Os conselhos de participação e as bolhas da Internet, por Luis Nassif

A grande bandeira contra a selvageria das redes sociais será a construção de modelos reais de participação que diluam o poder absoluto dos organismos centrais.

Em uma das entrevistas que fiz com mestre Wanderley Guilherme dos Santos, ele apresentou a face boa do multipartidarismo. Mesmo partidos sem expressão, quando organizavam seus diretórios no interior, substituíam a luta selvagem pela luta política. Ou seja, eram instrumentos civilizatórios para organizar a política.

Quando se analisa a situação política, hoje em dia, se percebe que a base sanguinolenta de Bolsonaro vem do público que desacreditou em toda forma de política e que, hoje em dia, se considera empoderado pelo simples fato de receber mensagens diretas pelo WhatsApp.

A crise política atual tem dois ingredientes fatais. Numa ponta, a falsa sensação de participação política proporcionada pelas redes sociais. Não são mais votos de dois em dois anos, mas likes instantâneos sobre assuntos dos mais diversos, nos quais o conhecimento foi uniformizado por baixo. Mas os líderes prestam contas de seus atos. Na outra, a incapacidade do modelo político de integrar grupos de interesse às causas maiores.

Dia desses conversava com minha irmã mais engajada, a Fátima, brava militante dos movimentos pela saúde. O caminho para essa participação teriam sido os conselhos sociais. Foram esses grupos temáticos, na saúde, assistência social, habitação, educação, que revolucionaram as políticas públicas brasileiras, nos momentos em que ganharam espaço para respirar, quando o PT ainda era um partido ônibus. Foi assim nas gestões Luiza Erundina e Martaa Suplicy, em São Paulo, em algumas experiências mineiras e gaúchas. Foi assim no início do governo Lula.

Essa revolução ocorreu com as soluções brotando das discussões de cada grupo que, depois, se integraram ao partido ônibus do PT, mas sem perder a identidade. Tome-se o caso da saúde, a maior política pública brasileira. O partido da saúde sempre teve vida própria e se mantinha incólume em diversos governos tucanos e petistas – dois partidos que abriram espaço para essa diversidade

Sempre tive muito entusiasmo pelos sistemas participativos, das conferências nacionais e conselhos de participação. Na teoria, o modelo era perfeito. Organizavam-se encontros municipais sobre cada tema. Depois, encontros estaduais que uniformizavam as demandas de aplicação geral. Finalmente, os encontros nacionais. Desses encontros saiam conclusões gerais e regras de boas políticas para o setor. E o poder central distribuiria os recursos de cada área de acordo com o compromisso, na ponta, de cumprimento das deliberações.

É um modelo vitorioso, em políticas públicas ou mesmo para grandes organizações privadas e que, aparentemente, está se consolidando como um padrão no Nordeste.

Mas, segundo a Fátima, fora os grandes eventos nacionais, na prática os conselhos não tinham voz ativa. Pouco deliberavam e, por isso mesmo, não atraiam participação. Na hora da distribuição dos recursos, a política falava mais alto do que os compromissos com os objetivos propostos.

No governo FHC, pouco foram considerados. Nos governos Lula, acabaram perdendo vitalidade pelo fato de se ter um governo a favor. Só agora, com a ameaça evangélica de tomar os conselhos tutelares, houve uma mobilização maior em sua defesa.

Lembro-me de uma polêmica forte com a Ministra Maria do Rosário,  quando uma ONG de Salvador (BA) endossou uma armação da Globo contra as adoções em Monte Santo e, depois, contra uma juíza em Santa Catarina, exclusivamente devido à disputa política pelo controle dos conselhos. O objeto maior, o bem estar das crianças, foi jogado para segundo plano por uma aliança política espúria.

Foi assim em quase todas as políticas públicas. Havia boa vontade, recursos, mas não se abria mão do direcionamento político.

Bem que o mais lúcidos dos petistas, Gilberto Carvalho, tentou dar uma nova vitalidade ao modelo, com o projeto de unificar as propostas dos conselhos em um site, e monitorar os resultados em cada Ministério forte. Mas bastou a mídia falar em bolivarizaçao para a iniciativa morrer dentro do governo.

Agora, entra-se em uma quadra política em que todas as conquistas sociais, todas as políticas desenvolvidas por esses grupos estão sendo destruídas, com pouca reação por parte do público mais amplo, da capital ao interior mais profundo. Ou seja, o público não entendeu esses conselhos como uma conquista sua. Ao mesmo tempo, pelas redes sociais consolidam-se as bolhas e os simulacros de participação política através dos likes e da promoção do senso comum mais primário.

Daí, vêm as lições da nova democracia europeia. A grande bandeira contra a selvageria das redes sociais será a construção de modelos reais de participação que diluam o poder absoluto dos organismos centrais. A democracia precisa se aprofundar e se espalhar por todos os cantos do país. É a partir daí que as bolhas de Internet passaram a ser civilizadas para que caminhem em busca de soluções concretas para os problemas do país.

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5 comentários

  1. Vamos ser francos. O PT deu o melhor a estas aspirações, que se enfraqueceram por que o PT as assumiu e eles acharam, como é normal, isto muito bom, muito tranquilo. Houve até ciume contra o PT, houve interesses contrariados dos que lutavam pelos necessitados e viram o PT à frente deles, e desleixo pelo fato de o PT abraçar TODAS as suas aspirações.
    O desmanche atual deste virtuoso modelo é o maior testemunho do valor das ações do PT. Alguma dúvida?

    • Inclusive o narigudo sabe que nas próximas eleições o discurso da inclusão vai ser forte, e por essa razão já está roubando o discurso da esquerda…

  2. ta´a í nessa politica inclusiva a essencia
    do jeito petista de governar…
    quem não entende isso, não entende o pt….

  3. Depois de ser implantada em Atenas para dissolver as tensões políticas criadas pelo Sinecismo (reunião forçada das populações de diversos vilarejos dentro das muralhas da cidade-estado para fazer frente à invasão persa) a democracia se tornou ela mesmo uma fonte de tensão política dentro e fora de Atenas. Derrotados os persas, os atenienses implantaram seu regime político a força nas cidades estados menores que caíram na sua influência. O imperialismo naval-político-ideológico ateniense produziu conflitos que resultaram em mortes e em desterros dos partidários dos regimes oligárquico e aristocrático em diversos locais. À medida que Atenas crescia em poder, Esparta passou a temer pela sua própria existência. O resultado foi a Guerra do Peloponeso que estraçalhou a Grécia e levou à derrota de Atenas, à demolição de suas muralhas, à destruição de sua frota naval e, evidentemente, à restauração de um governo não democrático após o período de ditadura espartana na cidade de Sócrates. Quando Roma invadiu a Grécia todos os regimes democráticos que ainda existiam foram simplesmente destruídos, pois os romanos acreditavam na virtude da preservação de uma rígida hierarquia social, política e econômica. A democracia nunca foi um regime tranquilo. Ele certamente não é tranquilo no Brasil. Quanto mais pessoas forem incluídos nos debates políticos menor será a tranquilidade da democracia brasileira. O golpe de estado contra Dilma Rousseff é uma prova satisfatória disso. Mesmo assim, continuarei defendendo a democracia. Fora dela só existe uma coisa: barbárie.

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