A esquerda também precisa de loucos, por Wilson Ferreira

Por que não fazer a extrema direita sentir o gosto do próprio veneno? Criar seus próprios Mileis, Bolsonaros e Zelenskys?

A esquerda também precisa de loucos

por Wilson Roberto Vieira Ferreira

A esquerda precisa de loucos! Este humilde blogueiro não está se referindo à opção existencial de ser esquerdista ou mesmo professor – que, sabemos, exige uma grande dose de loucura. O que este “Cinegnose” se refere é a recorrência de personagens caricaturais e canastrões promovidos pelas estratégias semióticas alt-right: Trump, Milei, Bolsonaro, Zelensky et caterva. São loucos, mas com método: o marketing político storytelling. Eles performam personagens arquetípicos (para ocultar suas verdadeiras agendas) que viram bombas semióticas – a única coisa que fura as bolhas digitais que flutuam no mar do “contínuo midiático atmosférico”, a transmutação atual da velha esfera pública. Não vivemos mais na “sociedade do espetáculo”, mas na “media life”: o que chamamos de “realidade” é aquilo que mais se assemelha às imagens e narrativas ficcionais. Por que a esquerda não faz o mesmo? Por que não fazer a extrema direita sentir o gosto do próprio veneno? Criar seus próprios Mileis, Bolsonaros e Zelenskys? Criar seus próprios loucos, mas com sinais trocados.

A esquerda está precisando de loucos! É claro que a afirmação desse humilde blogueiro está carregada de hipérbole para alcançar um efeito retórico. Em outras palavras, podemos dizer que a esquerda precisa mostrar ao distinto público atores que performem personagens loucos… mas com muito método.

Essa tese tem origem em duas recentes constatações: primeiro, a vitória do personagem Javier Milei na Argentina – de candidato improvável que aparecia em programas de infotenimento na TV alegando ter poderes parapsíquicos, além de se referir como professor de kamasutra (tudo misturado com bravatas da teoria econômica como, p. ex., bater numa piñata em forma de Banco Central) à vitória eleitoral com surpreendente vantagem percentual.

Segundo, as manifestações nas ruas nesse último domingo de apoiadores de Bolsonaro contra Lula, STF e a morte de um patriota no presídio da Papuda. E o inútil debate que se seguiu nas redes sociais: de um lado, fotos dos atos com ângulos favoráveis que sugerem manifestações massivas; e do outro, perfis de esquerda repetindo que a manifestação “flopou”, selecionando fotos com trechos vazios da Avenida Paulista. Além da espiral da estimativa de participantes: mil? Treze mil?

Qual foi a última vez que vimos manifestações de rua progressistas fora do período eleitoral? 

O fato é que desde as jornadas de junho de 2013, a militância progressista desapareceu das ruas. Mesmo numa conjuntura na qual visivelmente o governo Lula está sendo achacado e emparedado por um Congresso mais de extrema-direita da história da Nova República. Enquanto armadilhas fiscais deixadas desde o governo Temer (e pelo STF em 2017) transformam o arcabouço fiscal e a política de déficit zero numa armadilha política para um governo que opera com margens cada vez mais reduzidas no Congresso – criando o paradoxo da receita do Governo não crescer mesmo com um PIB em ascensão.

A vitória de Milei na Argentina, ao lado das perspectivas nada animadoras nos EUA do retorno de Trump à Casa Branca (além do apoio incondicional dos EUA ao governo de extrema direita de Netanyahu na guerra Israel/Hamas), mostra que a extrema direita internacional (a chamada “alt-right”) continua em movimento e em ascensão global.

Marketing, loucos e storytelling

O que há em comum em todos esses personagens que chegam ao poder pelo voto? Todos eles são “loucos”. Colocando em outros termos, até não faz muito tempo, se disséssemos que um candidato que cita versículos bíblicos para justificar um genocídio, ou outro que demitia candidatos em um reality show na TV, ou ainda aquele que se saiu do anonimato do Congresso através de programas de humor na TV; ou um candidato que pedia conselhos políticos por via mediúnica para o espírito de um cachorro, se disséssemos que todos eles tinham chances reais de vencer uma eleição, diríamos que louco somos nós.

Mas surpreendentemente eles se tornaram críveis, verossímeis ou pertinentes na percepção do público. Ou, o que é pior, para a grande mídia são normalizados e passam a ser tratados como “players” no jogo democrático. Talvez porque todos eles sejam crias da própria mídia.

Porém a “loucura” desses personagens tem método: o marketing político storytelling. Para o atual marketing político, o candidato deixou de ser um produto à venda: ele precisa agora de uma narrativa, estar inserido em uma experiência contada por meio de uma história. 

Isto significa que é muito mais fácil para nós lembrar histórias do que os fatos frios e objetivos porque os nossos cérebros fazem pouca distinção entre uma experiência que estamos lendo sobre o que está realmente acontecendo. Além disso, nossos cérebros são incrivelmente ávidos de histórias. Passamos cerca de um terço de nossas vidas em devaneios – nossas mentes estão constantemente à procura de distrações.

Isso implica que os candidatos não são mais produtos à venda com embalagens nas quais estão estampados slogans ou discursos políticos e ideológicos. Isso é uma crítica já superada. Uma crítica ao velho marketing político, tradicional e folclórico que ainda existe nos rincões do planeta.

Eles devem agora performar personagens arquetípicos (no total de doze, à escolha: O Inocente, Explorador, Sábio, Herói, Fora da lei, Mágico, Normal, Amante, Palhaço, Protetor, Criador, Poderoso – como proposto por Carl Pearson da Maryland University, clique aqui), como protagonistas de uma história que está se desenrolando diante do público:

Trump: O Poderoso e “Avatar” (dentro da Jornada do Herói): aquele que chega anunciando a chegada de um novo tempo (“Make America Great Again”). Por isso, torna-se líder e autoritário;

Bolsonaro: O Herói, aquele que prova seu valor por uma missão corajosa e difícil: livrar a pátria dos comunistas e/ou corruptos;

Milei: O Palhaço, o “Trickster” que opera com os opostos: ordem e caos, destruição e criação. Aquele que quer quebrar a ordem dos deuses ou da natureza. O arquétipo do Trapaceiro parece ser uma comédia de opostos, criando momentos de alívio cômico.

Esfera pública e contínuo midiático atmosférico

Claro que o desempenho desses arquétipos deve ser da forma mais canastrona possível: histriônica, overacting, exagerada. Afinal, a gênese desses personagens está no mundo ficcional midiático dos reality shows, entretenimento e infotenimento.

Há três motivos históricos que estão por trás do sucesso dessa estratégia de comunicação alt-right:

(a) nenhuma agenda neoliberal “puro sangue” ganha eleições. Uma agenda que fala em acabar, cortar, destruir, acompanhado do indefectível saco de maldades (cortes dos programas e garantias sociais) não é boa de votos. Por isso, deve ser mascarada por uma storytelling, repletas de narrativas com destinos manifestos, morte e ressureição, a presença do imponderável etc. 

(b) a transformação estrutural da esfera pública. Sabemos que no século XX a esfera pública clássica do século XIX (o jornalismo literários, café e clubes de discussões) sofreu a sua primeira transformação estrutural com as Relações Públicas e a Propaganda (Jürgen Habermas chamou isso de “refeudalização da esfera pública”). Nesse século assistimos à segunda mudança estrutural: o efeito bolha criado pelos mecanismos de busca na Internet e redes sociais. 

Com o enfraquecimento das mídias de programação generalista (as mídias de massa) temos bolhas solipsistas que parecem flutuar em um contínuo midiático atmosférico – apenas aquilo que consegue transpassar as bolhas são as bombas semióticas que criam ondas concêntricas de impacto.

Contínuo midiático atmosférico: aquilo que substituiu a velha esfera pública de opiniões orientada para o consenso – a esfera política detona bombas semióticas visando repercussões nesse contínuo amorfo que envolve as bolhas digitais. Esse contínuo amorfo é incapaz de gerar consensos, maiorias ou tendências. Ao contrário, gera polarizações: a resposta para cada onda de repercussão de uma bomba semiótica que cria ondas que varrem esse oceano amorfo, é cada bolha responde de forma reativa, fragmentada e solipsista.

(c) A sociedade do espetáculo, conforme descrita por Guy Debord, evoluiu no século XXI para a “media life”, conforme analisado por Mark Deuze (leia Media Life, Polity, 2012): é impossível pensar a realidade fora do horizonte das imagens e relatos anteriormente feitos sobre a própria realidade – vivemos no ecossistema midiático assim como os peixes vivem no oceano. Extrapolando a tese de Mark Deuze, percebemos a realidade como “real” na medida em que ela se assemelha às imagens anteriormente feitas pela mídia do que parece ser o real.

Colocado em outros termos: quanto mais os eventos se pareçam com as narrativas ficcionais, mais verossímeis ou críveis se parecem. A mídia precede a realidade. Ou melhor: a realidade é a autodescrição que a mídia faz de si mesma. A realidade é tautista – tautologia + autismo midiático.

DJ Marshmello e o executivo da Adidas: a realidade morreu

A realidade morreu?

Por exemplo, o jornalista e escritor José Eduardo Agualusa fala que a “realidade morreu”, ao aproximar dois eventos que parecem distantes no tempo e no espaço: a “media prank” da dupla de ativistas conhecidos por “The Yes Man” e a vitória de Javier Milei.

Famosos por criar eventos falsos como “pegadinhas” voltadas contra a mídia, eles atacaram novamente na Web Summit, realizada recentemente em Lisboa. No palco principal, se passaram como o DJ Marshmello e um executivo da Adidas. Disseram que a Adidas iria empreender um bizarro projeto chamado “AdVerse” (a sátira do Metaverso), mundo virtual no qual os operários da empresa teriam tudo aquilo que a vida real (e seus salários) não permite – além de um chip implantado para rastrear a produtividade dos trabalhadores… 

A dupla recebeu aplausos efusivos da plateia. Não pela sátira da “pegadinha”. Mas porque acreditaram ser tudo real! – clique aqui. Certamente porque o inacreditável projeto não era tão inacreditável assim: emulava narrativas distópicas das produções de ficção cientifica atuais do cinema e audiovisual.

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Wilson Ferreira

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