A solução vem do sul e é o combate à desigualdade, por Jorge Alexandre Neves

No meu texto publicado aqui no GGN em 30 de junho último, ressaltei a importância do discurso do presidente Lula em Paris.

Ricardo Stuckert/PR

A solução vem do sul e é o combate à desigualdade

por Jorge Alexandre Neves

Há pouco mais de dois meses, publiquei um texto aqui no GGN no qual prometia uma continuação (https://jornalggn.com.br/artigos/lula-esta-certo-e-a-desigualdade-progressistas/). Demorou, mas estou trazendo a segunda parte de minha reflexão sobre o tirocínio do presidente Lula ao estar, como nunca antes, centrando seu discurso na importância do combate à desigualdade, buscando elevar esta questão, inclusive, para um debate em escala global (embora os últimos trabalhos de Branko Milanovic mostrem que a desigualdade tem aumentado dentro dos países, ao mesmo tempo que tem diminuído entre países, a questão da desigualdade se mantém global).

Este texto é, em certa medida, uma resenha crítica combinada de três livros publicados nos últimos anos (1). Ele trata de uma tensão existente hoje entre correntes progressistas no hemisfério ocidental, qual seja, o conflito – ao meu ver desnecessário – entre as pautas tradicionais da esquerda, centradas nas desigualdades de classe, e as pautas identitárias. Meu ponto de partida é o terceiro capítulo – mas não só ele – do livro de Sandel (2020), no qual há uma tentativa de entender a vitória de Trump sobre Hillary Clinton, em 2016, como consequência da erosão dos valores progressistas e da esfera pública nos EUA.

Sandel (2020) vê a ascensão de Trump como consequência de um processo semelhante àquele identificado por Nancy Fraser como “neoliberalismo progressista” (https://www.dissentmagazine.org/online_articles/progressive-neoliberalism-reactionary-populism-nancy-fraser/), o enfoque das forças progressistas dos EUA em pautas identitárias, acomanhado do abandono das pautas tradicionais focadas nas desigualdades de classe e da aproximação de grupos e interesses do mercado financeiro. Sandel (2020) mostra como, a partir da “revolução neoliberal” de Tatcher e Reagan, as forças progressistas dos EUA capitularam diante do discurso individualista e “meritocrático” da direita liberal. Os governos democratas de Bill Clinton e Barack Obama (e o mesmo está ocorrendo hoje com Joe Biden, o que talvez mostre que Nancy Fraser estava errada ao acreditar que o “neoliberalismo progressista” havia acabado com a vitória de Trump) não enfrentaram de forma minimamente firme o longo ciclo de queda da participação do trabalho na renda nacional estadunidense, com quedas permanentes do valor real do salário e elevação brutal da desigualdade de renda. Aceitaram como legítimo – e quase inevitável – um modelo econômico que leva à destruição de oportunidades ocupacionais de melhor qualidade para trabalhadores sem altos níveis de qualificação e multiplica processos de mobilidade intergeracional descendente, em particular entre homens brancos sem formação universitária (como vão ressaltar Case e Deaton, 2020). A deterioração da qualidade de vida da classe trabalhadora branca nos EUA preparou o terreno perfeito para a ascensão do discurso neofascista, marcado por suas soluções simplórias e identificação de inimigos imaginários, que seriam responsáveis pelos problemas vividos por essa enorme massa de indivíduos. Abandonados à própria sorte pelos democratas e pelos republicanos tradicionais, em um país onde a esquerda trabalhista historicamente teve pouco espaço e força, a classe trabalhadora branca embarcou facilmente na barca neofascista liderada por Trump.

Outro ponto importante ressaltado por Sandel (2020) é que, ao longo do tempo, as lideranças políticas estadunidenses, em particular as progressistas, tornaram-se excessivamente e crescentemente tecnocráticas, com enorme dificuldade de comunicação com o povo comum das entranhas do país. Isso veio complementar o que ele chamou de “tirania do mérito”, fazendo a classe trabalhadora branca dos EUA enxergar as lideranças políticas tradicionais, incluindo as progressistas, como elitistas.

O livro de Sandel (2020) – professor de filosofia na Universidade Harvard – não tem a pretensão de produzir forte fundamentação empírica baseada em dados estatísticos para sua tese central. Todavia, acredito que esses dados podem ser encontrados no livro de Case e Deaton (2020). Este casal, ambos docentes de economia da Universidade Princeton, começou a mostrar, a partir de 2015 (curiosamente, o ano em que Deaton ganhou o Prêmio Nobel), pela primeira vez, evidências bem fundamentadas de que os EUA estavam vivendo um processo de elevação da mortalidade e queda da expectativa de vida em função de uma “epidemia” de mortes de homens brancos, de meia idade e sem formação universitária. Quais as principais causas mortis que estavam crescendo nesse segmento da população? Eram três: alcoolismo, overdose de heroína e suicídio! Não é à toa que o casal deu a seu livro o nome de “mortes de desespero”. Os dados estatísticos do livro de Case e Deaton (2020) dão a dimensão do cenário socioeconômico dramático que tem servido de solo fértil para a consolidação do neofascismo nos EUA, e que é discutido no livro de Sandel (2020).

Finalmente, o livro de Neiman (2023), pesquisadora do Einstein Forum (um centro de pesquisa federal da Alemanha), traz uma reflexão dura e polêmica – a partir da posição de uma filósofa que se autodenomina como socialista – da chamada cultura woke (ver: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-63547369), que, para nós brasileiros, seria, fundamentalmente, a prioridade para as questões identitárias. Neiman se mudou dos EUA – onde nasceu, estudou e iniciou sua carreira acadêmica – para a Alemanha, há duas décadas. No país europeu é vista como uma judia antissemita, por sua postura antissionista. Em última instância, e aí talvez esteja um dos elementos mais polêmicos de seu pensamento, Neiman termina por quase igualar a cultura woke ao sionismo, por considerá-los igualmente “tribalistas”, em oposição ao universalismo que seria indispensável ao pensamento de esquerda (2).

Assim como Sandel (2020), Neiman (2023) também busca explicar a ascensão da extrema direita trumpista nos EUA. Para ela, o fenômeno seria resultante da substituição do universalismo tradicional dos valores progressistas, centrados no conceito de luta de classes, pela cultura woke.

No meu texto publicado aqui no GGN em 30 de junho último, ressaltei a importância do discurso do presidente Lula em Paris. Ao centrar sua retórica no combate à desigualdade, ele escapa das tensões expressas nos três livros citados acima. A solução para o embate vivido pelas forças progressistas nos países ocidentais do norte industrializado, em particular nos EUA, vem do sul e está no discurso do presidente Lula, trata-se do combate a todas as formas de desigualdade. Se de um lado tem-se provado mortal para as forças progressistas relegar a segundo plano as desigualdades de classe, também seria um grande erro da esquerda abandonar completamente as pautas identitárias. Por duas razões: a) a primeira é normativa, as desigualdades raciais e de gênero são fenômenos reais e estruturais (3) e precisam ser combatidas; b) a segunda é pragmática, a esquerda não pode abrir mão dos “votos identitários” (costumo perguntar a amigos de esquerda se Lula teria vencido as eleições do ano passado sem esses votos), que podem, sim, ser cooptados pela centro-direita liberal.

O presidente Lula consegue manter-se equilibrado entre as duas pautas progressistas. Não será com as pautas identitárias que ele conseguirá trazer de volta para a base progressista muitos daqueles – em particular evangélicos, mas também pessoas que confessam outras religiões – membros das classes trabalhadoras que foram atraídos pelo bolsonarismo, mas será pelas políticas de combate às desigualdades educacionais, ocupacionais e de renda, inclusive criando recursos e processos que facilitem o empreendedorismo. Por outro lado, busca avançar a tolerância e a diversidade, através de atos simbólicos, como o da subida da rampa no dia da posse, mas também de atos concretos, como a formação de um ministério diverso, embora ainda bastante distante dos desejos dos movimentos identitários, como a paridade de gênero.

Vale a pena ressaltar que não é só o presidente Lula que mostra que, felizmente, as forças progressistas brasileiras não se deixaram contaminar por completo pelo sectarismo existente nos países industrializados do hemisfério norte. Gostaria de citar três eventos: a) o discurso de posse do ministro Sílvio Almeida, com sua amplitude de fundamentos de justiça; b) um discurso recente do deputado estadual Renato Freitas, reconhecida liderança negra, na Assembleia Legislativa do Paraná, no qual ele usou as mães da praça de maio (um grupo de mulheres brancas) como exemplo de resistência política (eu gostaria de perguntar a uma liderança negra ou feminista dos EUA: você não se sensibiliza com as “mortes de desespero” de homens brancos? Se a resposta for não, serei obrigado a concordar com a crítica de Neiman ao tribalismo da cultura woke); c) uma fala recente da deputada federal Erika Hilton, que ressaltou o combate a todas as formas de desigualdade como fundamentais para o processo civilizatório brasileiro.

Encerro este texto ressaltando que o presidente Lula também representa, como nenhuma outra liderança progressista do mundo hoje, tudo aquilo que Sandel (2020) lamenta ter desaparecido nos EUA, lideranças progressistas populares, que conseguem se comunicar com segmentos majoritários da população defendendo valores de busca da igualdade, mas também do respeito às minorias e de aceitação da diversidade. É muito fácil se comunicar com amplos segmentos de baixo nível socioeconômico das sociedades com discursos neofascistas baseados no ódio ao outro e na identificação de bodes expiatórios. Conseguir fazer essa comunicação com valores humanistas profundos, por sua vez, é excepcional. Esta é uma marca fundamental do lulismo, que não pode morrer com a saída do presidente Lula da vida pública. O presidente Lula salvou o Brasil da consolidação do neofascismo, ao derrotar Bolsonaro em 2022. O lulismo – com sua capacidade incomum de equilibrar as pautas tradicionais da esquerda com as pautas identitárias –, por sua vez, pode imunizar o Brasil contra o neofascismo por muitas décadas. A questão que se impõe é: quem vai cuidar dessa tarefa?

  •  Referências:

Case A. e Deaton A. Deaths of Despair and the Future of Capitalism. Princeton, NJ: Princeton University Press; 2020.

Neiman, S. Left is not Woke. Hoboken, NJ: Polity Press, 2023.

Sandel, M. The Tyranny of Merit: What’s Become of the Common Good? Londres: Penguin Books; 2020. (Este livro já foi traduzido para o português).

Jorge Alexandre Neves

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  1. É possível atacar, ao menos parcialmente, a Desigualdade, dentro de uma ótica socialista, entendida esta como uma prática política que contemple as necessidades de todos os extratos da sociedade, senão igualmente, pelo menos quantitativamente em relação à extensão das necessidades peculiares de cada um desses extratos. O que Lula e Haddad não enxergam de forma aguda é que o combate à Desigualdade, dentro de um sistema capitalista, sofre uma ‘sabotagem’ estrutural, inerente à própria dinâmica do Capitalismo. O combate à Desigualdade é uma ilusão de ótica que consiste meramente em acenar com a sua própria possibilidade. Não há nem haverá Igualdade Social em qualquer regime de economia aplicado aqui no planeta Terra. Os anticomunistas de plantão saem esbravejando, ao primeiro sinal de políticas de combate à desigualdade, se esta acabou em Cuba, na Rússia, ou na Venezuela; precisamente porque sabem que não há sociedade humana sem desigualdade. Se se coloca como lema a frase de Marx, “a cada um segundo sua necessidade, de cada um segundo sua capacidade”, já se está admitindo, explicitamente, que mesmo em uma sociedade comunista – sem classes e sem exploração do trabalho – haverá diferentes graus de ‘necessidades’ e ‘capacidades’. O Capitalismo elimina, pura e simplesmente, essa preocupação; e o Socialismo, uma vez submetido às vicissitudes dos meios de produção e à dinâmica do Capital que os põem em movimento, sempre se verá obrigado a intervir aqui e ali, gerando a reação do Capital, que ora se recolherá, ora se desviará para o leito tranquilo das finanças, ou na pura e simples manutenção do status quo. Da mesma forma, as nações hegemônicas, ao menor sinal dessas mesmas políticas, imediatamente sabotarão, de todas as formas possíveis e imagináveis, essas políticas – porque a hegemonia se sustenta na desigualdade e na assimetria. Se você faz um discurso brando contra essa situação, os líderes dessas nações ouvirão com respeito e um mínimo de desconforto, seguidos de efusivas exaltações ao discurso. A alternativa é fazer como Patrice Lumumba fez na frente do Rei Balduíno da Bélgica – e sabemos o fim de Lumumba. A Desigualdade pode ser mitigada, combatendo a exploração do trabalho, e estabelecendo condições de competição comercial menos escorchantes para os países ditos ‘emergentes’, e uma relação menos distorcida entre países fornecedores de produtos industrializados e de alta tecnologia e os exportadores de commodities e matérias-primas. Mas fazer isso significa permitir que esses emergentes se transformem, eles mesmos, se não em países hegemônicos, ao menos em concorrentes mais fortes em relação a essas nações mais poderosas. E ninguém suporta perder poder. A Ordem Mundial sempre se baseou, de uma ou outra forma, na Desigualdade. Imaginar que poderemos, um dia, viver uma Era de Igualdade – e Justiça, e bem estar generalizado – dentro da atual Ordem Mundial Capitalista é, mais que utópico, tolo. Capitalismo e Igualdade não podem conviver. Capitalismo e Desigualdade são complementares. Minimizar a Desigualdade é o único objetivo real – e só se poderá alcançá-lo quando não houver mais Capitalismo. Se a alternativa é o Socialismo, não sei; nunca o vi posto em prática. O Capitalismo, esse sim, todos já o vimos e conhecemos, e sabemos o que ele tem a oferecer: exploração e desigualdade. Sob a forma de pobreza e guerras.

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