“Opinião”, 1964-1965. Um novo tempo, por Rui Daher

Apesar de censura férrea, mas inculta, vários eventos se seguiram a “Opinião”, em teatro, cinema, música, artes plásticas, dança.

“Opinião”, 1964-1965. Um novo tempo.

por Rui Daher

Os movimentos migratórios no Brasil são assimétricos, perversos e patrocinados apenas por organizações autóctones, em geral de matriz política de esquerda e ligadas à nossa diversidade artística e cultural.

Das regiões Norte e Nordeste para o Sudeste, foram comuns, sobretudo, ao início da segunda metade do século passado.

O chamado Sul-Maravilha (do Rio Grande do Sul até o Rio de Janeiro e Minas Gerais, ainda subordinada à monocultura exportadora cafeeira) ensaiava passos retardados até a industrialização e tentava se igualar aos países recém-saídos da II Guerra Mundial.

Na época, o comércio exterior de commodities não tinha a proeminência de hoje em dia. Fosse diferente, talvez, não tivéssemos perdido oportunidades como as de vários ciclos em que o Brasil era dominante em posse de recursos naturais. Sempre pouco efetivos nossos governos miravam um alvo e somente quando apontavam o rifle esqueciam não os ter carregado.

Em todos nossos perrengues políticos, econômicos e sociais, a saída, mesmo que para andar curtos passos à frente, as artes e a cultura estiveram a cutucar nosso traseiro para ver se de lá saía algo que não fosse apenas merda.   

Ilustra a época a peça “Opinião”, escrita por Armando Costa, Oduvaldo Vianna Filho e Paulo Pontes, produzida pelos teatros de Arena, em São Paulo, e do Rio de Janeiro, no Shopping Copacabana, entre 1964 e 1965, pouco tempo depois do golpe civil-militar (março/1964), que levaria o Brasil da democracia à ditadura. Assim vivemos 21 plúmbeos anos.

A peça ou show musical durava pouco mais de 45 minutos, produzida pelo CPC – Centro Popular de Cultura da UNE (União Nacional de Estudantes). Na direção o teatrólogo Augusto Boal e no elenco o sambista Zé Keti, a cantora Nara Leão (depois substituída pela baiana Maria Bethânia), e o compositor João do Vale.

Apesar de censura férrea, mas inculta, vários eventos se seguiram a “Opinião”, em teatro, cinema, música, artes plásticas, dança. Os recursos eram, claro, parcos e vinham de movimentos populares, associações liberais de classe, ou da igreja católica.   

O movimento migratório do Norte para o Sul do Brasil continuaria até hoje, mas não com a intensidade daquela época. Alguns poderes incumbentes olhariam para a demanda daquela região, os empresários percebiam o risco de concentrar seus investimentos onde a competição aumentava, e valia a pena incorporar o potencial de consumo a ser explorado no Norte-Nordeste, ampliando o mercado nacional das grandes empresas, inclusive as estatais, criadas nos governos militares, como forma de substituição de importações.

Pesavam também dois fatores do trabalho: preços mais baratos da mão-de-obra naquela região e fiscalização mais frouxa das leis trabalhistas, ao limite das senzalas.

“Opinião”, mais do que texto e músicas significativas para a História do Brasil, apresentava-nos uma geração de jovens artistas da cultura se rebelando, através da arte e cultura, contra a ditadura civil-militar, os assassinatos, torturas, e a sucessão de medidas de exceção que reprimiam a expressão livre no Brasil.

Formou-se, por um lado, um grupo de intelectuais, expressão cultural libertária nas formas e conteúdos e, por outro lado, grupos políticos exacerbados dispostos a enfrentar o poderio militar através de ações guerrilheiras e terroristas.

Sempre indiferente, a grande massa do povo era conduzida pela indiferença, pois Deus, logo os faria melhorar de vida. Rezavam e formavam caravanas até a Basílica de Aparecida do Norte (SP), pobres e pacíficos, quando não reacionários de classe média ou do topo da sociedade civil, apaziguadora quando se tratava de preservar seus tostões, alegando, por influência norte-americana, impedir o comunismo dominar o País.

Há, portanto, que se pensar muito quando capítulos culturais de rebeldia daquele período são esquecidos ou, pior, contestados. Talvez, daí, a pouca repercussão de meu artigo para CartaCapital sobre o filme de Glauber Rocha, “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”. Uma elegia profética.

https://www.cartacapital.com.br/opiniao/a-profecia-de-glauber-rocha/

Se bem que o jornalista e escritor Ivan Lessa bem falasse que “De 15 em 15 anos, o Brasil esquece do que aconteceu nos últimos 15 anos”, leitoras e leitores ainda não devem ter esquecido como não andou o Brasil sob a presidência do Regente Insano Primeiro, RIP.

Terá sua derrota nas eleições de 2022 e a volta de Lula e do PT condições para fazer o Brasil acelerar os passos até uma democracia moderna e social?

Cedo para sabermos. Mesmo que ansioso e torcendo, confesso, duvidar. Gosto do que vi nesses 100 dias. Não que os esteja comparando com o inominável antecessor, este uma besta geopolítica risível. Seria mamão com açúcar.

Contudo, diferente de outros momentos de nossa História, no campo da cultura e das artes, não vejo nenhum movimento para servir de esteira a quem irá desalojar o poder da financeirização?

O BBB, o elenco das Record e Bandeirantes, Anitta, caubóis à caráter de Hollywood em 1940, duplas sertanejas ensinando o que se faz em motéis, Marighella descaracterizado em negro retinto que não foi (todo o respeito ao cantor Seu Jorge)?  

Mas, colunista menor, você quase não morreu corroído pela década perdida terçando arminhas e ignorâncias com RIP, amigos, familiares, mídia corporativa que, praticamente, o deixaram com a mobilidade comprometida?

Vai desistir?

Não! Uma esperança. Sempre fomos bons em produzir documentários. Temos um: “Babel SP” (Série HBO, 2019). Produzido por um grupo de São Paulo, que se dedica ao trabalho de acolhimento de refugiados árabes e palestinos, também brasileiros, fazendo com que se relacionem em habitações desocupadas e expansão de educação e cultura entre eles.

Volto com essa esperança. Novos Glauber, Vianinha, Vandré, Boal, Eduardo Kobra, outros, que devo estar esquecendo muitos, apareçam. Lula voltou para isso. Mas vocês são o estopim. Deixem comigo a gasolina.

Rui Daher – administrador, consultor em desenvolvimento agrícola e escritor

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Rui Daher

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