Maira Vasconcelos
Maíra Vasconcelos é jornalista e escritora, de Belo Horizonte, e mora em Buenos Aires. Escreve sobre política e economia, principalmente sobre a Argentina, no Jornal GGN. Escreve crônicas para o GGN, desde 2014.
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Sergio Massa: suas muitas facetas e um projeto político pessoal

Massa não é kirchnerista e apenas se aliou quando foi necessário, segundo seu projeto político pessoal.

Charly Diaz Azcue/Comunicación Senado

Sergio Massa: suas muitas facetas e um projeto político pessoal

por Maíra Vasconcelos, especial para o GGN

Com toda a habilidade política que lhe compete, o atual ministro da Economia e pré-candidato a presidente, Sergio Massa, conseguiu uma foto imprescindível para sua campanha, aquela que significasse a tão questionada, até então, união peronista. Ao lado do presidente Alberto Fernández e da vice Cristina Kirchner, que há um ano não apareciam juntos em um evento oficial, a inauguração do gasoduto Néstor Kirchner, no último 9 de julho, talvez tenha sido o ato mais importante desse final da atual gestão. Ainda que o governo de Alberto, em termos de autonomia e liderança política, tenha mostrado seu fim bem antes do tempo, como visto aqui no GGN. Os meios locais, em peso, comentaram e questionaram a foto de campanha do gasoduto, o jornal anti-kirchnerista, “Clarín”, considerou a foto “forçada”, claro, cumprindo com sua linha editorial. Mas o que essa foto realmente demonstra são as artimanhas de Sergio Massa para costurar internamente o que hoje se vê refletido em sua pré-candidatura. Agora, como dito em periódicos locais, Massa está o mais próximo possível do seu sonho de menino, ser presidente.

Massa foi chefe de Gabinete de Cristina Kirchner, entre 2008 e 2009, quando então ganhou projeção nacional. Por isso, o atual ministro é considerado pelo kirchnerismo duro como traidor. O movimento kirchnerista cantava em seus protestos e marchas, “todos os traidores estão com Massa”. Em 2013, o então ministro fundou o próprio movimento, “Frente Renovador”, que reunia boa parte de ex-kirchneristas ressentidos, para participar das eleições legislativas, quando foi eleito deputado nacional. Em 20l5, lançou sua candidatura a presidente, e, com a vitória de Mauricio Macri (2015-2019), aliou-se ao macrismo.

Em uma dessas façanhas políticas, em seus momentos passados de revolta anti-kirchnerista, Massa chegou a bradar pela eliminação dos foros privilegiados e prisão de Cristina Kirchner. Quando necessário, de acordo com a sua ambição pessoal, o atual ministro foi um aliado importante durante boa parte do governo de Macri. Massa também teve importante participação como aliado durante a gestão da ex-governadora da Província de Buenos Aires, María Eugenia Vidal, também do partido de Macri. A coalizão “Cambiemos”, formada para as eleições de 2015, quando Macri venceu como presidente, passou a “Juntos pela mudança”, que hoje apresenta como pré-candidatos a ex-ministra de Segurança de Macri, Patricia Bullrich, que representa uma direita mais “linha dura”, e o atual prefeito de Buenos Aires, Horacio Rodríguez Larreta, uma ala mais de centro-direita e menos ideológica, se comparado com Bullrich.

Entre seus movimentos políticos, Sergio Massa tentou remover o Papa Francisco Bergoglio, em 2008, como cardeal, para favorecer o amigo bispo Oscar Sarlinga. A lista das façanhas de Massa é longa, por sua habilidade política em não pertencer a nenhum projeto coletivo que não esteja voltado ao empenho de alçar a si próprio e seguir seus anseios no que hoje se reflete em uma candidatura presidencial. Por isso, “não tem companheiros, correligionários ou camaradas”, Massa tem amigos e, mais ainda, sócios, como ressaltou o jornalista Fernando Rosso em “Mil táticas e nenhuma estratégia”, no “Le Monde Diplomatique”, edição Cone sul, deste mês de julho. Então, como é de se esperar, Massa tem uma das piores imagens públicas da liderança nacional, ressaltaram nessa mesma edição do “Le Monde”.

Mas a escolha por Sergio Massa não foi a primeira opção de Cristina Kirchner. Afinal, se o ministro chega a ganhar a presidência, ele aplicará uma política de ajuste econômico, como se sabe, e assim Cristina pode se isentar dessa responsabilidade, como também se Massa chega a perder as eleições, afinal o ministro da Economia não foi a sua principal escolha para a fórmula presidencial. Como dito anteriormente, Massa não é kirchnerista e apenas se aliou quando foi necessário, segundo seu projeto político pessoal. Anteriormente, Cristina Kirchner tentou emplacar Eduardo “Wado” de Pedro como pré-candidato, que teve sua mãe desaparecida e o pai morto pela ditadura cívico-militar argentina (1976-1983). Ele, sim, um legítimo e originário representante da “Cámpora”, principal e maior agrupação kirchnerista, e do movimento “HIJOS” (formado por filhos de desaparecidos políticos da época da ditadura). A pré-candidatura de “Wado” chegou a ser oficializada, mas durou menos de 72 horas, e Massa foi anunciado em seu lugar. “Wadito”, como o chama o ministro da Economia, assim no diminutivo em espanhol também é um morfema carinhoso. Mas, o que poderia ter sido uma rasteira na candidatura do amigo, “Wadito” foi anunciado chefe de campanha de Massa. E, assim, Massa tem até mesmo nomes fortes do kirchnerismo atuando em favor de sua candidatura.

A união peronista em torno às decisões internas para as eleições deste ano, que até pouco tempo parecia quase impossível, principalmente pelo rompimento das relações entre o presidente Alberto Fernández e a vice Cristina Kirchner, passou a ser uma realidade, após o lançamento da pré-candidatura de Massa. Bastou a sua chegada e aumentaram as chances de o peronismo permanecer no poder. Algo que os próprios membros do partido vinham duvidando, até mesmo se chegariam ao segundo turno, pelo crescimento que vinha mostrando o pré-candidato Javier Milei, da coalizão de extrema-direita “A Liberdade Avança”, mas, que, finalmente, tem declinado nas pesquisas de opinião, e tem mostrado resultados aquém do esperado nas eleições primárias para governador, em algumas províncias do país.

Toda essa reconfiguração interna no peronismo, que desloca o kirchnerismo há um lugar ainda incerto dentro do movimento peronista, tem um só nome, Massa e seu objetivo de ser presidente, Massa e suas habilidades de “super malabarista”, como dito por um jornal local, o “LetraP”. Afinal, quando assumiu como ministro da Economia, em agosto do ano passado, era chamado pelos jornais locais de “superministro”.

Mas, Massa assumiu uma economia em crise, uma das piores crises dos últimos 20 anos na Argentina. Prestes a cumprir um ano de gestão da Economia, somente nos últimos dois meses a inflação cedeu; em maio registrou 7,8% e junho 6%, duas baixas frente ao mês de abril, que fechou  em 8,4%. No entanto, no acumulado interanual a inflação é de 115%. De modo bastante sucinto, a economia argentina, hoje, se resume nos seguintes paradoxos: alta inflação, baixos salários, alto nível de ocupação (a taxa de desemprego é uma das mais baixas das últimas décadas) e elevado lucro empresarial, com uma economia em crescimento, o PIB (Produto Interno Bruto) aumentou 1,3%, no primeiro trimestre, deste ano.

Massa, o kirchnerismo e o peronismo

A pré-candidatura de Sergio Massa tem lançado perguntas e análises sobre o destino do kirchnerismo, que perde centralidade ao não ter nenhum representante na fórmula presidencial da coalizão de governo “União pela Pátria” (UP), para as eleições deste ano. A própria candidatura de Massa representa um “declínio relativo” do kirchnerismo e, consequentemente, também da liderança de Cristina Kirchner. Esse é um dos pontos discutidos no editorial “A razão peronista”, do “Le Monde Diplomatique”, deste mês de julho.

Como ficaria a interna do próprio peronismo e quais são seus principais desafios. Aparentemente, Sergio Massa é quem ocupa, hoje, o centro das ações políticas, todas internamente coordenadas em favor da sua eleição, graças ao poder que o “superministro” tem demonstrado para reunir todos os arcos políticos que conformam o peronismo. “Mas aonde irá buscar Massa a sua razão peronista?”, pergunta o diretor do “Le Monde” José Natanson, além de ressaltar que o próprio peronismo exige uma renovação. Afinal, parece que Massa necessita ainda encontrar-se peronista, digamos.

“O que o peronismo tem hoje para oferecer à sociedade argentina?” Essa é uma das perguntas que o editorial propõe, para logo ir destrinchando aquilo que estaria ao alcance do movimento peronista, hoje, segundo a atual conjuntura mundial. A base de promessa do peronismo é e sempre foi, desde seus inícios, a justiça social. A partir disso, o que o editorial levanta é, primeiro, a duração do peronismo na história política argentina. O texto traz os argumentos da socióloga argentina Silvia Sigal (1939-2022) sobre o carisma embutido no peronismo, que não é apenas uma artíficie político de condução das massa, de um povo disposto a seguir um líder cegamente, mas trata-se de uma relação e, por isso, também pode se extinguir a medida que o povo perde a confiança em seu líder. “Para Sigal, a promessa do peronismo é a promessa de um futuro mais equitativo, uma promessa que sempre pode ser renovada, precisamente porque nunca pode ser alcançada. Daí a sua vigência”, escreve Natanson. 

Segundo o diretor do “Le Monde”, para aumentar as exportações, o que significa conseguir dólares e melhorar a fonte de renda da população, a Argentina tem que impulsionar o desenvolvimento dos seus complexos extrativos de hidrocarbonetos (gás, petróleo e derivados) e minerais, “que estão aquém de seu potencial”, diz o editorial. Além do mais, isso faria com que a economia argentina seja menos dependente do setor agropecuário, “que ao ostentar de facto o monopólio da geração de divisas, pode impor suas condições”, explica o diretor do “Le Monde”.

Ainda no mesmo editorial, Natanson pergunta, “quem é Sergio Massa? O que ele representa hoje? Qual das suas mil caras entra em jogo nessas eleições? “Ou melhor, quem é realmente Massa?” E a resposta é, “não sabemos”. Mas, segundo o diretor do periódico, é necessário buscar a resposta onde Massa plantou suas primeiras sementes, quando foi prefeito da cidade de Tigre (Província de Buenos Aires), entre 2009 e 2013. E desde a administração de Tigre, os demais passos de Massa na política foram brevemente detalhados no início deste artigo.

Repatriação do Skyvan-51: a reação das Madres da Praça de Maio

Poucos dias após a cerimônia de repatriação do avião Skyvan-51, usado nos chamados “voos da morte”, pela ditadura cívico-militar argentina (1976-1983), algumas representantes das “Mães da Praça de Maio” criticaram o uso político que o governo fez da questão dos direitos humanos. “Foi uma pantomima ofensiva para o quão doloroso é o fato. A apresentação de um avião que foi parte de uma metodologia, foi usada para lançar uma campanha presidencial; tudo o que descobrimos foi vergonhoso, tudo o que fomos vendo foi constrangedor”, disse Nora Cortiñas, da Linha Fundadora das “Madres”, ao “DiarioAR”. Essa crítica ao uso político dos direitos humanos também foi vista aqui no GGN.

Sergio Massa, pré-candidato a presidente, e Cristina Kirchner estiveram à frente do evento no Aeroparque Metropolitano Jorge Newbery – o GGN noticiou a chegada do avião com exclusividade, vale ressaltar, com uma participação discreta do ministro da Economia. Essa foi a primeira vez que ambos foram vistos juntos, após o anúncio de Massa como pré-candidato a presidente. Como a fórmula presidencial da coalizão de governo “União pela Pátria” (UP) não tem nenhum representante kirchnerista, ou cristinista, a vice-presidente usou o evento de chegada ao país de um avião usado pela ditadura militar argentina para desaparecer pessoas, para explicar as escolhas internas do partido. Conforme comentou em artigo o jornalista Sebastián Lacunza, a vice-presidente usou o evento para defender a sua postura e a de seu filho e deputado nacional, Máximo Kirchner, para dizer que ambos atuam em favor de um projeto coletivo, distinto a Alberto Fernández e seus aliados, que buscam conquistar cargos públicos.

Cristina Kirchner afirmou que “era necessário construir uma lista de unidade”, e detalhou como foram as negociações internas no partido para apresentação da fórmula presidencial Sergio Massa e vice-presidente, Agustín Rossi, atual chefe de Gabinete de Alberto Fernández. Além do mais, como dito por Lacunza em seu artigo “Una “pantomima ofensiva” con la memoria histórica para explicar una candidatura que, pese a todo, está en carrera”, durante o evento Cristina também pode introduzir Sergio Massa no mundo dos direitos humanos, “território pouco explorado pelo agora candidato presidencial”.

Maíra Vasconcelos – jornalista e escritora, publica artigos sobre política argentina no Jornal GGN e cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

Maira Vasconcelos

Maíra Vasconcelos é jornalista e escritora, de Belo Horizonte, e mora em Buenos Aires. Escreve sobre política e economia, principalmente sobre a Argentina, no Jornal GGN. Escreve crônicas para o GGN, desde 2014.

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