Casamatas explodem, por Francisco Celso Calmon

Tudo que foi realizado contra os trabalhadores e o país deve ser anulado e o prejuízo ser reparado pelos que se locupletaram.

Casamatas explodem

por Francisco Celso Calmon

Em abril de 2016 escrevi um pequeno artigo para o livro A Resistência ao Golpe de 2016, que fora organizado por Carol Proner, Gisele Cittadino, Marcio Tenenbaum e Wilson Ramos Filho. Esse livro, escrito por 105 autores, foi o primeiro a fazer o contraponto com a narrativa dos golpistas, e serviu como instrumento catalizador, através de seu lançamento em todas as principais cidades do Brasil, para o combate ao golpismo. 

Reproduzo parte do artigo, tanto pelo seu prognóstico, lamentavelmente, acertado, mas, sobretudo, pelo receio de que caminhemos sob o eixo equivocado da conciliação, na qual o lado perdedor continuará a ser as mesmas vítimas desse golpismo.  

A conjuntura não caiu do céu.

Quando Jânio Quadros renunciou e as classes dominantes do Brasil impediram o vice-presidente, João Goulart, de assumir a presidência, e o arranjo do parlamentarismo, em lugar de uma ruptura frontal à Constituição, foi a solução conciliatória temporária, até que, por meio de um plebiscito, no qual o povo brasileiro optou majoritariamente pelo presidencialismo, Jango recuperou as funções plenas da presidência, e foi também o sinal para articularem o golpe de 64. 

Quando Aécio Neves, derrotado pela Dilma Rousseff, se insurgiu, com seu partido e aliados, ao resultado do pleito, inclusive acusando-o de fraude, não comprovada, e persistiu numa postura não republicana e civilizada de fazer política, estava dado o sinal de que haveria um processo golpista. 

A direita conservadora e golpista do Brasil, em regra, emite prenúncios de plano golpista, entretanto, o espírito democrático e a ingenuidade fazem com que a esquerda perceba tardiamente o significado desses sinais. Mormente quando se orienta por uma matriz de conciliação de classes.

Na conjuntura sinistra que o Brasil vive, na qual a democracia caminha para uma microcefalia democrática, que irá equivaler a décadas de retrocesso histórico, a reação das forças democráticas e progressistas veio tardiamente em função da divisão histórica desse campo político. 

O projeto golpista tem por objetivo maior estabelecer um Estado policial de inspiração ideológica fascista, amparado num Judiciário e num Ministério Público Federal conservador e punitivista, numa mídia oligopolizada (sempre a serviço dos interesses geopolíticos dos EUA …), tendo como braço armado do golpismo a Polícia Federal, e o Legislativo como protagonista parlamentar do script desenhado pelos chefes internos e externos desse ataque ao Estado de direito e a nossa democracia.

A reorganização do poder no plano internacional, com o Mercosul e Unisul no continente e com os Brics, colocaram os EUA como ator, talvez, menos visível, desse golpismo.   

As armas desses chefes são a extorsão e a chantagem. Através de espionagem e investigações formaram armazéns logísticos, nos quais estão estocados “os crimes” de muitos personagens dessa conjuntura, e por meio dessas armas subjugam àqueles que porventura ousam reagir, mas que têm contas a ajustar – telhados de vidro.  Como têm muita dinamite estocada, há sempre o risco de explodir e levar aos ares essas casamatas.

As revelações do site The Intercept abriram a tampa do fétido esgoto da lava jato e os primeiros a aparecer na espuma putrefata foram os ratos corruptos e corruptores da força-tarefa de Curitiba e em seguida os fariseus arrependidos, mas nem tanto.

As casamatas estão explodindo e deve haver ainda muita dinamite estocada e novas explosões de memórias, como a do homicida potencial, Rodrigo Janot, poderão ocorrer. Seu livro é um libelo de incriminação a si e a grande parte dos quadrilheiros do golpe. 

Romero Jucá, Eduardo Cunha, Renan, General Villas Boas, Toffoli, Adélio Bispo, Queiroz e tantos outros têm muito a revelar, senão no presente, no futuro diante de uma nova Comissão da Verdade.

A economia travada é como o fogo brando que estimula aos poucos a fritura do Estado policial, e como não há no horizonte sinais de melhoria, pode ser que, analogicamente à ditadura militar, estejamos diante do início do fim desse golpismo.

A ditadura militar no seu ocaso entregou os anéis, mas não os dedos. Seus crimes e entulhos atravessaram a jovem democracia até chegarem aos dias de hoje com o desmonte do Estado democrático de direito. A lição do passado é não repetir um “pacto” no qual os golpistas fiquem salvaguardados de suas imensas responsabilidades pelos crimes contra o povo trabalhador e o país. 

Tudo que foi realizado contra os trabalhadores e o país deve ser anulado e o prejuízo ser reparado pelos que se locupletaram.

Lula deverá ser solto com o pedido de desculpas do Estado, indenizado e recuperar plenamente seus direitos usurpados pela quadrilha – com Supremo, com tudo. Fora desse eixo a nação brasileira não encontrará o caminho da paz social e do crescimento econômico. 

Francisco Celso Calmon é Administrador, Advogado, Coordenador do Fórum Memória, Verdade e Justiça do ES; autor do livro Combates pela Democracia (2012) e autor de artigos nos livros A Resistência ao Golpe de 2016 (2016) e Comentários a uma Sentença Anunciada: O Processo Lula (2017)

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4 comentários

  1. O golpe parece de tal forma “garantido” que nenhuma casamata tem assustado essa gente.
    A censura,durante a ditadura militar foi,com certeza,muito mais branda do que a auto censura hoje imposta pela mídia porca deste país.
    Os instrumentos utilizados para manipular grande parte da população e fazer com que ela desejasse esse golpe continuam operantes de forma a mantê-la sonada e sem reação. uma anestesia política que,se vier a ser neutralizada,não sabemos no que resultará.

  2. Não vai acontecer.
    O Lula e a nossa esquerda de fancaria já estão alardeando uma “Operação Conciliação 2”.

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  3. CALMON: na sua análise está faltando um setor golpista fundamental: os militares entreguistas.
    O ordinário general Villas Boas, homenageado pelo Bolsonaro como um dos responsáveis por sua vitória eleitoral, AMEAÇOU o presidente do Supremo Tribunal Federal e o TSE. Disse que tinha 300 MIL soldados armados (para matar a quem ? cidadãos brasileiros desarmados ?). Essa afirmação está publicada nas páginas 16 e 17 do livro “Os Onze” dos jornalistas Felipe Recondo e Luiz Weber.
    Lembrando 64: militares NACIONALISTAS foram torturados, mortos, expulsos das Forças Armadas.
    O Brasil estaria mais livre e seguro SEM essas Forças Armadas entreguistas.

  4. “Quando Aécio Neves, derrotado pela Dilma Rousseff, se insurgiu, com seu partido e aliados, ao resultado do pleito, inclusive acusando-o de fraude, não comprovada…”
    Claro que houve fraude! Aécio só não conseguiu roubar o suficiente!
    Alguém acha mesmo que essas urnas eletrônicas são “100% seguras”?
    Nem cofre de banco é, e até caixa eletrônico dá recibo!

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