Primeira fala de Bolsonaro após eleições preparava ânimos e dava indicativos de golpe

Hoje, Bolsonaro isola militares aliados em intentos golpistas. Em dezembro de 2022, dizia que as Forças Armadas eram "último obstáculo para socialismo"

Foto: Arquivo/DW

Hoje lavando as mãos e responsabilizando outros ou qualquer membro de seu governo pela tentativa de golpe, a primeira manifestação do ex-presidente após a derrota nas eleições de 2022, revisitada, à luz do conteúdo das investigações e as suas próprias falas na reunião de julho de 2022, revelam a preparação do terreno para o golpe.

Neste final de semana, em entrevista à TV Record, Jair Bolsonaro chegou a responsabilizar o general Augusto Heleno, arrolado no inquérito. O militar era chefe do Gabinete de Segurança Institucional e um dos seus braços direitos.

A proposta de espionar a campanha eleitoral de Lula que hoje se tem conhecimento pela reunião de 5 de julho de 2022, seria, segundo Bolsonaro, um “trabalho de inteligência” do general Heleno, “que eu não tinha participação nenhuma”, afirmou.

Mas em dezembro, naquela primeira fala após derrota nas urnas, Jair Bolsonaro preparava os ânimos dos apoiadores para a tentativa de golpe, deixando claro que era chefe das Forças Armadas, que os militares seriam o “último obstáculo para o socialismo”, indicando que algumas decisões não dependiam “exclusivamente” dele e desculpando-se “se algo desse errado”.

Foi a primeira aparição e fala do presidente derrotado aos seus apoiadores. Não por coincidência, chegava ao lado de Braga Netto, ex-ministro da Casa Civil e também fortemente envolvido nas articulações de golpe, como se pode confirmar nas mensangens trocadas junto a integrantes do governo.

No dia 9 de dezembro, os bolsonaristas presentes faziam gritos de contestação das eleições e pediam, diretamente, a intervenção das Forças Armadas. E Bolsonaro dava a eles a resposta:

“Eu falei que viria aqui para ouvi-los. Se estou aqui é porque, primeiro, acredito em Deus. Em segundo lugar, que devo lealdade ao povo brasileiro. A missão de cada um de nós aqui não é criticar, é unir.”

O então mandatário fez questão de enfatizar que era o chefe das Forças Armadas e que os militares eram “o último obstáculo para o socialismo”.

“Tenho certeza que, entre as minhas funções garantidas na Constituição, é ser o chefe supremo das Forças Armadas”, falou, sendo ovacionado. “As Forças Armadas são essenciais em qualquer país do mundo. Sempre disse, ao longo desses quatro anos, que as Forças Armadas são o último obstáculo para o socialismo.”

Naquele episódio, outra fala que chamou a atenção dos meios de comunicação foi d de Bolsonaro se desculpando pelos seus erros, sem deixar claro quais eram. Hoje analisando o discurso, é possível compreender que ele indicava que tomaria decisões que não dependiam “exclusivamente” dele e já se desculpava “se algo desse errado”:

“As decisões, quando são exclusivamente nossas, são menos difíceis e menos dolorosas. Se algo der errado, é porque eu perdi a minha liderança.”

Após ficar mais de um mês sem se pronunciar, Bolsonaro foi criticado por apoiadores e bolsonaristas que iam às ruas se manifestar contra o resultado eleitoral, pelo seu silêncio. Aos apoiadores, disse que se responsabilizava pelos erros e pedia que “não critiquem sem ter certeza absoluta do que está acontecendo”.

Leia mais:

Patricia Faermann

Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile, repórter de Política, Justiça e América Latina do GGN há 10 anos.

1 Comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Que vídeo grotesco não só pelas falas asquerosas do ex presidente como de seus apoiadores tresloucados.Uma mulher começa a falar no meio do discurso e um homem com voz “viril” manda ela calar a boca.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Seja um apoiador