Entre a vida e a economia, há mais escolhas que não estão lhe contando, por Fernando Horta

O “social distancing” tenta salvar APENAS a classe média urbana, capitalista e rica do país. Basta ver a campanha nas televisões.

Entre a vida e a economia, há mais escolhas que não estão lhe contando

por Fernando Horta

Há dois projetos de enfrentamento da crise do COVID19 no mundo ocidental. A disputa entre Bolsonaro e Doria vai muito mais além do que o interesse eleitoral. Entre o “herd immunity” (projeto do Bolsonaro) e o “social distancing” (projeto do Dória) há a classe trabalhadora para quem nenhum dos dois projetos traz qualquer sombra de solução da crise ou melhora de vida. É preciso que os trabalhadores e a esquerda brasileira tomem a frente para determinar o futuro que teremos. E ele está vindo muito rápido.

Litros de tinta já foram gastos para explicar que o sistema capitalista vive de crises. Uma atrás da outras, as crises têm um papel importante num sistema cuja base é a ideia de que tudo no mundo só tem valor pela sua escassez. A pandemia do Coronavirus (COVID19) não tem papel diferente, no capitalismo, do que as crises de 2008 ou de 2010. A recessão mundial que virá já era prevista há, pelo menos, dois anos. Muito antes, portanto, de qualquer ideia de pandemia. Dizer que a recessão mundial é causada pelo coronavirus é desconhecer a história econômica do mundo nos últimos 200 anos. É uma mentira semelhante a de Paulo Guedes quando diz que o Brasil “estava decolando” antes do vírus.

Não estava. A verdade é que o vírus fez tão somente o que as políticas neoliberais de Guedes e Bolsonaro fariam em dois anos. A pandemia é apenas catalizadora do processo todo e não criadora.

O mundo capitalista ocidental apresenta dois projetos como solução para a pandemia: o primeiro, chamado “herd immunity”, e o segundo, o “social distancing”. Nenhum dos dois pretende se preparar para crises semelhantes no futuro. Nenhum dos dois se preocupa efetivamente com os problemas do presente (mortes, crise econômica, caos social, pobreza, tensões urbanas e etc.), e ambos preparam o mundo pós-pandemia a partir de dois paradigmas diferentes. O “herd immunity” prepara um mundo a partir da manutenção e fortalecimento do controle político pelo sistema capitalista. Isto tomado de forma impessoal. O “herd immunity” como as perspectivas de eugenia racial do século XIX, traz como conceito essencial a “sobrevivência do mais apto biologicamente”. O sistema capitalista é tomado por sua mecânica pela ideia teórica de que ele “seleciona” os mais aptos social e economicamente. Os ricos, por esta visão, seriam os indivíduos que se adaptaram melhor durante os últimos séculos e, portanto, a melhor aposta para a continuidade da sociedade.

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Esta visão é EXATAMENTE a que existia no fascismo e no nazismo. Eles eram defensores do SISTEMA capitalista e não dos capitalistas. Como tinham uma compreensão muito tosca do que era o capitalismo e muito pequena do que era a política, os nazistas e fascistas acreditavam que o capitalismo impelia “os melhores” e “mais aptos” e punia os incapazes. O comunismo e socialismo era, assim, visto como a perversão da “ordem natural” das coisas. Este é o mesmo pensamento que leva Bolsonaro, Trump e o primeiro ministro inglês Boris Johnson a defender a economia por sobre as pessoas. Não é meramente uma preocupação com o seu momento sócio-eleitoral (já completamente perdido), mas uma percepção errada de como todo o sistema funciona.

O “herd immunity” afirma que é melhor que toda a humanidade pegasse o vírus, o mais rápido possível. As mortes são vistas como efeitos incontornáveis que, na verdade, tornam a humanidade “mais forte”, já que ela desenvolve imunidade. Uma vez pago o imposto de morte cobrado para o vírus a economia se reorganiza, sem demora. Ainda, o vírus pode levar uma parcela significativa de “peso morto” para a economia produtiva. Aposentados, velhos e incapazes seriam os “grupos de risco” e certamente, há quem veja como benéfico o efeito de ver estas pessoas sumirem. Esta posição, aliás, foi externada pela presidente do FMI Christine Lagarde, muito antes do coronavirus, quando ela se preocupava com o “envelhecimento” das populações (https://www.dw.com/en/imfs-christine-lagarde-worried-about-asias-aging-population/a-40390777?fbclid=IwAR0rxkN8GorJBsvNa8Fb-16lf9_w7BusmWb5-T-Ciw2G6qZT2wdrTKDEGnc).

Bolsonaro, assim como Trump, defendem exatamente esta linha de ação. Ou inação. Não fazer nada é melhor porque “a economia se recupera” com maior facilidade e cada um que lamba suas feridas. Trump e Johnson foram trazidos à realidade por um estudo que mostra que não seriam 7 ou 20 mil mortos na Inglaterra ou nos EUA com a solução do “herd immunity”. Epidemiologistas e matemáticos alertaram para o fato de que esta estratégia redundaria em 250 mil mortos no Reino Unido e mais de um milhão nos EUA (https://edition.cnn.com/2020/03/17/health/coronavirus-uk-model-study/index.html). Lá, como há uma comunidade científica ativa e bem paga, ambos os decrépitos líderes tiveram que mudar de posição. No Brasil, como Bolsonaro é aconselhado por “figuras de peso” como Malafaia, Olavo de Carvalho e seu filho Carlos, ele segue de forma idiota no seu plano genocida.

O ponto mais importante do “herd immunity” não são as mortes ou o caos no presente, mas a certeza da manutenção do poder de estado e do sistema capitalista no futuro. Não importa o custo.

A segunda estratégia do ocidente é o “social distancing”, defendida no Brasil por João Dória. Esta estratégia é o neoliberalismo com cara humana, se é que é possível. O ponto principal continua não sendo “evitar mortes” ou “diminuir o custo da pandemia” como o governador de São Paulo tem incansavelmente colocado na televisão. Sua principal preocupação é com os ricos. Veja que o grupo que é dispensável para o “herd immunity” são os velhos, urbanos, de classe média ou classe alta. Este grupo é EXATAMENTE a elite política e econômica do mundo e do país. Ou seja, no cerne, os dois projetos são antagônicos e as brigas entre Dória e Bolsonaro apenas um reflexo disto.

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O “social distancing” tenta salvar APENAS a classe média urbana, capitalista e rica do país. Basta ver a campanha nas televisões. Horas gastas para ensinar pessoas a “se exercitarem” em casa. Horas criando programas para “usar o tempo” de “forma saudável”. E tudo isto para quem tem um cômodo grande em casa para fazer ginástica, ou tempo e espaços suficientes para outras atividades. Nada – absolutamente nada – voltado a quem mora com quatro filhos em uma casa de um cômodo em que o espirro do vizinho em seu quarto está a menos de dois metros de distância dos outros. Toda a hipócrita campanha do “fique em casa” é implausível para quem tem que “caçar no almoço para comer no jantar”. Programas na internet, shows virtuais, BBB, canais do youtube e tudo o que a CLASSE MÉDIA tem acesso nos mostram efetivamente quem é o alvo da “segurança” que o “social distancing” procura dar.

Nada para os mais pobres. Nada para os mais vulneráveis. Nada para o proletariado.

A preocupação de Dória é “dar os anéis para salvar os dedos”. A classe política do mundo (e deste país) já sentiu que o coronavirus tem um potencial imenso de mudança social. O objetivo, portanto, é passar pela crise sem mudança alguma. Daí as propostas de ADIAR pagamentos (cobrando juros), manter empregos (relações de submissão) e conservar o poder político na mão de “líderes” que estão sendo pintados como os grandes solucionadores do problema (como a mídia já faz com João Dória). O “social distancing” não atinge proletários que são instados a continuar trabalhando no chão de fábrica. Não atinge técnicos e enfermeiros mas, ao mesmo tempo, volta a ungir no altar da superioridade médicos. O “social distancing” é a forma dos ricos se defenderem dos fascistas, mantendo os proletários e os pobres subjugados. O “herd immunity” apela para a força militar do estado, o “social distancing” para o poder simbólico da “ciência”. E enquanto os dois se digladiam, mantém os menos favorecidos como bucha de canhão a morrerem sem assistência.

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Dória diz que a “economia vai se recuperar”, mas não diz que ela se recuperará EXATAMENTE como é hoje, se não pior. Junto com a manutenção dos empregos virá a manutenção dos juros. Junto com as liberações de cobrança de água, gás e luz, virá uma dívida que a classe trabalhadora vai ficar pagando por dez ou vinte anos. Assim como o “social distancing” usa as férias dos trabalhadores para pagar o custo da crise agora, usará a ferramenta da dívida para manter intactas as relações de desigualdade e submissão no mundo e no país pelos próximos anos. O objetivo desta estratégia é simplesmente matar na casca, junto com o vírus, toda tentativa de mudança social que vinha sendo traçada no mundo desde 2008.

A resposta do oriente à crise é completamente diferente. O China construiu hospitais de concreto e não tendas em estádios de futebol mostrando quem efetivamente quer estar mais forte para lidar com algo semelhante no futuro e quem está à espera de uma próxima crise para continuar subjugando as populações mais vulneráveis.

Enquanto no oriente se pensa em medidas para AUMENTAR a segurança social, o fascismo e o neoliberalismo no ocidente lutam para evitar que se institua O MÍNIMO de segurança. Afinal, para o ocidente tudo é escasso, menos o proletário que sempre pode se reproduzir, convencido de que PODE ficar rico, e mandar SEUS FILHOS como carne de abate para sustentar o sistema enquanto os velhos fazedores de hamburgueres ou de shows de TV têm seus respiradores garantidos no Albert Einstein se precisarem.

Se o vírus parou a produção por trinta dias e o capitalismo se posta de joelhos, que os proletários parem por mais trinta e garantam que o século XXI não será a barbárie desenfreada que foi o século XX. O capital não produz nada, apenas parasita quem efetivamente produz. Estamos escolhendo entre um vírus e um parasita. Nenhum deles significa vida.

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