Mais do que uma carta, por Janio de Freitas

da Folha

Mais do que uma carta, por Janio de Freitas

A carta aberta em que 104 advogados, juristas e professores expressam “repúdio ao regime de supressão episódica de direitos e garantias” na Lava Jato, configurando uma situação de risco para a Justiça brasileira, tem um problema insolúvel pelos signatários: para não ser dada como mera queixa de advogados, o que alguns acusadores logo fizeram, precisaria dar exemplo de cada tipo de impropriedade mencionado. O que talvez nem fosse difícil, mas exigiria espaço imensamente maior do que a meia página de “informe publicitário” que o simples relato exigiu. E a tarefa era também da chamada mídia, no entanto incluída pelos signatários nos procedimentos que ferem os direitos e garantias, sem falar na ética, e perturbam a Justiça.

A carta dos advogados segue-se a recente pronunciamento no mesmo sentido, mas diferente na forma, de uma corrente de juízes. Também não personaliza as denúncias. Apesar disso, toda a leitura leva aos integrantes da Lava Jato.

Mais que à própria Lava Jato, porém, a mensagem importa para o Conselho Nacional de Justiça, em particular ao seu presidente, Ricardo Lewandowski, e ao ministro Teori Zavascki, relator no Supremo Tribunal Federal das denúncias e delações premiadas procedentes da Lava Jato. Sergio Moro e os demais ativistas do caso já receberam numerosas observações sobre excessos seus e, com o evidente e até declarado sentimento de messianismo, desprezaram-nas. Lewandowski e Zavascki são, no caso, os guardiães do Estado de Direito, das normas que a todos nos protegem das arbitrariedades e prepotências dadas como extintas com o fim da ditadura.

Aos dois, sobretudo, diz respeito a carta aberta dos 104. A ambos cabe verificar, estudar, auscultar –e deter as impropriedades que acaso identifiquem. Antes que comecem a expandir-se.

OS AGRESSORES

Um grupo da comunidade judaica passou a semana em campanha contra mim. Suas mensagens ao Painel do Leitor, à direção da Folha e na internet têm as mesmas acusações infamantes e até as mesmas palavras e frases, a indicar o procedimento orientado. Atribuem-me intenção que nunca tive e insinuações e afirmações que não fiz.

Em segunda nota da coluna “A mensagem do quebra-quebra” (Folha, 10.jan, pág. A6), comentei, fundado em fatos, a tentativa do primeiro-ministro Netanyahu de impor ao Brasil um embaixador, Dani Dayan. Sem fazer a consulta de praxe ao governo brasileiro, divulgando-a antes de tudo na internet, e escolhendo um dos chefes de invasões e construções de bairros israelenses em terras palestinas. O que contraria a resolução da ONU que criou Israel, a posição do Brasil desde então e já foi várias vezes condenado pela mesma ONU.

O Netanyahu que assim age não tem a maioria em Israel. Para ser primeiro-ministro, alia-se ao fundamentalismo religioso, à custa de concessões que tornam mais extremista o seu e o radicalismo direitista do seu partido. A concepção democrática é da oposição. Há um ano e meio, o governo de Netanyahu repete atitudes insultuosas ao Brasil, dizendo-o “anão diplomático”, “politicamente irrelevante”, cuja presidente “fugiu” dele, Netanyahu, na COP-Paris. Na escalada, a pretendida imposição de um embaixador indesejado.

Assim terminava a nota: “O convívio cordial que é dado aqui à comunidade judaica não faria prever os insultos e provocações que Israel vem dirigindo ao Brasil. Essa comunidade tem os seus extremistas. Será melhor, para todos, que eles sejam contidos e não importem o espírito de Netanyahu. Os ânimos no Brasil não estão para riscos desse tipo”. Nada do que citei foi contestado pelos agressores.

Mas a leitura falseada do último parágrafo serviu para a campanha: fui acusado de escrever uma “ameaça à comunidade judaica”, por “ódio a Israel” e “aos judeus”, de publicar “atitude intimidatória com a comunidade judaica”, por ser “abertamente antissemita”, de fazer incitação, e daí por diante em linguagens iradas e violentas.

Volto ao não embaixador Dani Dayan: “O Brasil vai ter represália”. Sou eu quem ameaça? As mensagens incitam a comunidade judaica contra mim. Sou eu quem ameaça?

Não é inteligente supor que eu tivesse a presunção de ameaçar uma comunidade, étnica ou religiosa: é ridículo. Mas é também uma falsidade e uma forma de agressão. No país em que calúnia, difamação e injúria estão qualificadas no Direito Criminal e constam do Código Penal.

 

 

 

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8 comentários

    • Pessoal, e se esta manchete

      Pessoal, e se esta manchete fosse verdadeira: ” Israel rompe com o Brasil”. O que  aconteceria com o mundo??? Desculpem: porra nenhuma. Portanto, vamos deixar de besteira e vamos buscar uma outra pauta que tenha relevância para nosso país. Israel é só mais um país e nada mais. Quem “gosta” dele são os EUA.

  1. 2 assuntos extremamente importantes

    O primeiro, a famigerada Lava Jato que ao contrário do que pregam ao intitulá-la como a maior guerra à corrupção, não passa na verdade do maior caso de corrupção já visto nesse país com um entrelaçamento de judiciário, mídia, partidos políticos e o aparato policial federal.

    Nunca dantes nesse país se formou uma aliança com interesses tão obtusos como dessa famigerada aliança que atua via essa Lava Jato.

    O segundo trata do eterno assunto judeus/Israel, quando vai se colocar às claras o porque de tanto poder, arrogância e hipocrisia pelo que dizem ser os judeus/Israel. Como pode um país que não existia no papel, que não se cansa de lembrar ao mundo os horrores do nazismo e sua perseguição, tomarem as atitudes que hoje tomam, praticando exatamente os que os nazistas faziam contra eles, incluindo uma segregação intra muros.

    Esse é uma assunto que precisa ser revisado e discutido independente das ameaças explícitas desse binômio.

    Brasil, resista e não aceite essa imposição custe o que custar.

  2. Prezado Jânio
       Em primeiro

    Prezado Jânio

       Em primeiro lugar advogados e lava jato.  Me parece que os argumentos querendo desqualificar as colocações dos advogados dos réus  é um total absurdo. Algo como dizer  a alguém que a vítima não pode se defender. O que me incomoda é que estes advogados tiveram que vir a publica, pela total ausência de uma fiscalização sobre o Judciário. Muito se fala da fragilidade do Ministro da Justiça, mas eu falo também da fragilidade dos mais altos escaloẽs da justiça. Quando uma tropa de choque intimida um juiz como Fachin , nas vésperas da emissão de um parecer eu não vi nenhuma manifestação da mais alta corte. Quando diante do descalabro de  manifestações político partidárias do sr Juiz Moro, condenando em seus despachos, antes de qualquer julgamento, pessoas que estão impotentes em suas mãos. Quando acordos de delação  premiam e lavam o dinheiro de criminosos confessos. Quando um juiz bate palma para uma permissão de uma  ação diversionista, como a perpetrada com a invasão do escritório do filho de um ex presidente. Quando um juiz faz afirmações sobre partidos antes mesmo de provas coletadas. e nada disto foi sequer questionado pela nossa mais alta corte. Fica a pergunta. Quem pode controlar isto tudo? Se  um Conselho Nacional de Justiça fosse  capaz de conter estes abusos, talvez os advogados dos réus,não precisassem  se manifestar. 

    Quanto ao segundo assunto, Netanyahu,  quando escolhe Avigdor Liebermam  para ministro do Exterior compromete de fato toda a sua diplomacia. Quando escolhe Dani Dayan, sem consulta comete uma gafe e causa um imbroglio diplomatico.  Como já disse anteriormente a direita israelense tem trabalhado para isolar Israel, pois este isolamento aumenta o medo e o clima de terror. E é esse clima  e este eterno criar inimigos externos  que mantem esta direita no poder. Mas Israel é bem maior do que a sua direita, assim como a comunidade judaica no Brasil é bem maior do que isto. Shalon

  3. A tal carta foi publicada com

    A tal carta foi publicada com assinatura falsa do ministro Gilson Dipp do STJ. Disseram que ele assinava o manifesto, ele disse que não assinou coisa alguma e quando foram checar alguém botou uma assinatura dele lá, e ele ficou indignado dizendo que não só não assinou como repudia o conteúdo. Janio de Freitas não é mais jornalista. Se o fosse seria o primeiro a se indagar pra que 103 “renomados” juristas (na verdade a maior parte ninguém conhece, pois não é gente que gosta de aparecer na mídia) precisam forjar a assinatura de um ministro do STJ para dar credibilidade a um panfleto político. Isso é notícia, muito mais relevante do que o teor da carta. Um colega de jornal do sr. Janio de Freitas mostrou ao velhinho numa entrevista com um dos distintos signatários, dr. Tercio Lins e Silva, como se faz jornalismo de verdade: apertou o cara sobre a assinatura forjada e perguntou porque a carta não criticava o Supremo, afinal mais de 90% das condenações de Moro foram mantidas naquela instância. O renomadíssimo advogado se limitou a balbuciar, “, o STF é diferente, não conheço esses números e não sabia que o Ministro Dipp não tinha assinado, mas isso não importa..” Na verdade ele não sabia sequer quem tinha assinado ou não a carta, que aliás duvido que ele leu. Esse é o preparo e o estofo da turma que critica a Lava Jato. 

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