Bolsonaro precisa de um incêndio, por Wilson Luiz Müller

A vida para Bolsonaro é uma grande encenação. Vence quem consegue ficar no palco prendendo a atenção da plateia enquanto espera a próxima oportunidade.

Bolsonaro precisa de um incêndio

por Wilson Luiz Müller

“… era pouco mais do que um ex-militar bizarro de baixo escalão, que poucas pessoas levavam a sério. Ele era conhecido principalmente por seus discursos contra minorias, políticos de esquerda, pacifistas, feministas, gays, elites progressistas, imigrantes, a mídia…porém, 37% dos eleitores votaram no partido dele, a nova força política dominante no país. Por que tantos eleitores instruídos votaram em um patético bufão que levou o país ao abismo? Em primeiro lugar, os eleitores tinham perdido a fé no sistema político da época.” (Oliver Stuenkel, 08 de outubro de 2018, Jornal El País).

O texto acima fala de Hitler. O artigo analisa a trajetória do ex-militar bizarro que se transformaria no grande ditador da Alemanha nazista. No texto citado foi trocado o termo “alemães”  por “eleitores” e omitido o nome de Hitler.

Será verdade que a história se repete como farsa ou tragédia? Por que Bolsonaro é tantas vezes associado ao ditador nazista Adolf Hitler?

Nas eleições de 1928, os nazistas do partido de Hitler ganharam apenas 12 lugares no Reichstag, o parlamento alemão. Uma década antes a Alemanha tinha sido derrotada na primeira guerra mundial. Durante a década de 1920, a Alemanha começava lentamente a se recuperar dos traumas da derrota. Em 1929, estourou a grande depressão, fazendo retornar  a desesperança e a revolta entre os alemães. Em 1930, os nazistas  ganharam 107 lugares, tornando-se o segundo maior partido do parlamento, com 18,25% dos 577 assentos do Reichstag. Este número cresceria para 230 assentos nas eleições de 1932. Hitler foi nomeado chanceler da Alemanha em janeiro de 1933 pelo presidente Hindenburg.

No Brasil, em 2014, as forças conservadoras tinham perdido a quarta eleição consecutiva para a esquerda liderada pelo PT. Desesperaram-se com o resultado e, liderados pelo candidato derrotado Aécio Neves, começaram a tramar abertamente a derrubada da presidente Dilma. Contaram com o apoio da grande mídia empresarial, que vocalizava os interesses dos rentistas e financistas.  A Força Tarefa da Lava Jato atuava de forma partidária para convencer a sociedade de que o país estava sendo assaltado por uma quadrilha de ladrões que precisava ser expulsa de qualquer jeito. Conforme desvendado  pelo site INTERCEPT, tratava-se de uma farsa a serviço das elites endinheiradas. A ação coordenada dessas forças nas esferas jurídica, midiática, política e econômica, derrubou a presidente Dilma.

Na votação do processo do impeachment de Dilma, Bolsonaro fez seu mais explícito discurso de apologia à tortura. Homenageou o coronel Ustra,  famoso pelos métodos cruéis que aplicava às vítimas, em especial mulheres, usando ratos e insetos, trazendo os filhos pequenos das torturadas para assistir ao suplício de suas mães. Bolsonaro fez questão de lembrar que Ustra era o terror da presidente Dilma, porque também ela tinha sido torturada pela ditadura. Depois do discurso, a intenção de voto em Bolsonaro para presidente subiu quase dez pontos percentuais, demonstrando que tinha sido destampada a panela do ódio e do ressentimento contra os governos que atendiam prioritariamente as demandas da população mais vulnerável e carente. O ódio tinha feito ninho na cabeça de milhões de brasileiros.

Enquanto Bolsonaro fazia publicamente a defesa da tortura (o que virara uma rotina na sua atuação parlamentar sem que ninguém o punisse), os farsantes da Lava Jato manipulavam no subterrâneo as peças do tabuleiro político, entregando aos seus sócios políticos, midiáticos e econômicos somente os resultados que interessavam ao bloco conservador. Moro e Dallagnol, instrumentalizando o Judiciário e o Ministério Público, lideravam a trama subterrânea para ajudar a derrubar a presidente Dilma e condenar Lula sem provas.

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Parte dos abusos e ilegalidades cometidas nas sombras eram trazidos à luz pelos próprios, tanta era a certeza sobre a impunidade de seus atos ilícitos. Os órgãos superiores do judiciário tinham se acovardado e nenhuma providência foi tomada para conter a atuação dos farsantes que à luz do dia rasgavam as leis e a Constituição Federal. A grande mídia associada à Farsa dava ressonância às ilegalidades e aplaudia tudo, sem se importar que a ópera bufa destruísse nossas empresas de construção e engenharia e jogasse milhões de trabalhadores no desemprego. Ao bloco conservador interessava tão somente derrubar Dilma do governo e condenar Lula para não disputar a eleição em 2018.

Assim o Brasil chegou na eleição de 2018. Grande parte da sociedade tinha sido convencida de que as  forças políticas tradicionais não passavam de quadrilhas criminosas. O estado de espírito dominante era o de um país destroçado pela guerra. E o político mais tradicional de todos, que se diferenciava dos demais apenas porque vociferava um ódio extremo, era apresentado como antídoto a tudo isso que se esperava fosse varrido do poder.

Hittler foi escolhido chefe do governo alemão em 1933, mas não contava com maioria no parlamento, o que dificultava seus planos ditatoriais. O instável equilíbrio de forças que mantinha Hitler sob controle dos conservadores tradicionais mudaria com um fato inusitado. Na noite de 27 de fevereiro de 1933, o edifício do Reichstag foi incendiado. Um jovem holandês foi preso no interior do edifício, completamente fora de si, gritando: Revolução! Revolução!

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Marc von Lüpke-Schwarz, grande estudioso do nazismo, escreve a respeito desses acontecimentos:

“Hitler não  lamentava pelo Parlamento como instituição, já que sempre desprezou a democracia. O jovem holandês  confessou ter provocado o incêndio, em protesto contra a ascensão ao poder dos nazistas. Hitler não aceitava essa  versão.  Reagiu de maneira histérica. “Se esse incêndio, como acredito, tiver sido obra dos comunistas, precisamos exterminar essa peste assassina com punho de ferro”, esbravejou o Führer.”

Logo após a facada, familiares e apoiadores de Bolsonaro apressaram-se em apontar a existência de uma conspiração de esquerda para assassinar o candidato. E apesar de todas as evidências em contrário, ainda hoje essa versão aparece de vez em quando.

Continua Marc von Lüpke-Schwarz:

“Para os nazistas, o incêndio do Reichstag oferecia uma oportunidade única, o que Hitler reconheceu de imediato. A população estava profundamente insegura. E as elites conservadoras de burocratas, políticos e militares temiam a tomada de poder pelos comunistas.

Ainda na mesma noite, a polícia começou a prender deputados comunistas e funcionários do partido. Especialmente cruel era o comportamento das tropas nazistas da SA (Sturmabteilung, literalmente departamento de assalto). Elas levaram incontáveis pessoas para prisões provisórias, em sua maioria localizadas em porões. Lá, os membros da SA torturavam os prisioneiros. Alguns não sobreviveram. Até abril, em torno de 25 mil pessoas foram detidas.

O governo emitiu uma portaria de defesa que eliminava a liberdade de expressão, de opinião, de reunião e de imprensa.

Com o Decreto do Incêndio do Reichstag, os nazistas passaram a dispor da ferramenta decisiva para combater seus inimigos. Sem provas nem controle jurídico, eles podiam agora deter qualquer um que lhes fosse desconfortável.

Grande parte da população acreditava naquilo que estava escrito nos jornais, ou seja, que os comunistas tinham tentado dar um golpe. O  fim das liberdades democráticas era aceito em silêncio.

Hitler reconheceu a oportunidade e fez uso dela. Ao ver o Reichstag em chamas, ele teria dito: “Agora não há mais piedade. Quem se colocar no nosso caminho, será eliminado”. Nos 12 anos que se seguiriam, ele transformaria essas palavras em realidade, da maneira mais cruel e horrível possível”.

As semelhanças entre as trajetórias políticas de Hitler e Bolsonaro explicam-se pela existência de condições objetivas semelhantes, cada qual no seu contexto. Porém, o que mais os une é a sua visão de mundo, é a sua personalidade marcada por fortes traços de psicopatia social. Alertei em outro texto (Bolsonaro quer o caos) sobre o erro de avaliar Bolsonaro pela ótica da racionalidade política.

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Quem analisa racionalmente Bolsonaro e Hitler, chega à conclusão de que são patetas que não merecem ser levados a sério, tal é a ignorância em relação à compreensão do mundo que os cerca. Na mente psicopata de um manipulador opera uma inteligência aguçada dirigida ao único objetivo a que ele se propõe em cada momento. Tem foco e método. Há um oportunismo inteligente no sentido literal, primitivo, típico dos animais que sobrevivem nas condições mais adversas por serem capazes de se alimentar de qualquer coisa. O manipulador espera, ou cria, a oportunidade para agir no momento certo. A vida para Bolsonaro é uma grande encenação. Vence quem consegue ficar no palco prendendo a atenção da plateia enquanto espera a próxima oportunidade.

Ao longo de 30 anos,  Bolsonaro soube aproveitar muitas oportunidades para atingir seus objetivos.  Nos últimos três anos, ele aproveitou cem por cento das oportunidades:

Discurso de apologia à tortura para atacar a presidente Dilma em 2016: 10 pontos

Aliança com a Farsa Jato para expor Lula como o maior criminoso do país, como forma de eliminar seu principal adversário na eleição presidencial: 10 pontos

Facada quase fatal sem sangue: 10 pontos

Discurso de ódio contra negros, pobres, mulheres, índios, gays, mentiras do kit gay e mamadeira de piroca: pontos faltantes para chegar à presidência.

Uma pessoa que consegue tudo isso pode ser qualquer coisa, menos ineficiente em relação ao seu objetivo. O objetivo maior de Bolsonaro é a ditadura, porque ele precisa concluir o trabalho que ficou pela metade: a matança dos trinta mil inimigos.

Hitler teve em relação a Bolsonaro a vantagem de um único incidente: o incêndio do Reichstag. Bolsonaro mira o horizonte à procura de sinais de fumaça. Espera que de algum lugar, de forma inusitada, a vida lhe ofereça mais uma grande oportunidade.

Wilson Luiz Müller – Integra o Coletivo Auditores Fiscais pela Democracia (AFD)

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3 comentários

  1. O pior e saber que tivemos um minixtro da (in)justiça quinta coluna: José Eduardo Cardoso.
    Inoperante, agora soube-se que agentes norteamericanos estiveram em Curitiba e o passivo chefe da PF nada fez, emboro fosse avisado pelo diretor-geral da instituição.
    Com amigos como esses, o Brasil e a Dilma não precisavam de inimigos como Eduardo Cunha.
    Já tinha um inimigo de dentro da cozinha.

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  2. Nao há dúvida que o eleito e sua trupe formam um grupo de patetas, mas cabe alertar que são perigosos e infames.
    Mas o que falar de uma população que compra baboseiras como “kit gay e mamadeira de piroca”, que aplaude demonstrações misóginas, racistas, homofobicas, ou ainda que “a lava-jato tinha como foco unicamente o combate a corrupção”?
    Todo povo tem o governo que merece. Um povo com a mente distorcida, um povo que até se aproxima de acreditar que a terra é plana ou que Cristo curte uma goiabeira, um povo crente que com arma na mão de qualquer maluco se resolve o problema da violência, um povo capaz de desfilar na av. Atlântica de verde e amarelo defendendo quem aplaude genocidas e torturadores integrando um governo que deixará apenas terra arrasada como herança, um povo assim merece este bando psicótico hoje aboletado no poder.

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