No Brasil, na Argentina e no mundo a Covid-19 mata mais que hemorroida, por Yanne Teles

Alberto Fernandez, ao anunciar a extensão da quarentena obrigatória até 7 de junho, bastante emocionado, falou sobre a importância do isolamento.

da ABJD

No Brasil, na Argentina e no mundo a Covid-19 mata mais que hemorroida

por Yanne Teles

Estamos diante de uma pandemia sem precedentes na história do mundo, um desafio titânico que como bem declarou o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, “tempos extraordinários que exigem medidas extraordinárias”. Mas o Brasil, desafinado com o resto do mundo, em recente reunião ministerial divulgada no dia 22 de maio, por decisão do ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), o Presidente Jair Bolsonaro, quem dera demonstrasse o mínimo de preocupação com o momento vivido pelo país diante da pandemia do coronavírus, pelo contrário, ao passo em que faz críticas aos governadores que decretaram o isolamento social, esbraveja sua preocupação com hemorroidas e a sua liberdade.

De fato, afirmam os especialistas: hemorroida é bastante grave e desconfortante. Afinal ou e daí? O que são mais de 20 mil mortes diante das hemorroidas e da liberdade do governo federal? Por que não tratar as hemorroidas do governo Bolsonaro já que o país é agora, mesmo com grande subnotificação, o epicentro da pandemia da Covid-19 e se tornou o 2º país no mundo com mais casos.

Parece mesmo que o Governo Federal pensa que o tratamento para a Covid-19 é simples como para uma “gripezinha” ou mesmo para um tratamento de hemorroidas, que dependendo do grau, apenas com modificações comportamentais, como uma dieta de atleta, com muita fibra e evitar o sedentarismo. Por isso ele conclama “todos pra rua”!

Já o líder dos nossos hermanos, na Argentina, Alberto Fernandez, ao anunciar a extensão da quarentena obrigatória até 7 de junho, bastante emocionado, falou sobre a importância do isolamento.

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As medidas de isolamento social adotadas na Argentina estão em vigor desde 20 de março, se encerrariam no dia 24 de maio, mas foram prorrogadas na capital Buenos Aires, inclusive com controle mais rígido.

Nos últimos dias, houve um aumento no número de casos do novo coronavírus na região, especialmente em Buenos Aires. Alberto Fernandez destacou que o aumento de casos foi decisivo para estender o período de isolamento na capital.

Porém, mesmo com o aumento do número de mortes e infecções na Argentina, o país ainda está muito distante do número de casos do Brasil. E apesar das diferenças entre esses países, como, por exemplo extensão territorial, mas, levando-se em consideração a situação econômica semelhante e a Argentina ter praticamente um quinto da nossa população, o país tem hoje menos da metade de casos confirmados e um terço dos mortos em relação ao Brasil.

Assim como aconteceu em alguns países da Europa, como na Espanha, a Argentina quando adotou o isolamento social, já foi de forma total (lockdown), de modo que as pessoas só podiam sair de casa para comprar comida ou medicamentos, sob pena de serem detidas caso infringissem às medidas.

As sanções podem ser multas ou até mesmo prisão, cuja pena vai de seis meses a 15 anos, dependendo da gravidade do crime. Antes mesmo do decreto de isolamento, dia 15 de março as suas fronteiras foram fechadas. Apenas argentinos e residentes estavam autorizados a entrar no país.

No entanto, a Argentina não só enfrenta a Covid-19 com o isolamento. O governo hermano está dando condições para que as pessoas possam ficar em casa e determinou que os assalariados recebam seus salários na íntegra durante o período de isolamento social preventivo obrigatório. Além disso, concedeu um bônus para os aposentados e estabeleceu teto de preços para produtos alimentícios e de higiene.

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O país já gastou cerca de 700 bilhões de pesos no combate ao vírus e parte desse valor também foi para dar suporte a pequenas e médias empresas.

As medidas do governo argentino e os números de infectados, diante da realidade do mundo todo, comprovam a eficácia do isolamento social, especialmente se compararmos com a situação do Brasil. Que hoje é o líder, com sobra, da lista de países sul-americanos mais afetados pelo coronavírus. Somente o Estado de Pernambuco, no nordeste do Brasil, tem o dobro de casos da Argentina.

Mas, por enquanto, no Brasil, as eleições municipais estão se aproximando, por isso é tão importante para o Presidente Jair Bolsonaro debater com seus ministros o risco de uma hemorroida que é desconfortante e pode restringir a liberdade.

Yanne Teles. Professora, advogada e mestranda em Direitos Humanos pela Universidade Pablo de Olavide na Espanha. Conselheira estadual da OAB/PE, membro da Comissão Nacional de Direitos Humanos do Conselho Federal da OAB e da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD).

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