicais, fascismo contra-revolucionário e socialismo revolucionário.

A maioria da esquerda, emulando o avestruz, não quer se dar conta da situação. Preferem viver de ilusão para não ter que reagir à gravidade real da crise histórica. O “democratismo” burguês acabou. Mas libertar-se dessa concepção é, no fundo, deixar para trás todo um modo de vida. Poderiam os esquerdistas deixar a cômoda posição que adotaram nos últimos 30 anos para sujarem-se de lama ao lado do povo trabalhador? Colocaria o esquerdista seu pescoço em risco pela luta política?

A adaptação às posições da burguesia arrastará inevitavelmente a quem isso se aferrar cada vez mais às posições direitistas. Nunca foi tão necessária a independência política da esquerda, assim como nunca foi tão difícil acordar os dirigentes de seu “sonho de Cinderela”. A esquerda, deslumbrada com os salões frequentados na madrugada do último período, se vê pela manhã em meio à lama da marginalidade política.

A forçosa conclusão é a de que não há a difusão, a ampla propaganda, das ideias de esquerda, justamente porque há uma vacilação fundamental quanto à própria política de esquerda. Colocando de outra forma, trata-se de um dilema político. “Arriscar tudo para ser de esquerda ou acomodar-se e tornar-se de direita?” – eis a questão. Trata-se da mais grave tomada de posição, da definição de que lado do alambrado cada um estará no próximo período.

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Por tudo que acima foi exposto, conclamo os que imaginam tratar-se o problema de “propaganda insidiosa”, “lavagem cerabral”, “hegemonismo cultural” a pensarem uma segunda vez sobre a questão. Temos aqui um problema de resolução, de tomada de posição, que antecede uma campanha de agitação e propaganda. Portanto, sugiro que se dê menos relevo à consequência de uma ausência e que nos detenhamos por hora na causa da abstenção, pois aí reside o verdadeiro nó górdio que devemos desatar.

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