Steve Bannon, o Trotsky da Internacional dos Populistas, por Fernando Nogueira da Costa

Steve Bannon é originário da classe trabalhadora americana e nunca superou sua raiva original. Abomina a elite esnobe em relação a gente como ele. Ele luta para arrancar da intelligentsia liberal (esquerda norte-americana) a hegemonia cultural.

Steve Bannon, o Trotsky da Internacional dos Populistas

por Fernando Nogueira da Costa

Steve Bannon, um dos mentores da vitória de Donald Trump nas eleições de 2016, foi preso em um iate. É acusado de enganar milhares de doadores por meio de uma plataforma de financiamento coletivo chamada “We Build the Wall” (“Nós Construímos o Muro”). Acumulou US$ 25 milhões para o muro na fronteira entre EUA e México.

Bannon usou centenas de milhares de dólares desse dinheiro para expandir despesas pessoais. Entende-se porque pregou esse bordão xenófobo na campanha Trump…

Segundo Giuliano da Empoli, em seu livro “Os Engenheiros do Caos” (tradução Arnaldo Bloch. 1ª. ed. São Paulo: Vestígio, 2019), Steve Bannon é, de certo modo, o Trotsky do movimento populista, misto de ideólogo e organizador da Internacional dos populistas. Apresentarem-se como nacionalistas seria uma contradição em termos. Tais como seus representantes no Brasil, pertencentes ao clã Bolsonaro da casta dos militares, não rejeitam a submissão aos Estados Unidos, presidido por Donald Trump.

Steve Bannon é originário da classe trabalhadora americana e nunca superou sua raiva original. Abomina a elite esnobe em relação a gente como ele. Ele luta para arrancar da intelligentsia liberal (esquerda norte-americana) a hegemonia cultural.

Antes de se integrar a campanha de Trump, Bannon comandou o site de contrainformação, Breitbart News, do movimento “direita alternativa” dos EUA. Abriga nacionalistas, supremacistas brancos, neonazistas e antissemitas radicais. Bannon logo aprendeu com seu mestre Andrew Breitbart, fundador do site homônimo: “a política deriva da cultura”. Aliás, Antônio Gramsci, à esquerda, sugeriu isso muito antes.

Seus membros se imaginam conspiradores contra o establishment. São militaristas ou, simplesmente, indivíduos raivosos. Sempre estão decididos a impor um ponto de vista diferente com “negacionismo científico” sobre as principais questões no centro do debate: a imigração, o livre-comércio, a defesa das minorias e os direitos civis.

A internet revolucionou a política em diversos países. O populismo neofascista se iniciou na Itália. Lá, pela primeira vez, o poder foi conquistado por uma forma nova de tecnopopulismo pós-ideológico, fundado não em ideias, mas em algoritmos formadores de opiniões extremistas, disponibilizados pelos engenheiros do caos.

Segundo Empoli, um tecnólogo de informações (Gasaleggio), especialista em marketing digital, dirigiu o Movimento 5 Estrelas, aliado a um comediante popularíssimo (Grillo). Depois de constituir sua rede social a partir de um blog, fundou o partido e escolheu os candidatos submetidos à sua visão até assumir o controle do governo de toda a nação.

No dia 8 de setembro de 2007, em toda a Itália, praças foram tomadas por apoiadores do movimento populista. Direita e esquerda se confundiam, tal como nas “gloriosas (sic) jornadas de junho de 2013” no Brasil, abertura da porta para a direita “sair do armário”, onde tinha se metido desde a Campanha Diretas Já, há 30 anos.

Insuflados por Grillo, os italianos raivosos manifestaram o Vaffanculo [Vão se fuder, políticos!] à casta dos homens políticos corruptos, pressuposta opressora de toda “gente de bem”. Em plena recessão, com uma taxa de desemprego de 13% e uma carga tributária recorde, os italianos estavam cada vez mais receptivos às palavras de ordem simplórias do Movimento 5 Estrelas, organizado por uma rede social de ódio.

Em poucos meses, ele se torna o único verdadeiro partido nacional do país, popular do Norte ao Sul, entre jovens e velhos, capaz de captar vozes tanto à esquerda quanto à direita. Nas eleições de fevereiro de 2013, o Movimento 5 Estrelas, com pouco menos de 9 milhões de votos e 25% do sufrágio, se torna o partido mais votado da Itália.

A Física Social, há dois séculos, foi definida como “ciência cujo objeto é o estudo de fenômenos sociais, considerados similares aos fenômenos astronômicos, físicos, químicos e psicológicos”. Eles estariam sujeitos às leis naturais invariáveis, cuja descoberta é a meta das pesquisas: reduzir a sociedade a uma equação matemática.

Nunca atingiu o objetivo de tornar mais previsível a evolução da sociedade. Mas, nos últimos anos, os comportamentos humanos começaram a produzir um fluxo maciço de dados por conta da digitalização de todos os celulares. Graças à internet e às redes sociais, nossos hábitos, nossas preferências, opiniões e mesmo emoções passaram a ser mensuráveis. Somos rastreáveis e mobilizáveis dentro de nossas “câmaras de ecos”.

Quantos “amigos” ou seguidores você tem na internet? Quinhentos? Mil? Não se iluda. O limite das relações humanas é determinado pela biologia evolutiva. O ser humano tem capacidade de manter uma rede de amizade composta por, em média, 150 pessoas.

Conhecido como “número de Dunbar”, ele foi estipulado, na década de 90, pelo antropólogo inglês Robin Dunbar. Compartilhar informações pessoais com quem não se tem intimidade, em rede social, cria a falsa sensação de amizade.

Na Física, o comportamento de cada componente de um sistema não é previsível. Cada um, porém, é submetido a interações com uma infinidade de outros. O comportamento de um aglomerado é previsível. Através da observação do sistema é possível deduzir o comportamento médio de certos nódulos centrais com múltiplas interconexões.

As interações contam mais em vez das unidades individuais. O sistema emergente, tomado em seu conjunto, possui características – e obedece a regras – passíveis de tornar previsíveis e manipuláveis tanto suas opiniões quantos suas ações. As leis da Física, em análise de big data, se aplicam aos comportamentos humanos aglomerados.

Um sistema de seres humanos, interativos entre si, pode ser um sistema caótico. Uma fake news pode ser a pequena modificação inicial capaz de produzir imensos efeitos secundários. Provoca até uma comoção social influente em uma eleição.

O Facebook, por exemplo, permite testar simultaneamente dezenas de milhares de mensagens diferentes, selecionando em tempo real as com um retorno positivo e bem-sucedido. Por um processo de otimização contínua, consegue-se elaborar versões mais eficazes para mobilizar partidários e convencer os céticos. Graças ao trabalho de físicos, aplicado à comunicação, cada categoria de eleitores recebe uma mensagem sob medida.

Pode-se, por exemplo, abordar os argumentos mais controversos, endereçando-os somente àquelas pessoas sensíveis a eles, sem correr o risco de perder o apoio de outros eleitores com pensamento diferente. Chama-se “dog whistle politics” [“política do apito para cão”], quando só alguns percebem o chamado, enquanto outros não ouvem nada.

A Física Newtoniana era baseada na observação a olho nu ou pelo telescópio. Ela descrevia um universo mecânico, regido por leis imutáveis, no qual certas causas produziam certas consequências. A Física Quântica desafia essas antigas leis da racionalidade científica. Revela um mundo de relatividade, no qual nada é estável e onde uma realidade objetiva não pode existir, porque, inevitavelmente, cada observador a modifica na perspectiva de seu ponto de vista pessoal.

De maneira análoga, a Política Newtoniana estava adaptada a um mundo mais ou menos racional, controlável, no qual a uma ação correspondia uma reação. Os eleitores podiam ser considerados como componentes dotados de pertencimentos ideológicos, de classe ou de território, dos quais derivavam escolhas políticas definidas e constantes.

Com a Política Quântica, a realidade objetiva não existe. Cada coisa se define, provisoriamente, em relação a uma outra, e, sobretudo, cada internauta determina sua própria realidade. Em sua bolha, recebe apenas informações pelas quais se interessa.

Na Política Quântica, a versão do mundo vista por cada um é literalmente invisível aos olhos de outros. Afasta cada vez mais a possibilidade de um entendimento coletivo.

Cada um fica dentro de sua própria bolha, no interior da qual só certas vozes se fazem ouvir. Apenas alguns fatos existem. Na ultrapassada Política Newtoniana, cada um tinha direito a suas próprias opiniões, mas não a seus próprios fatos, mas na Política Quântica esse princípio não é mais viável. A verdade passa a ser a interpretação.

Alguns analistas comparam a política norte-americana atual ao clima de 1860, antes da Guerra Civil. Os democratas querem acabar com as injustiças históricas, para conquistar um país multicultural, negro, branco, pardo, gay, transgênero, com necessidades especiais e cosmopolita. Os republicanos têm a aparência predominantemente branca, suburbana, provinciana e quase exclusivamente heterossexual. Os conservadores buscam restaurar a situação histórica a uma época anterior ao “politicamente correto”.

No Brasil, como diz Maria Rita Kehl, “para o machista, homofóbico, misógino e conservador em costumes religiosos deve ser um osso duro de roer ver a alegria, a liberdade e a autossuficiência da geração do #EleNão”. Acumula ressentimento.

Os apoiadores do autoritarismo militar se ressentiram de ficar de fora da festa da reconquista da democracia. Eles não se veem como perdedores na competição social, mas como “prejudicados”. Ressentidos, acusam a gente culta de esquerda por isso.

Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Autor de “Golpe Econômico: Locaute ou Nocaute da Economia Brasileira” (2020). Baixe em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/
E-mail: [email protected]

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