De “negro russo” a “sultão do jazz”: a trajetória de um afro-americano na Rússia Imperial, por Eduardo Bonzatto e Luis Gustavo Reis

A presença dos afrodescendentes na Rússia, embora pouco comentada, é instigante e elucidativa de como determinados personagens são negligenciados e tornados invisíveis.

Frederick Bruce Thomas

De “negro russo” a “sultão do jazz”: a trajetória de um afro-americano na Rússia Imperial

por Eduardo Bonzatto e Luis Gustavo Reis

Quando falamos da Rússia, logo nos vêm à mente a Revolução Bolchevique (1917), o stalinismo que ceifou milhares de vidas, o esforço do Exército Vermelho durante a Segunda Guerra Mundial, a Corrida Armamentista durante a Guerra Fria e as rivalidades com os Estados Unidos. Mais recentemente, não passam despercebidas as investidas autoritárias do presidente Vladmir Putin, autocrata que ocupa o poder há 20 anos.

Apesar de distante geograficamente, a história da Rússia sempre ecoou nas Américas. Nossos avós certamente se recordam dos treze dias de tensão, em outubro de 1962, que deixou a humanidade por um fio da extinção na chamada Crise dos Mísseis.

Para além de episódios e personagens bastante divulgados, há outros ancorados nas grossas areias do esquecimento. Não obstante seus feitos, foram empurrados para o ostracismo e descartados da lembrança universal. Esse é o caso de Frederick Bruce Thomas, um afro-estadunidense poderoso na Rússia Imperial.

Entre 1720 e 1917, a Rússia construiu um dos maiores impérios da história. Enquanto os monarcas desfrutavam os luxos da corte czarista, milhões de pessoas viviam em situação extrema de pobreza, desnutrição e abandono. Essa configuração social, no entanto, não impediu que dezenas de negros estadunidenses migrassem para o império, especialmente nos séculos XVIIII e XIX, buscando melhores condições de vida e fugindo das brutalidades encetadas pela escravidão da América do Norte.

A presença dos afrodescendentes na Rússia, embora pouco comentada, é instigante e elucidativa de como determinados personagens são negligenciados e tornados invisíveis. Um deles é Abram Petrovich Hannibal, que viveu no império russo durante o século XVIII e foi membro proeminente da corte de Pedro, o Grande, um dos monarcas mais poderosos do período. Capturado no atual Camarões e levado para o império ainda adolescente, Hannibal estudou artes, ciências e guerra nos institutos mais destacadas da Europa. Devido as suas habilidades, tornou-se general do exército russo e principal conselheiro do imperador, posto que exerceu de 1742 a 1752. Plenamente admirado pelos poderosos, desfilava pelas ruas de São Petersburgo com um séquito pomposo. Ovacionado por parcelas da população, o general deixou um legado militar que foi adotado por diferentes czares.

Apesar de suas qualidades, Abram Hannibal entrou para história na sombra de outro personagem: é lembrado apenas como bisavô do célebre escritor Alexander Pushkin, considerado o maior poeta russo de todos os tempos. Dez anos atrás, em novembro de 2010, representantes do governo da Rússia e da Estônia, o embaixador dos Camarões e o sultão de Logone-Birni (comuna camaronesa) foram a La Fère, na França, para inaugurar uma placa comemorativa em homenagem a Abram Petrovich Hannibal. Na insígnia, constava a mensagem que o homenageado tinha sido um dos grandes personagens da história russa, chefe do exército imperial e, “principalmente, o bisavô de Alexander Pushkin”.

Não foi apenas Abram Hannibal que alcançou destaque na Rússia czarista. Outro personagem instigante, também silenciado pela história, é Frederick Bruce Thomas, que se tornou um dos “empresários musicais mais bem-sucedidos” do início do século XX.

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Nascido em 1872, no Mississippi, Estados Unidos, Thomas era filho de ex-escravos. Seus pais, Hannah e Lewis, adquiriram uma pequena propriedade perto da fronteira com a Louisiana, algo extraordinário para um período em que a maior parte das terras, particularmente no Sul, pertencia a um punhado de famílias brancas. Em 1879, eles doaram parte de suas terras para a construção das primeiras igrejas episcopais metodistas, frequentadas exclusivamente por negros. Foi aí que Thomas começou a adquirir rudimentos educacionais, além de a travar contato com membros da comunidade negra que lhe apoiaria tempos depois.

Os pequenos camponeses, Hanah e Lewis, além de alfabetizarem o filho, também venceram um litigio judicial acarretado pela invasão de suas terras por um fazendeiro branco que alegava ter sido surrupiado pelos metodistas. Apesar da vitória judicial, as perseguições do fazendeiro, que contava com a complacência das autoridades locais, não cessaram e após sucessivos ataques e ameaças de morte a família de Thomas migrou para Memphis, em 1890. A mudança, todavia, não significou melhoria nas condições de vida; tempos depois de chegarem à cidade, Lewis foi brutalmente assassinado e a família desestruturada.

Após a morte do pai, Frederick Thomas decidiu ir para Chicago na expectativa de escapar das injustiças cometidas contra os afro-estadunidenses que moravam no sul. Mas a mudança foi em vão, o racismo estava impresso na corporeidade e a estadia na cidade durou pouco. Resolveu então embarcar num navio e partir para a Europa, onde chegou em 1894. Thomas viveu em Londres durante alguns anos, antes de passar por vários outros países. Aprendeu francês, italiano, russo até finalmente assinar um contratado como motorista de família nobre numa recôndita região da Rússia. Em 1899, ele e a família que o empregara foram Moscou, onde Thomas fez amizade com alguns negros que residiam na cidade.

O racismo que o fez abandonar seu país de origem não era evidente na Rússia, tão menos se constituiu como impedimento para sua inserção social e econômica. Nos dezenove anos seguintes que viveu no império czarista, mudou de nome e passou a autodenominar-se “Fyodor Fyodorovich Tomas”.

Em Moscou, Thomas foi galgando posição e prestígio nos círculos em que frequentava. Durante anos, trabalhou como motorista, manobrista e garçom até tornar-se assistente do proprietário do “Restaurante Yar”, um distinto estabelecimento frequentado por diferentes personalidades, incluindo Gregory Rasputin, figura influente na família do czar Nicolau II.

Os contatos do afro-estadunidense aumentavam na mesma medida em que juntava dinheiro para investir no próprio negócio. Até que, em 1911, junto com dois amigos russos, Thomas alugou um grande espaço chamado “Aquarium”, onde construiu um teatro popular. Um ano depois, sozinho, abriu outro espaço teatral que vitaminou a carreira do jovem empresário e tornou-se a casa de entretenimento preferida dos moscovitas. A fama de Thomas cresceu tanto que, segundo seu biógrafo, o historiador Vladimir Alexandrov “turistas americanos ocasionais que passavam pela Rússia em suas turnês pela Europa relataram seu espanto por terem encontrado um americano negro ‘próspero’ e ‘enfeitado com diamantes’ em um cenário tão inesperado”. (The Black Russian, 2013, p. 113)

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Da rejeição em seu país natal ao sucesso na Rússia czarista, Frederick Thomas ascendeu de forma astronômica. Casou-se três vezes, teve cinco filhos, montou um império comercial que incluía restaurantes, hotéis, teatros, casas de aluguel e diferentes propriedades. Frequentava os salões da alta burguesia, além dos bairros pobres da capital onde mantinha contato com antigos companheiros de trabalho. Por volta de 1914, conquistou a cidadania russa e passou a ser chamado de “russo negro”. Para carimbar seu passaporte de entrada na burguesia russa, comprou uma mansão na cidade de Odessa, às margens do Mar Negro, lugar frequentando por pessoas próximas aos imperadores.

A vida de Thomas mudou quando estourou a Revolução Bolchevique de 1917, que colocou um ponto final no regime czarista. O imigrante estadunidense do Delta do Mississippi descobriu subitamente que estava do lado errado da história. A opressão que sofreu como homem negro nos Estados Unidos foi superada pela riqueza constituída na Rússia imperial, mas nada poderia atenuar esse “pecado” de classe que os revolucionários bolcheviques queriam destruir.

Os comunistas não admitiam que um estadunidense, negro e rico sobretudo, tivesse tanto poder numa sociedade como aquela. Mas aqui cabe um parêntese: a velha tradição russa da vida comunitária só seria questionada com a revolução, pois tirando os ciclos de intempéries climáticas ou guerras, essa forma de vida comunitária manteve sua diversidade funcional por anos a fio. Fechado o parênteses, sigamos com o texto.

Da casa em Odessa, Thomas fugiu com a família para Constantinopla, na Turquia, numa partida repleta de sobressaltos e sem conseguir transportar parte da fortuna que havia constituído. Deixou praticamente tudo para trás, levando apenas o essencial.

Sem muitos contatos e praticamente falido, Thomas começou se reerguer aos poucos por meio de pequenos negócios em Constantinopla. Em três meses, abriu uma casa de shows que escreveria definitivamente seu nome na história do Império Otomano. Em seu estabelecimento, ele introduziu um dos ritmos mais tocados até hoje na Turquia: o jazz.

O sucesso da casa foi estrondoso, a boemia turca dos anos 1920 adorava o ritmo apresentado pelo afro-estadunidense e viajantes de diferentes lugares do mundo que passavam por Constantinopla corriam para conhecer a famosa boate de jazz. Thomaz novamente construiu um império colossal e sua fama foi de tal magnitude que lhe apelidaram de “sultão do jazz”.

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Apesar de ter se reerguido economicamente, a estadia em Moscou foi singular. Após a fuga da Rússia, Thomas nunca mais se livrou do “fardo da raça”, elemento que contribuiu decisivamente para sua ruína quando o Império Otomano sucumbiu. Para os turcos, a cor de pele jamais constituiu questão relevante; o Império Otomano era etnicamente heterogêneo e não entendia o mundo da mesma maneira que os Estados Unidos racista da primeira metade do século XX.

No entanto, Thomas não pôde evitar lidar com os diplomatas no Consulado Geral Estadunidense, locado em Constantinopla, ou com os racistas que controlavam o Departamento de Estado dos Estados Unidos e operavam na região. Quando ele mais precisou da ajuda desses funcionários do governo, deram as costas e se recusaram a reconhecê-lo como cidadão estadunidense; negaram-lhe inclusive proteção legal num momento derradeiro da vida.

Abandonado pelos Estados Unidos, vilipendiado pela xenofobia da nova República Turca, que nascera em 1922 e confiscara parte considerável de suas propriedades, bem como preso a sua própria extravagância, o “sultão do jazz” contraiu dívidas milionárias, amargou derrotas judiciais, vendeu as propriedades remanescentes e ainda assim não conseguiu pagar seus credores. Terminou na vida na prisão, abandonado e na miséria, em 1928, na mesma Constantinopla que o acolhera anos antes.

No início do século XX, os Estados Unidos não tinham interesse em celebrar as conquistas de seus cidadãos negros. Esta é a principal razão pela qual Frederick Bruce Thomas é completamente ignorado até hoje no país. Poucos conhecem a trajetória do “russo negro” ou “sultão do jazz”, que fez fortuna na Rússia czarista e introduziu o jazz de forma irreversível na Turquia.

Frederick Thomas é exemplo cabal dos negros que fugiram dos EUA para escapar do racismo e que subiriam ao topo da escada econômica na Europa e em outros lugares, apesar das revoluções, guerras e outros obstáculos com os quais tinham de lidar. Num tempo em que as cruezas do racismo são sistematicamente expostas, é oportuno resgatar os feitos de personagens negros que foram silenciados pela história e estão cimentados nas grossas camadas da indiferença.

Eduardo Bonzatto é professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB).

Luis Gustavo Reis é professor e editor de livros escolares.

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2 comentários

  1. O que Putin tem a ver com essa história, cara pálida? Somente para ser chamado de “autocrata que ocupa o poder”? É um usurpador ou foi eleito conforme as regras vigentes na sociedade russa?

  2. Não exagere no autoritarismo de Putin. Sim, existe autoritarismo, mas em proporções que a esmagadora maioria das pessoas considera aceitáveis. E a grande maioria acredita que até o fim da nova Guerra Fria, alguns aspectos do liberalismo e da democracia podem esperar.

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