Crise política e perspectiva: um jogo de engenho e paciência, por Sérgio Eduardo Ferraz

Enquanto o país estiver em quarentena, caberá ao STF, à cúpula do Congresso e aos governadores a missão de segurar as pontas, no propósito de minimizar o estrago imenso.

Crise política e perspectiva: um jogo de engenho e paciência

por Sérgio Eduardo Ferraz

Assim como a degradação do país não se configurou do dia para a noite, o trabalho de desmontar o sequestro do país pelo fascismo não se fará de uma só vez. Não se vencerá essa luta por nocaute, mas por pontos.

A divulgação do vídeo – que mostrou um “escritório do crime” funcionando em pleno Planalto – foi mais um round nessa jornada. Não derruba o governo nem é bala de prata, mas agrega material de enorme importância para retirar mais uma camada de legitimidade e apoio ao que está aí.

O que se tem pela frente é tarefa lenta, de corrosão e desgaste, que requer engenho e paciência até que se configurem as condições – na sociedade, na opinião pública, na economia e na política – para que seja possível, com razoável segurança, remover, mediante as vias constitucionais, o descalabro.

E a realidade da pandemia, por seu turno, terminou por impor uma espécie de “divisão de trabalho” nesse enfrentamento ao desgoverno.

Enquanto o país estiver em quarentena, caberá ao STF, à cúpula do Congresso e aos governadores a missão de segurar as pontas, no propósito de minimizar o estrago imenso. Só depois chegará a hora da população e das alianças políticas que, com alguma virtù e fortuna, nos conduzirão a alguma margem de atracação. Não é casual, portanto, que todos os ataques e esforços de intimidação, por parte da extrema direita, tenham tido como alvo, nos últimos dois meses, exatamente algum daqueles sustentáculos de um mínimo de razoabilidade na gestão da crise.

A nota do político palaciano Augusto Heleno foi apenas o último e mais escancarado lance dessa tática dos que estão no poder. O propósito é engendrar uma atmosfera de receio que trave ou no mínimo retarde a reação do STF aos seus despautérios que, no auge de uma pandemia da qual o Brasil está se tornando o epicentro, assumem um caráter genocida.

Quando o país reabrir, o protagonismo será do Congresso, da sociedade civil e da grande maioria da população felizmente comprometida com a democracia e as regras civilizatórias.

Vai ser a negociação entre todas as forças políticas comprometidas com a democracia, isolando o fascismo e pactuando o futuro imediato, respaldada pela mobilização das ruas, que garantirá, esperemos, que o país pule a pior fogueira da sua história republicana.

Ilhados em casa, separados dos amigos e da família, contando as vidas perdidas, e com as bestas soltas na rua, estamos talvez no momento mais amargo da nossa jornada. Por isso mesmo se faz importante que não se perca a perspectiva para que mais sombras não se juntem à tristeza já justamente instalada entre nós.

Sérgio Eduardo Ferraz, Doutor em Ciência Política pela USP.

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