Cercado de fascistas, fiquei com saudade de um pequeno rei sábio, por Sebastião Nunes

Ah, que saudades que tenho de quando o presidente da Funarte entendia de arte, o ministro da educação sabia escrever e havia, na área da cultura, pessoas cultas ligadas à música e à literatura

Cercado de fascistas, fiquei com saudade de um pequeno rei sábio

Por Sebastião Nunes

Ah, que saudades que tenho de quando o presidente da Funarte entendia de arte, o ministro da educação sabia escrever e havia, na área da cultura, pessoas cultas ligadas à música e à literatura. Em suma, quando havia vida inteligente no governo, no lugar dessa quantidade espantosa de débeis mentais.

Como foi que isso aconteceu? Quando foi que os corações e mentes deste país, distraídos por suas ainda pequenas conquistas, permitiram essa avalanche inacreditável de estupidez, intolerância, burrice e ignorância?

De que esgoto, de que cloaca, de que subterrâneo imundo saíram eles?

Quase um ano depois, ainda é difícil acreditar que estejamos mergulhados numa inacreditável Idade Média mental, com uma multidão asquerosa de criaturas patéticas ocupando os postos mais importantes do país.

 Resolvi, então, reproduzir, pela segunda vez, um texto escrito para crianças.

Trata-se do capítulo X do livro infantil “O pequeno príncipe”, do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, publicado em 1943, um ano antes de sua morte.

À medida que o copio, imagino como o aviador-humanista Saint-Exupéry ficaria horrorizado se aterrizasse em Brasília, nossa infeliz e absurda capital federal.

“Ele se achava na região dos asteroides 325, 326, 327, 328, 329, 330. Começou, pois, a visitá-los, para procurar uma ocupação e se instruir.

O primeiro era habitado por um rei. O rei sentava-se, vestido de púrpura e arminho, num trono muito simples, posto que majestoso.

– Ah! Eis um súdito, exclamou o rei ao dar com o principezinho.

E o principezinho perguntou a si mesmo:

– Como pode ele reconhecer-me, se jamais me viu?

            Ele não sabia que, para os reis, o mundo é muito simplificado. Todos os homens são súditos.

– Aproxima-te, para que eu te veja melhor, disse o rei, todo orgulhoso de poder ser rei para alguém.

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O principezinho procurou com os olhos onde sentar-se, mas o planeta estava todo atravancado pelo magnífico manto de arminho. Ficou, então, de pé. Mas, como estava cansado, bocejou.

– É contra a etiqueta bocejar na frente do rei, disse o monarca. Eu o proíbo.

– Não posso evitá-lo, disse o principezinho confuso. Fiz uma longa viagem e não dormi ainda…

– Então, disse o rei, eu te ordeno que bocejes. Há anos que não vejo ninguém bocejar! Os bocejos são uma raridade para mim. Vamos, boceja! É uma ordem!

– Isso me intimida… eu não posso mais… disse o principezinho todo vermelho.

– Hum! Hum! respondeu o rei. Então… então eu te ordeno ora bocejares e ora…

Ele gaguejava um pouco e parecia vexado.

Porque o rei fazia questão fechada de que sua autoridade fosse respeitada. Não tolerava desobediência. Era um monarca absoluto. Mas, como era muito bom, dava ordens razoáveis.

“Se eu ordenasse, costumava dizer, que um general se transformasse em gaivota, e o general não me obedecesse, a culpa não seria do general, seria minha.”

– Posso sentar-me? interrogou timidamente o principezinho.

– Eu te ordeno que te sentes, respondeu-lhe o rei, que puxou majestosamente um pedaço do manto de arminho.

Mas o principezinho se espantava. O planeta era minúsculo. Sobre quem reinaria o rei?

– Majestade… eu vos peço perdão de ousar interrogar-vos…

– Eu te ordeno que me interrogues, apressou-se o rei a declarar.

– Majestade… sobre quem é que reinais?

– Sobre tudo, respondeu o rei, com uma grande simplicidade.

– Sobre tudo?

O rei, com um gesto discreto, designou seu planeta, os outros, e também as estrelas.

– Sobre tudo isso?

– Sobre tudo isso… respondeu o rei.

Pois ele não era apenas um monarca absoluto, era também um monarca universal.

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– E as estrelas vos obedecem?

– Sem dúvida, disse o rei. Obedecem prontamente. Eu não tolero indisciplina.

Um tal poder maravilhou o principezinho.

– Eu desejava ver um pôr de sol… ordenai ao sol que se ponha…

– Se eu ordenasse a meu general voar de uma flor a outra como borboleta, ou escrever uma tragédia, ou transformar-se em gaivota, e o general não executasse a ordem recebida, quem – ele ou eu – estaria errado?

– Vós, respondeu com firmeza o principezinho.

– Exato. É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar, replicou o rei. A autoridade repousa sobre a razão. Se ordenares a teu povo que ele se lance ao mar, farão todos uma revolução. Eu tenho o direito de exigir obediência porque minhas ordens são razoáveis.

– E meu pôr de sol? lembrou o principezinho, que nunca esquecia a pergunta que houvesse formulado.

– Teu pôr de sol, tu o terás. Eu o exigirei. Mas eu esperarei, na minha ciência de governo, que as condições sejam favoráveis.

– Quando serão? indagou o principezinho.

– Hein? respondeu o rei, que consultou inicialmente um grosso calendário. Será lá por volta de… por volta de sete horas e quarenta, esta noite. E tu verás como sou bem obedecido.

O principezinho bocejou. Lamentava o pôr de sol que perdera. E depois, já estava se aborrecendo um pouco!

– Não tenho mais nada que fazer aqui, disse ao rei. Vou prosseguir minha viagem.

– Não partas, respondeu o rei, que estava orgulhoso de ter um súdito. Não partas: eu te faço ministro!

– Ministro de quê?

– Da… da justiça!

– Mas não há ninguém a julgar!

– Quem sabe? disse o rei. Ainda não dei a volta no meu reino. Estou muito velho, não tenho lugar para carruagem, e andar cansa-me muito.

– Oh! Mas eu já vi, disse o príncipe que se inclinou para dar ainda uma olhadela do outro lado do planeta. Não consigo ver ninguém…

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– Tu julgarás a ti mesmo, respondeu-lhe o rei. É o mais difícil. É bem mais difícil julgar a si mesmo que julgar os outros. Se consegues julgar-te bem, eis um verdadeiro sábio.

– Mas eu posso julgar-me a mim próprio em qualquer lugar, replicou o principezinho. Não preciso, para isso, ficar morando aqui.

– Ah! disse o rei, eu tenho quase certeza de que há um velho rato no meu planeta. Eu o escuto de noite. Tu poderás julgar esse rato. Tu o condenarás à morte de vez em quando: assim a sua vida dependerá da tua justiça. Mas tu o perdoarás cada vez, para economizá-lo. Pois só temos um.

– Eu, respondeu o principezinho, eu não gosto de condenar à morte, e acho que vou mesmo embora.

– Não, disse o rei.

Mas o principezinho, tendo acabado os preparativos, não quis afligir o velho monarca:

– Se Vossa Majestade deseja ser prontamente obedecido, poderá dar-me uma ordem razoável. Poderia ordenar-me, por exemplo, que partisse em menos de um minuto. Parece-me que as condições são favoráveis…

Como o rei não dissesse nada, o principezinho hesitou um pouco; depois suspirou e partiu.

– Eu te faço meu embaixador, apressou-se o rei em gritar.

Tinha um ar de grande autoridade.

As pessoas grandes são muito esquisitas, pensava, durante a viagem, o principezinho.”

Ah, seria tão bom se, neste país tornado impossível, houvesse a possibilidade de ter um presidente sábio como esse rei e um ministro da justiça humano assim.

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