Por Uma Redução da Jornada de Trabalho Semanal, por Fernando Nogueira da Costa

O custo de produção por unidade baixa tanto a ponto de ser possível pagar por seis horas diárias o mesmo pago antes por oito.

Por Uma Redução da Jornada de Trabalho Semanal

por Fernando Nogueira da Costa

O ser humano está, constantemente, comparando com outros. Quando faz isso, gosta de se colocar acima. Afeta sua autoestima ficar abaixo.

Os psicólogos chamam isso de “Síndrome da Superioridade Ilusória”. A maioria das pessoas acredita ser melhor face à média em quase tudo feito por si próprio.

Evidentemente, isso não é possível, devido ao significado de “média”. Mesmo assim, as pessoas se sentem superiores. A maioria se considera mais inteligente, se comparada à média, assim como mais trabalhadora e com mais habilidades sociais.

A comparação com outras pessoas motiva a ação política. Mobiliza protestos, greves, talvez até revoltas.

Mas também, se sempre o sentimento é de “ser inferior”, pode paralisar essas pessoas com complexo de inferioridade ao sentirem ser menos capaz em relação aos outros. Causa ressentimento e provoca o afastamento e/ou o isolamento, revoltadas com o sistema de castas exclusivo – ou “o jogo de cartas-marcadas”.

Por sua vez, sentir-se melhor em relação aos outros é estimulante, nos motiva a proteger essa posição. Isso tem consequências importantes para a política, isto é, nossas ações coletivas.

Entretanto, se os ricos e os pobres se distanciam cada vez mais, muitos consideram idiotas as pessoas do outro lado ideológico. Os politicamente engajados a gritarem com os outros sobre a necessidade de ação política são, muitas vezes, só os afortunados.

Conforme a desigualdade tem aumentado nas últimas décadas, o interesse político e a participação ou o ativismo político entre os pobres têm despencado. Talvez a submissão religiosa à casta de sabidos-pastores a tenha substituído. O rebanho seguiria a orientação política, dada pelo guia espiritual, de votar na “bancada da bíblia”.

Esses políticos evangélicos eleitos têm extraordinária mobilidade sociedade, somando grandes vencimentos à repartição dos dízimos. Porém, defendem uma pauta de costumes conservadores em vez de defender os interesses relevantes do povo pobre, isto é, os párias excluídos do sistema de castas conforme a natureza da ocupação.

Keith Payne, em palestra na TED, ressalta a heurística chamada de “assimetria entre ventos”. Quando enfrentamos ventos contrários, percebemos e lembramos desses obstáculos. Mas quando o vento está a nosso favor, notamos apenas nós mesmos e nossos próprios talentos incríveis.

Temos de reconhecer os ventos favoráveis terem nos ajudado, por exemplo, heranças, escolas e universidades públicas, bolsas de estudo, livros baixados de graça na web, etc. Em vez disso, o movimento reacionário de defensores da “supremacia branca” cultiva o sistema de castas, claramente nos Estados Unidos, e de maneira camuflada no Brasil.

Raça é uma invenção de distinção por parte dos descendentes dos Sapiens. Artificialmente, inventaram outras “raças” de humanos, baseadas na superficial cor-da-pele, em substituição às demais raças humanas, extintas por catástrofes ecológicas.

Isabel Wilkerson, em seu livro Caste (2020), levantou em sua pesquisa oito pilares do sistema de castas nas Américas. A vontade divina e as leis da natureza são a justificativa religiosa e pseudocientífica do sistema de casta. Outros pilares são: herdabilidade (qualidade de ser herdável por se transmitir à descendência); endogamia e o controle do acasalamento; pureza das castas e poluição dos párias (santidade da água, hierarquia de rastreamento consanguíneo, corrida para ficar dentro de “a supremacia branca”, impureza e constância do nível inferior); hierarquia ocupacional; desumanização e estigma; terror e crueldade; superioridade versus inferioridade inerente.

Se o leitor estiver no grupo acima da média, em padrão de vida, na próxima vez, se pensar alguém discordar de você por ser um idiota, pense nos ventos favoráveis terem ajudado você a chegar à situação social onde está. Além do esforço próprio, é claro. Qual golpe de sorte teve de modo a possibilitar você se diferenciar? Sorte do berço?

Reconhecer esses ventos favoráveis nos dá a humildade necessária para ver a discordância de nós não tornar as pessoas idiotas. Os afortunados pelo sistema de castas de natureza ocupacional (e racista) têm o poder e a responsabilidade de mudá-lo.

Como? Li outro autor, Rutger Bregman (Utopia para Realistas, 2018), e, como dito, a gente acha quem tem ideias semelhantes às nossas uma pessoa genial. No caso, imagino qualquer pessoa racional ter a capacidade de deduzir: dado o extraordinário aumento de produtividade, produzida pela 4ª. Revolução Tecnológica, propiciado pela automação e robótica em substituição ao trabalho humano, elevando a produção de quem fica ocupado, uma solução para diminuir a desocupação e elevar o bem-estar social é a redução da jornada de trabalho semanal.

Argumentos de autoridade em favor disso seriam os seguintes. John Maynard Keynes, durante a Grande Depressão dos anos 30 no século XX, anunciou: “se políticos não cometessem erros desastrosos (como austeridade fiscal durante uma crise econômica), dentro de um século, o padrão ocidental de vida terá se multiplicado ao menos quatro vezes em relação ao de 1930”. Em 2030, estaríamos trabalhando apenas 15 horas por semana. O problema se tornaria o que fazer com maior tempo livre.

Um século e meio antes, Benjamin Franklin, um dos fundadores da nação norte-americana, já havia previsto uma jornada diária de quatro horas ser suficiente por dia e, no restante do tempo, a vida deveria ser somente “lazer e prazer”. Karl Marx, de maneira semelhante, ansiava pelo dia quando todos teriam tempo para “caçar de manhã, pescar à tarde, cuidar dos animais ao anoitecer e discutir com um olhar crítico no jantar… sem nunca ter de se tornar caçador, pescador, pastor ou crítico”.

Na mesma época, o pai do liberalismo clássico, o filósofo britânico John Stuart Mill, argumentava o melhor uso de uma riqueza maior seria mais lazer criativo. Ele se opunha ao “evangelho do trabalho”.

Henry Ford, fundador da fábrica de automóveis, tornou-se o primeiro empresário a implementar a jornada de trabalho de cinco dias por semana. Deduziu: uma jornada semanal mais curta, na verdade, aumentaria a produtividade de seus empregados. Tempo para o lazer era um “fato empresarial incontestável”.

Um trabalhador bem descansado e bem-educado era um trabalhador mais eficiente. Além disso, um empregado sem tempo livre para viajar e passear de carro, jamais compraria um dos seus produtos. Salário é custo, mas é também demanda.

Em 1933, o Senado americano aprovou legislação com a jornada semanal de 30 horas. Porém, na Câmara de Deputados, sob pressão da indústria, não foi aprovada. Em 1938, sob pressão sindical, a jornada semanal de cinco dias finalmente foi aprovada.

A partir dos anos 1980, com a Era Neoliberal, as reduções na jornada de trabalho semanal praticamente cessaram. O crescimento econômico não se traduziu em mais tempo para o lazer criativo, e sim em mais consumo.

Com o ingresso das mulheres no mercado de trabalho, se considerarmos o trabalho não remunerado, elas trabalham mais em lugar dos homens. Com elas dominando o mercado de trabalho, os homens deveriam passar menos tempo trabalhando e passar mais tempo cozinhando, limpando e cuidando da família.

Os casais trabalhavam, antes da Revolução Feminista, um tempo combinado de 5 dias por semana, depois, aproxima-se de 8 dias. A Reforma da Previdência esticou os anos de trabalho pelo menos até a idade mínima de 65 anos para os homens se aposentarem.

Além disso, horas de trabalho e lazer estão ficando cada vez mais difíceis de separar. Graças à tecnologia moderna, gerentes e profissionais liberais hoje passam 70 horas ou mais por semana ou trabalhando e se mantendo acessíveis ao monitoramento.

Nós não estamos morrendo de tédio por excesso de tempo livre. Estamos morrendo de tanto trabalhar! Psicólogos e psiquiatras não está lidando com o enfado por ócio, mas sim com uma epidemia de estresse.

Ao introduzir a jornada diária para seis horas em uma fábrica, consegue-se contratar empregados a mais e reduzir de forma drástica a taxa de acidentes de trabalho. Além disso, os empregados se tornam muito mais produtivos. O custo de produção por unidade baixa tanto a ponto de ser possível pagar por seis horas diárias o mesmo pago antes por oito. Ao sobrar mais tempo livre, inclusive para estudar, o trabalho se torna menos alienado, porque os trabalhadores se envolvem mais com a criação do produto.

Quem trabalha menos e ganha o mesmo fica mais satisfeito com sua vida, ou seja, sofre menos estresse. Redução da carga horária de trabalho semanal também reduziria à metade o CO2 emitido neste século. Horas extras são mortais, menos horas reduziriam acidentes de trabalho. Compartilhar trabalho com menor jornada aumenta o emprego. Propicia emancipação feminina com melhor divisão de trabalho doméstica. Alonga a vida ativa dos trabalhadores por estes não desejarem ficar inativos em aposentadoria.

Os países com as maiores disparidades em riqueza têm as jornadas de trabalho mais longas. Enquanto os pobres estão trabalhando cada vez mais horas só para sobreviver, os enriquecidos estão descobrindo, à medida que o valor da hora trabalhada deles aumenta, torna-se mais “caro” para eles tirar folga. Aumenta o custo de oportunidade.

A “classe ociosa”, no século XIX, recusava trabalhar para não perder seu status social, dedicado ao consumo de luxo. O tempo cura todas as feridas, exceto a do desemprego. Quanto mais tempo a pessoa fica fora do mercado de trabalho, ela se estressa mais – e acusa “os outros” por fraudar os costumes conservadores do sistema de castas privilegiadas.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Autor de “Bancos e Banquetas: Evolução do Sistema Bancário com Inovações Tecnológicas e Financeiras” (2021). Baixe em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

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