Mulheres indígenas de mais de 300 etnias realizam 1º marcha em Brasília contra o governo

"Território: nosso corpo, nosso espírito" é o mote dos atos que seguem até quarta; Ministro da Justiça, Sergio Moro, requisita presença da Força Nacional na Esplanada

Policiais tentaram impedir entrada de indígenas na Sesai. Foto: Juliana Pesqueira/Proteja Amazônia

Jornal GGN – A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Abip) coordena uma marcha e atos de mulheres indígenas de mais de 300 etnias, em curso desde sábado (10) em Brasília. O mote das manifestações que seguirão até esta quarta-feira (14) é “Território: nosso corpo, nosso espírito”.

Segundo os organizadores, cerca de 2.000 pessoas participam dos eventos. A Polícia Militar estima em torno de 1.500. Na segunda-feira (12), um grupo de mulheres indígenas ocupou durante todo o dia um prédio da Funasa (Fundação Nacional de Saúde) para protestar por melhorias na saúde indígena, especialmente das mulheres.

Em abril deste ano, o Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, anunciou o fim da Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI), municipalizando a responsabilidade os serviços de saúde à população. Os indígenas temem que esse movimento aumente ainda mais a precarização da saúde para eles.

O grupo de mulheres deixou o prédio da Funasa por volta das 19h30 de ontem, após reunião com Henrique Mandetta. As indígenas pediram também um encontro com a chefe da Secretaria Especial da Saúde Indígena (Sesai), Silvia Waiãpi, mas ela se recusou a atender as mulheres.

“Não estamos aqui porque é bonito ou fácil. Se não tem lugar para as mulheres indígenas, não vai ter pra ninguém. E falar de saúde das mulheres não é desconectado dessa luta. Temos medo de permanecer vivas sem dizer quem a gente é. A nossa herança sempre vai ser a luta”, disse Célia Xakriabá, da comissão organizadora, à Folha de S.Paulo.

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“Esse governo totalmente autoritário e conservador quer negar e explorar nossos territórios, negando nosso direito de existir. Viemos para marcar posição e mostrar que estamos alertas e vigilantes”, pontuou a líder indígena Sônia Guajajara, também da organização da marcha.

Ainda na segunda, um grupo de líderes indígenas foi até o Supremo Tribunal Federal (STF) para falar com a ministra Cármen Lúcia sobre as reivindicações dos direitos. Guajajara disse à Folha que a ministra foi receptiva às demandas e que, entre os assuntos abordados na reunião esteve o “marco temporal”, tese que enfraquece direitos dos indígenas a terras, defendida pelo governo Bolsonaro.

Na tarde desta terça-feira (13), os manifestantes realizam um seminário na Câmara dos Deputados.

Preocupado com os atos, o governo Bolsonaro mobilizou a Força Nacional para realizar a segurança na Esplanada dos Ministérios e da Praça dos Três Poderes. A portaria, assinada pelo ministro da Justiça, Sergio Moro, foi publicada no Diário Oficial da União e tem validade até quarta-feira (14).

Em abril, durante os atos da 15ª edição do Acampamento indígena Terra Livre, Moro também requisitou o uso da Força Nacional. A marcha das mulheres indígenas que acontece agora em Brasília é a primeira no histórico das manifestações dos povos originários.

O governo Bolsonaro tem atuado no sentido de reduzir ainda mais os direitos desta população. Logo no início da gestão, o presidente tentou transferir da Fundação Nacional do Índio (Funai) para o Ministério da Agricultura a demarcação de terras indígenas.

Ele próprio fez reiteradas declarações defendendo a mineração em terras indígenas e ainda questionou o assassinato de um índio no Amapá. A alocação de uma indígena, Silvia Waiãpi, para um cargo no governo é apontado por lideranças do movimento como uma forma de dividir os povos. Silvia também é militar e vem demonstrando aversão às pautas sociais indígenas históricas.

Não parando por aí, nesta segunda-feira (12), durante viagem ao Rio Grande do Sul, Bolsonaro declarou que o licenciamento de obras é prejudicado por causa do “cocozinho petrificado de um índio”.

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“Há anos um terminal de contêiner no Paraná, se não me engano, não sai do papel porque precisa agora também de um laudo ambiental da Funai. O cara vai lá, se encontrar —já que está na moda— um cocozinho petrificado de um índio, já era. Não pode fazer mais nada ali. Tem que acabar com isso no Brasil. Tem que integrar o índio na sociedade e buscar projeto para nosso país”, disse Bolsonaro.

Esta semana também está sendo marcada pela Marcha das Margaridas, ato tradicional em defesa dos direitos das mulheres, realizado anualmente por trabalhadoras rurais. O marcha acontece na quarta-feira (14), e as manifestantes começaram a chegar em Brasília nesta terça.

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